Mundividências Reflexões

A Sala dos Espelhos

Escrito por Iphtriz

Decidi aqui escrever sobre a experiência de perdermos aquilo que nos é intrínseco, a identidade que é mais do que o nosso corpo, experiência, conhecimentos e até temperamento.

Muitas pessoas vão dizer que nem sequer o possuímos e provavelmente vivem a vida toda privando-se de si próprias. Mas não me cabe especular sobre o que outros sentirão, porque sei o que é sermos incompreendidos ao ponto de julgarem os nossos sentimentos loucura, até nos convencer a nós próprios disso.

Lembro-me de muitas coisas a esse respeito. Como quando nos perguntam como nos sentimos e antecipam que a nossa resposta não é a que a resolução da equação que tinham formulado nas suas cabeças apontava. Ou como o misto de desaprovação e surpresa que as suas perguntas têm implícito quando tentam aprofundar as nossas palavras. Da forma como dizem que não nos compreendem porque, de acordo com o teorizado, a nossa vida é boa, ou até muito boa, e, por isso, de alguma maneira a nossa obrigação é estar bem. Ou até como a pena e o desalento das suas exclamações ecoam nos nossos ouvidos quando concluem que se não estamos é porque algo está errado connosco.

E nessa altura sabe-se o que se tem de fazer para os desenganar (ou para os manter enganados), basta sorrir e fingir como tantos outros à nossa volta. Mas eu não fui capaz. Acho que, nessa altura, a única arma que encontrei contra a incompreensão foi o egoísmo, e por isso sabia o que tinha de fazer, mas não era de forma alguma o que eu queria, e muito menos o que eu precisava. E esse mas valia tudo para mim.


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Nessa altura, queria e precisava de me libertar do horror que, ansiando-se, me prendia o espírito por não o conseguir ver atrás de mim, sobre mim, em mim, por todo o lado de mim, quando olhava para o espelho… É claro que eu nunca o tinha visto realmente, e muito menos tocado, mas sabia-o lá e isso chegava-me. Ou soubera-o lá em tempos e por isso fora o suficiente. Naquele momento, não sabia porque olhava para o espelho e não estava lá, já não era a sombra à volta dos meus olhos que coroava o meu olhar de intensidade, ou a calma sapiente que vinha do meu âmago para me dar direção. Sem ele, eu não existia. Era uma máscara vazia feita de carne, uma prisão feita de ossos da alma que queria subir.

Se isso que eu era fosse alma e subisse, isso e o que me era intrínseco seriam iguais. E tocariam tudo por não serem matéria corpórea e atingiriam nada por serem espírito. Por isso é que os dois são distintos. Mas nunca devem estar totalmente dissociados, porque todos os eus são o resultado da relação entre os dois.

Lembro-me de perguntar a mim própria se algo mais me via, ou o que restava de mim. No espelho, os meus gestos não pareciam mais do que truques ilusórios. Habitavam o meu corpo, estavam lá, à espera, quietos e mudos, para depois se libertarem na forma de espasmos doloridos desprovidos de intenção. E parecia mesmo que toda a intenção se sumira, como se no meu cérbero um qualquer interruptor que antes eu não sabia que existia se tivesse fundido e todo o corpo permanecesse à espera da ordem que nunca viria. Mas cansara-se de esperar, e tomara o controlo para si, a medo. E mover-me passou a ser uma experiência nova, incerta, gritos mudos por aquilo que eu não sabia nomear, mas sabia que me faltava.

Até os objetos pareciam ter mais substância do que eu. Ouvia as pessoas a falar à minha volta e nenhuma das suas palavras me atingia, nenhum dos seus gestos me tocava, porque naquele momento eu dormia demasiado profundamente para que quem quer que fosse me pudesse acordar. Parecia que os seus gestos se haviam tornado anormalmente lentos, nenhum pormenor me escapava e eu tinha tempo, tanto tempo, para decidir fazer o quer que fosse. Mas não tinha vontade para nada e acabava por não reagir e as pessoas enfureciam-se, exigiam uma reação da minha parte, mas eu não tinha nada para lhes oferecer.

