Maçonaria Vias Iniciáticas

A Espiritualidade Pragmática

Será interessante reflectir no facto de que cada vez mais jovens têm vindo a aderir a movimentos espirituais e/ou tradicionais.

Quanto a nós, estamos a assistir a algo completamente inédito, isto é, estamos perante um fenómeno sem paralelo na história dos movimentos tradicionais e espirituais do Ocidente.

Em tempos idos, e não podemos recuar assim tanto, estamos a falar essencialmente dos séculos XVIII e XIX (e grande parte do século XX), quem se agregava em movimentos tradicionais, como sejam a maçonaria, o neo-templarismo, rosacrucianismo, ou até o druidismo e outras correntes da Espiritualidade Ocidental, eram pessoas com idades, pelo menos, a partir dos 50/55 anos, com as suas vidas de certa forma estabilizadas e com filhos adultos, por vezes já casados e independentes. Desta forma, podiam dedicar-se a estes movimentos, que consistiam, essencialmente, em movimentos de especulação filosófica, mas também com trabalhos efectivos, como sendo serviços de segurança e/ou de solidariedade social, entre outros.

Reforçando a ideia, a estabilidade financeira, os filhos criados e independentes e o tempo livre, davam uma sensação de recomeço; abriam as portas à possibilidade de dedicação a uma Causa, de se poder fazer, finalmente, aquilo que sempre se quis fazer, mas que esteve vedado pelo necessário labor diário, essencial para prover a família.


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Naturalmente que poderá haver excepções, mas parece-nos que o que acabámos de descrever terá sido a regra, ao longo de muitas décadas, se é que não o é ainda…

Contudo, em finais do século XX e inícios do século XXI, deu-se o fenómeno que referimos logo no início deste texto e que ainda se mantém: a adesão de pessoas cada vez mais jovens aos movimentos tradicionais. Isto foi notado por estudiosos ainda no decorrer do século XX, como Raymond Bernard, sendo que este nos deixou alguns textos e reflexões sobre a temática.

Hoje em dia, este fenómeno é por demais evidente e, naturalmente, abre-nos as portas para um sem número de reflexões, entre as quais se encontram aquelas que se seguem…
Reflictamos, então, em conjunto.

É um facto que, no seio dos grupos “espirituais”, pouco se fala de Karma, Anjos, Vidas passadas, Lei da Atracção, Reiki, Auras, Astrologia, etc. Sim, leu bem, pouco se fala. Ou seja, quando reunidos, os intervenientes dos referidos grupos têm, desde logo, estes temas como “dados adquiridos”, e dedicam-se, mais das vezes, à visualização criativa, à meditação conjunta e, ainda e sempre, à especulação filosófica. Mas, ainda assim, os temas estão lá, como um background, como um fio condutor. Claro que aqui a nossa experiência pessoal conta muito e não podemos afirmar que é desta forma que todos os grupos funcionam; provavelmente, estamos até muito longe da verdade ou do mais comum, mas o que nos tem sido dado a conhecer é desta forma que se processa. Naturalmente que existirão grupos a dedicarem-se exclusivamente a qualquer uma das temáticas que referi supra, excluindo todas as outras, o que, em todo o caso, não invalida a nossa teoria.

Fazendo fé que os grupos ditos “espirituais” funcionam aproximadamente da forma que acabámos de referir, poderemos tentar perceber o porquê de não se dedicarem, ou de não falarem sobre os temas que referimos. Em primeiro lugar, como dissemos antes, por considerarem que são “dados adquiridos”, isto é, calcula-se que cada um dos membros do grupo já se dedicou, individualmente, à maioria dos temas que são referidos.

E, em segundo lugar, porque são temas muito subjectivos e dados a muitas interpretações. Em abono da verdade, ninguém pode afirmar, peremptoriamente, que Anjos existem, que a Lei da Atracção é infalível, ou que tenhamos vivido vidas passadas. Não há forma de provar cientificamente, pelo menos para já, a existência do Karma, do Reiki ou da Astrologia – apesar de, no caso da Astrologia, já se ter chegado muito perto disso. Assim, estamos aqui no terreno das crenças e não da Ciência. E é muito difícil (diríamos mesmo desaconselhável) discutir crenças!…

Mas o que queremos analisar, essencialmente, e foi esse o mote para a elaboração deste texto, é como é que se lida com as crenças e os ideais dos movimentos Espirituais e Tradicionais numa altura das nossas vidas ou em idades em que somos constantemente postos à prova por circunstâncias várias. Isto é, como é que podemos continuar a acreditar no Karma, na Lei da Atracção, nos Anjos-da-Guarda, etc., quando as circunstâncias da “vida profana” nos colocam em situações de precariedade profissional, quando cortamos relações com alguém a quem chamávamos Irmão, quando sofremos com doenças graves, ou ainda, quando um filho nos morre ou está em vias de nos morrer nos braços. No que é que verdadeiramente acreditamos nesta altura?
O que pensar quando olhamos para trás e não vemos nada que possamos ter feito para estar agora nesta ou naquela situação aflitiva; vamos acreditar no Karma porquê? O que pensar quando vemos os nossos filhos a sofrerem e, obviamente, não atraímos nada disso; que credibilidade tem a Lei da Atracção?

