Mundividências Teosofia

A Carta do Mahachohan

Sociedade Teosófica

UM MAHATMA DOS HIMALAIAS

Partilhando a Luz da Teosofia

Para A.P. Sinnet (1881)

Resumo da visão do Chohan sobre a S.T., a partir das suas próprias palavras, conforme transmitidas na noite passada. Minha própria carta, em resposta à sua, seguirá em breve.


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K.H.

CARTAS DOS MESTRES DE SABEDORIA – Primeira e Segunda Séries. Transcritas e compiladas por C. Jinarajadasa, página 17. Os comentários sobre esta Carta estão na p.113 e seguintes.

“A doutrina que promulgamos, por ser a única verdadeira, deve, apoiada em provas como as que estamos por oferecer, triunfar, afinal, como qualquer outra verdade. Contudo, é absolutamente necessário incuti-la gradualmente, colocando em prática suas teorias, factos inquestionáveis para aqueles que sabem, com inferências diretas deduzidas das — e corroboradas pelas — evidências fornecidas pelas modernas Ciências Exatas. Esta é a razão pela qual o Coronel H.S.O., que trabalha apenas para reviver o Budismo, pode ser visto como alguém que se esforça na verdadeira senda da Teosofia, muito mais do que qualquer outra pessoa que escolha como meta a gratificação de suas próprias e ardentes aspirações ao conhecimento oculto. Despojado de suas superstições, o Budismo é verdade eterna, e aquele que se esforça por encontrar esta última está buscando a Theo-Sophia, Sabedoria Divina, que é um sinônimo da verdade.

Para que nossas doutrinas ajam de forma prática sobre o assim chamado código moral, ou as ideias de retidão, pureza, Auto Esquecimento, caridade, etc., temos de popularizar o conhecimento da Teosofia. O que caracteriza o verdadeiro teosofista não é o objetivo individual e determinado de obter para si mesmo o Nirvana (culminação de todo conhecimento e sabedoria absoluta) — o que, afinal, é apenas um sublime e glorioso egoísmo — mas a dedicação à busca com auto-sacrifício do melhor meio para levar nosso próximo ao caminho correto, beneficiando o maior número possível de nossos semelhantes.

Os setores intelectualizados da humanidade parecem estar-se dividindo rapidamente em dois grupos. Um prepara-se inconscientemente para longos períodos de aniquilação temporária, ou estados de não-consciência, devido ao abandono deliberado de seu intelecto, e aprisionamento nas estreitas trilhas do fanatismo religioso e da superstição, processo que inevitavelmente conduz à total deformação do princípio intelectual; o outro entrega-se desenfreadamente a seus impulsos animais, com a intenção deliberada de submeter-se à aniquilação pura e simples em caso de fracasso, e a milênios de degradação após a dissolução física. Essas “classes intelectuais”, agindo sobre as massas ignorantes que elas atraem, e que as veem como nobres e dignos exemplos a seguir, rebaixam e degradam moralmente aqueles que deveriam proteger e orientar. Entre a superstição degradante e o ainda mais degradante e brutal materialismo, a pomba branca da verdade dificilmente encontra um lugar onde possa descansar seus pés desprezados e exaustos.

Já é tempo de a Teosofia entrar em cena; os filhos dos teosofistas serão mais provavelmente teosofistas, em seu tempo, do que qualquer outra coisa. Nenhum mensageiro da verdade, nenhum profeta jamais conquistou, durante seu tempo de vida, um completo triunfo, nem mesmo Buda. A Sociedade Teosófica foi escolhida como a pedra fundamental, o alicerce da religião futura da humanidade. Para alcançar o objetivo proposto, foi determinado que houvesse uma convivência maior, mais sábia, e especialmente mais benevolente, do superior com o inferior, do Alfa e do Ômega da sociedade. A raça branca deve ser a primeira a estender a mão da fraternidade aos povos de cor escura e a chamar de irmão o pobre “negro” desprezado. Esta perspetiva pode não agradar a todos, mas não é teosofista aquele que se opõe a este princípio.

Em vista do sempre crescente triunfo e, ao mesmo tempo, mau uso do livre-pensamento e da liberdade (o reino universal de Satã, como o chamaria Eliphas Levi), como poderia o instinto combativo natural do homem ser impedido de infligir crueldades e atrocidades,  tirania, injustiça, etc., até hoje inimagináveis, se não através da tranquilizadora influência de uma fraternidade e da aplicação prática das doutrinas esotéricas de Buda?