A imensidão da vida não me fazia sentir porque eu estava vazia. Nunca seria preenchida por ela porque num universo de cor eu seria a sua ausência, num mundo de som eu seria o que impedia o ar de vibrar. Sentia-me como o fumo da vela que alguém já apagara, e esfumar-me no ar demorava muito mais tempo do que eu imaginara. Sentia que um qualquer Deus, mesmo antes de me sonhar, esquecera-me. E eu ia ser o seu sonho preferido. E esperava que Ele se sentisse frustrado porque naquele momento eu odiava-o, morrera antes de viver apenas porque Ele tinha acordado. Mas de nada interessam as metáforas inventadas para explicar, até é relativamente simples. Digamos que eu era dormência, aquela coisa que, por faltar, engolia o que estava presente.

E como eu odiei o que me faltava! Odiei-o ao ponto do negar, ao ponto de me esquecer que ele existia. E o meu eu que disso resultou levantou-se inúmeras vezes, só para cair sucessiva e consecutivamente, porque por mais que tentasse nunca conseguia ser. Tentava ser o que esperava, o que os outros esperavam, o que o impulso ditasse… Mas os únicos impulsos que restavam eram físicos e em mim tudo falhava quando era. A felicidade sabia a cinza, nada funcionava.

Lembro-me de esperar muito, com quase todas as forças que me restavam, nunca ter visto ninguém igual a mim. Tudo o que eu conhecia eram desejos impossíveis, necessidades insaciáveis que só significavam alguma coisa no segundo consumista em que eram tudo. E nesses segundos, tantas vezes dei a vida e vendi a alma, que me faltava, mas que ficara gravada não como memória mas como um hábito vago que não se sabe por que se repete, por eles… Mas assim que esses segundos passavam jurava pelo sagrado a blasfémia de que nunca haviam significado nada.
E, de facto, nada tinha significado porque nada mais existia além do meu próprio eco. Queria tanto silenciá-lo para sempre, mas nunca consegui de facto escolher se queria que a vida me preenchesse ou que o vazio me engolisse. Da forma doentia como a questão era colocada, resultava na mesma coisa: o que eu não queria era ouvir. Se o tivesse feito, talvez nunca tivesse chegado ao ponto em que os sentimentos passaram a ser fraqueza, e reconhece-la nos outros era poder. Talvez nunca tivesse preferido a vingança à justiça, esquecido como a compreensão nos permite lidar com os obstáculos de outra forma, porque sabe como perdoar. Escolhi a ira, escolhi o desprezo.

E sentava-me à frente do espelho, convencida de que ocupava o mais alto dos tronos. Ninguém podia nada, porque todos eles sentiam. Eu já não. Emoções não eram algo que me atingisse. Sentia o prazer vazio, escuro, que sugava, com que o meu próprio corpo me alimentava. E deixei de temer o espelho, porque, mesmo sem alma, eu podia parti-lo e explodir tudo com ele. Essa seria a sua pena por me ter abandonado e depois ignorado. E com que intensidade os meus olhos olhavam então!

Mas quando os meus gritos e gargalhadas ecoavam nos meus ouvidos tudo o que eu sentia era o vazio imenso e perturbador, porque eu não tinha nada. E às mãos deste mesmo vazio, que alimentara a minha indiferença, a minha vilania acabou por sufocar e definhar. Agora sei que tentava loucamente possuir outros para me preencher. Reconheço que, se a minha indiferença tivesse sido para mim uma arma mais forte, se tivesse sido bem-sucedida, provavelmente teria enveredado por um caminho diferente. E provavelmente continuaria na espiral em que se deseja poder, para possuir, para preencher o vazio que corrói.