As diversas circunstâncias que acabamos por viver põem em causa aquilo em que, durante muito tempo – ou pelo menos durante algum tempo –, acreditámos.

Seria bem mais fácil, para aqueles de que falámos acima, continuar a acreditar em todos os aspectos que referimos, pois as circunstâncias das suas vidas, já estabilizadas, seriam bem menos dramáticas. Mas quantos não terão, também, posto em causa as suas crenças quando esta ou aquela situação se deu nas suas vidas, mesmo em idade avançada, onde já tudo deveria estar bem consolidado? Não terão sido poucos…

Por outro lado, parece-nos que o que acontece é que, hoje em dia, alguns conceitos começam, também devido a um sem número de circunstâncias, a ser desviados dos seus significados originais…

Apesar de ser um conceito eminentemente Oriental, o Karma está já bem enraizado na tradição Ocidental, mas é visto, hoje em dia, como um fardo, como algo de que não nos conseguimos livrar. Por isso, jamais esqueceremos as palavras de um Bom Amigo que certo dia nos disse: «esquece o Karma e começa a encarar as circunstâncias da vida como Dharma, isto é, o Caminho, seja este pejado de rochas ou livre e fluido como um rio». Assim, cada acontecimento da nossa vida, sendo este positivo ou negativo, ainda que estes conceitos estejam impregnados de subjectividade, acaba por ser algo que devemos considerar como essencial para o nosso crescimento interior, como uma ampliação da nossa consciência, como uma ferramenta para sabermos lidar com situações semelhantes no futuro.

Quanto à Lei da Atracção, que juntamente com o Karma, são os dois temas que queremos, ainda e também, explorar nesta reflexão, pensamos que o seu significado está, nos dias de hoje, um pouco longe do seu significado original. O que nos é dito, em traços gerais, é que o Universo conspira a nosso favor e está disponível para realizar todos os nossos desejos, desde que nos mentalizemos disso, atraindo tudo aquilo que quisermos. Desde que o façamos de uma forma que, pasme-se, já foi definida, tudo está ao nosso alcance; é esse o “Segredo”. Temos muita dificuldade em aceitar isto, pelo menos desta forma tão simplista, e desmintam-nos se não é assim que nos “vendem” a Lei da Atracção.

Contudo, parece-nos que a referida Lei é um pouco mais complexa. E, tal como o Karma, não podemos afirmar que existe, assim como não podemos afirmar que não existe. Na dúvida, devemos procurar saber um pouco mais e não aceitar levianamente as explicações simples, que, não estando totalmente erradas, pecam por omissão. O que terá mais “lógica” será que o Universo esteja disponível para nos ajudar, mas de acordo com o nosso merecimento e colocando à nossa disposição as ferramentas que, de facto, nos fazem falta e nunca, mas nunca, exclusivamente, sob um ponto de vista meramente material e sem olhar a outrem. A ideia de que basta pedir um automóvel ao Universo para que o recebamos, ou que basta concentrar-nos durante dois minutos em Física Quântica para ficarmos a saber mais ou menos o que esta disciplina versa, parece-nos, mais do que ridículo, absolutamente insultuoso. O que será mais difícil de aceitar, por vezes, é que o que o Universo tem para nos oferecer é algo que não nos parece de todo positivo, muito pelo contrário, mas que será, sem dúvida, algo que nos tornará mais fortes no futuro…

Mas, mesmo tentando, modestamente, clarificar um pouco os conceitos por detrás das denominações, o que podemos pensar ou em que podemos acreditar quando, por exemplo, somos acometidos por uma doença grave ou quando vemos um filho a morrer-nos nos braços?

Outras tradições diriam «foi a vontade de Deus», mas para nós isto já não é suficiente…

Então, o que fazer? O que pensar? E acreditamos em quê?

Será que foi isto que Raymond Bernard previu quando nos propôs a ideia da não-Via; esse conceito perfeitamente desconcertante e tão difícil de apreender. Será que nos dirigimos para um niilismo, mas um niilismo crente; isto é, não acreditar em nada, não ter qualquer “bengala” e, mesmo assim, paradoxalmente, ser crente e acreditar que existe um plano, uma missão, uma inteligência superior, Deus?

Parece-nos que poderemos estar a caminhar nesse sentido. E num sentido, também, em que a Espiritualidade só tem Razão de Ser se for vivida no dia-a-dia – aquilo a que costumamos chamar de Espiritualidade Pragmática, mas também podíamos chamar de Espiritualidade Operativa; ao invés de uma Espiritualidade meramente teórica, baseada em crenças que podem cair por terra a qualquer altura.

Para nós, mais importante do que compreender a vida através de todas as teorias que referimos supra, ou de outras – apesar de continuarmos a achar que é importante, pelo menos, almejar a essa compreensão –, será vivê-la intensamente em todos os seus níveis, e em que a Espiritualidade, veja-se, é apenas um desses níveis, mas não o único!

Por Emanuel Swedenborg

Sobre o autor

Emanuel Swedenborg (pseud)

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