Pois, como todos sabem, a libertação total da autoridade do poder único ou lei que a tudo impregna, chamada de Deus pelos padres — Buda, Sabedoria Divina e iluminação ou Teosofia pelos filósofos de todas as épocas — significa também a emancipação, no mesmo sentido, da lei humana.

As doutrinas fundamentais de todas as religiões se comprovarão idênticas em seu significado esotérico, uma vez que sejam desagrilhoadas e libertadas do peso morto representado pelas interpretações dogmáticas, dos nomes pessoais, das concepções antropomórficas e dos sacerdotes assalariados. Osíris, Krishna, Buda e Cristo serão apresentados como nomes diferentes de uma mesma estrada real para a bem-aventurança final, o Nirvana.

O Cristianismo místico, isto é, aquele Cristianismo que ensina a Auto libertação através do nosso próprio sétimo princípio — o Para-Atma (Augoeides) libertado, chamado por alguns de Cristo, por outros, de Buda, e equivalente à regeneração ou renascimento em espírito — será visto como  exatamente a mesma verdade do Nirvana do Budismo. Todos nós temos de nos livrar de nosso próprio Ego, o ser ilusório e aparente, a fim de reconhecer nosso verdadeiro ser em uma vida divina transcendental. Mas, se não formos egoístas, devemos esforçar-nos e fazer com que outras pessoas vejam essa verdade, e reconheçam a realidade desse ser transcendental, o Buda, Cristo ou Deus de cada pregador. Esta é a razão por que mesmo o Budismo exotérico é o caminho mais seguro para conduzir os homens em direção à única verdade esotérica.

Do modo como se encontra o mundo agora, seja cristão, muçulmano ou pagão,  a justiça é desconsiderada, enquanto a honra e a piedade são atiradas ao vento. Numa palavra, vendo que os objetivos principais da S.T. são mal interpretados por aqueles mais interessados em nos ajudar pessoalmente, como iremos lidar com o restante da humanidade, em meio à maldição conhecida como “luta pela vida”, que é a real e mais prolífica causa da maioria das desgraças e tristezas e de todos os crimes? Por que esta luta teve que tornar-se o esquema quase universal do universo? Nós respondemos: porque nenhuma religião, com exceção do Budismo, ensinou até agora um desapego prático por essa vida mundana, enquanto cada uma delas — sempre com aquela única e solitária exceção — através de seus infernos e danações, inculcou o maior pavor em relação à morte. Por isso nós encontramos, de facto, esta luta pela vida imperando mais violentamente nos países cristãos, prevalecendo especialmente na Europa e na América. Ela é mais fraca nas terras pagãs e praticamente  desconhecida entre as populações budistas. (Na China, durante um período de fome, onde as massas são mais ignorantes em relação a sua própria religião ou a qualquer outra, foi notável o facto de que aquelas mães que devoraram seus filhos pertencessem às localidades onde se encontrava a maior quantidade de missionários cristãos; onde não havia nenhum deles e apenas os bonzos possuíam a terra, a população morria com o máximo de indiferença). Ensine-se ao povo a ver que a vida nesta Terra, mesmo a mais feliz, é apenas um fardo e uma ilusão, que apenas o nosso próprio karma, a causa que produz um efeito, é nosso próprio juiz, — nosso salvador em vidas futuras — e a grande luta pela vida em breve perderá sua intensidade. Não há penitenciárias nas terras budistas, e o crime é praticamente desconhecido entre os budistas no Tibete. (O que foi dito acima não é dirigido a você, ou seja, A.P.S., e nada tem a ver com o trabalho da Sociedade Eclética de Simla. Pretende apenas dar uma resposta à impressão equivocada do Sr. Hume a respeito do “trabalho do Ceilão” como não sendo Teosofia).

O mundo em geral, e especialmente a cristandade, abandonado por dois mil anos ao regime de um Deus pessoal, bem como a seus sistemas políticos e sociais baseados nessa ideia, provou agora ser um fracasso. Se os teosofistas dizem: “Nada temos com tudo isso; as classes mais baixas e as raças inferiores (aquelas da Índia, por exemplo, na conceção dos britânicos) não são motivo de preocupação para nós e devem arranjar-se como podem” — o que acontece com nossas belas  declarações sobre benevolência, filantropia, reforma etc.? Serão tais declarações falsas?  E se forem falsas, poderá a nossa senda ser a verdadeira? Não deveríamos nos dedicar a ensinar a alguns poucos europeus, que vivem na abundância — muitos deles carregados  com as dádivas de uma fortuna imerecida — a explicação racional dos fenômenos de campainhas soando no ar, da materialização de xícaras, do telefone espiritual e da formação do corpo astral, e deixar os numerosos milhões de ignorantes, de pobres e desprezados, humildes e oprimidos, tomar conta de si mesmos e de sua vida futura da melhor forma que puderem? Nunca! Antes pereça a S.T., com os seus dois infelizes fundadores, do que permitirmos que ela se transforme em mera academia de magia, um centro de ocultismo. Que nós, os devotados seguidores daquele espírito encarnado do absoluto auto-sacrifício, da filantropia, da divina benevolência, assim como de todas as mais elevadas virtudes que se pode alcançar nesta terra de tristeza — o homem dos homens, Gautama Buda — permitíssemos, em algum momento, à S.T. representar a corporificação do egoísmo, o refúgio dos poucos que jamais pensam nos muitos, é uma estranha ideia, meus irmãos.

Entre os poucos vislumbres obtidos pelos europeus acerca do Tibete e de sua hierarquia mística de “Lamas perfeitos”, há um que foi corretamente compreendido e descrito. “A encarnação do Bodhisattva, Padma Pani, ou Avalokitesvara e Tsong-ka-pa e a de Amitabha, que renunciavam, na sua morte, à obtenção do Budado — ou seja, o summum bonum da bem-aventurança e da felicidade pessoal individual — de forma a nascerem mais e mais vezes em benefício da humanidade”. (R.D.) Em outras palavras, que deveriam ser submetidos reiteradamente à miséria, ao aprisionamento da carne e a todas as tristezas da vida, para que, através deste auto-sacrifício, repetido através de longos e monótonos séculos, pudessem tornar-se os meios de assegurar a salvação e a bem-aventurança futura para um punhado de homens escolhidos entre uma das muitas raças da humanidade. E é de nós, os humildes discípulos destes Lamas perfeitos, que se espera aprovação para que a S.T. abandone seu nobre título de Fraternidade da humanidade e torne-se uma simples escola de Psicologia. Não, não, bons irmãos, vocês já estão equivocados há demasiado tempo. Vamos entender-nos bem. Aquele que não se sente competente o bastante para compreender suficientemente a nobre ideia, para trabalhar por ela, não necessita assumir uma tarefa que é muito pesada para ele. Mas dificilmente haverá um teosofista em toda a Sociedade, que não possa auxiliá-la eficientemente através da correção das impressões errôneas dos de fora, quando não ajudar realmente através da propagação dessa ideia. Ah, o homem nobre e altruísta que nos auxiliar efetivamente, na Índia, nesta divina tarefa! Todo nosso conhecimento, passado e presente, não seria suficiente para recompensá-lo.

Tendo explicado nossos pontos de vista e aspirações, tenho apenas mais umas poucas palavras a acrescentar. Para serem verdadeiras, a religião e a filosofia têm de oferecer a solução de todos os problemas. Que o mundo esteja moralmente em tão má condição é uma evidência conclusiva de que nenhuma de suas religiões e filosofias, aquelas das raças civilizadas menos do que qualquer outra, jamais possuíram a verdade. As explanações corretas e lógicas sobre os problemas dos grandes princípios duais — certo e errado, bem e mal, liberdade e despotismo, dor e prazer, egoísmo e altruísmo — são tão impossíveis para elas agora como eram há 1881 anos atrás. Elas estão tão longe da solução quanto sempre estiveram; mas deve haver, em algum lugar, uma solução consistente para estes problemas e, se nossas doutrinas provarem sua competência em oferecê-la, então o mundo será o primeiro a confessar que esta deve ser a verdadeira filosofia, a verdadeira religião, a verdadeira luz, a qual dá a verdade e nada mais que a verdade”.

Gentilmente cedido por Sociedade Teosófica

Sobre o autor

Sociedade Teosófica

Sociedade Teosófica

A Sociedade Teosófica (S.T.) foi fundada em Nova Iorque, E.U.A., a 17 de Novembro de 1875, por um pequeno número de pessoas, entre as quais se destacam uma russa e um norte-americano, a Sra. Helena Petrovna Blavatsky e o Cor. Henry Steel Olcott, seu primeiro presidente. Em 1878 o Cor. Olcott e a Sra. Blavatsky partiram para a índia. Em 3 de Abril de 1905, foi estabelecida legalmente a sede internacional da S.T. no bairro de Adyar, na cidade de Chennai (antiga Madras), estado de Tamil Nadu, no sul da índia, onde permanece até hoje.

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