Mas não creio que o meu insucesso enquanto vilã maléfica seja a explicação absoluta. A verdade é que magoar pessoas, usá-las mesmo que não as magoasse, manipulá-las… Bem, nunca atingi a mestria total que requere usar a consciência unicamente como mecanismo de precaução. Por mais que eu desejasse ser, e não apenas ser, mas obliterar tudo com a grandeza do que eu era, por trás da minha máscara de indiferença sempre houve algo em mim que se contorcia. E nessas condições, o desejo de ter dons invencíveis, de fazer da manipulação a nossa arte, usar as nossas habilidades, energias e riquezas para dominar outros é persistir em destruirmo-nos a nós próprios. E era isso que eu via no espelho, uma rapariga destruída pela imagem das suas próprias obras.

Lembro-me que chegava sempre longe de mais, ao ponto em que não se pode retroceder, e depois desistia. Usava todas as palavras como um anzol, usava a minha sensibilidade para saber onde atacar, mas mesmo antes de derrotar e, por isso, vencer, algo em mim cedia e eu fugia, deixando a presa pronta para ser abatida por outrem. O único inimigo que ousei derrotar foi eu própria, e destruí tudo o que eu era nesse processo, fechei-me num lugar em que não conseguia falar, nem pensar, e deixei de ser por completo. Tapei os espelhos com panos negros.
Deixei de conseguir fingir. Afinal, a minha revolta por me perder levara-me unicamente a fingir ser a má da história, mas levara-me tão longe que deixara de ser simplesmente farsa, porque eu senti o que era ser daquela forma em cada partícula do meu ser. E algures nesse processo deixou de haver bem e mal para mim, e não apenas bem e mal, mas qualquer tipo de barómetro. Sem vontade e sem barómetro, decidir o que fazer era impossível, quanto mais decidir o que ser.

Pus-me de pé, quis ser de novo, mas não sei se é possível mudar o que se é quando o perdemos, inventando um novo para o substituir. Consegui fazê-lo em imagem, mas nunca em consistência e nunca, nunca em substância. Lembro-me que fui algo parecido com um fantoche que não sabia quem o manipulava e que eventualmente foi esquecido pela criança que demasiado possuía, e até tentei ser os espasmos que ocasionalmente o animavam.

É engraçado, lembro-me de tantas coisas, mas não da que verdadeiramente importa. Eu não sou nada disto. Perdi-me, desisti de mim por circunstâncias demasiado complicadas para explicar mas que hoje ocorrem por toda a parte, e mesmo quando me apercebi que tinha desistido da única coisa que me fazia falta, persisti em continuar no encalço da sombra do que me subjugara. Por mais que eu quisesse ignorar-me, acho que não podia fugir de mim própria. E esse foi o pesadelo que me desolou, a hipótese que me corroeu. Não queria voltar para o que me abandonara.

Mas afinal eu é que me procurara no lugar errado. E agora já não tenho de me esforçar para ser, porque a pouco e pouco vou conseguindo ser simplesmente. Ir de acordo com a opinião dos outros deixou de ser um requisito, terão mil e uma oportunidades para aprender a gostar de mim como eu sou, se efetivamente conseguirem fazê-lo. O único requisito passou a ser aceitar incondicionalmente quem eu sou em essência, e começar a ser hoje quem já sou, porque as respostas de amanhã só vão ser obtidas no dia seguinte.

Este requisito não deve ser subestimado, não se trata de uma coisa fácil. Mas eu prefiro-o a todas as coisas. Prefiro dedicar a minha vida a aperfeiçoar a minha relação comigo própria, a desfazer nós, a criar laços, a descobrir quem sou e quais as minhas faculdades, decidi que quero dedicar a minha vida a ser. E as coisas fáceis… por mais que pareçam tentadoras, nunca encontrei nenhuma em nenhum dos caminhos por que já enveredei.

Aprendi que nada nos deve fazer prescindir de nós próprios, cortar com a nossa verdadeira voz. Aprendi que persistir em ignorá-la, continuar sem ela e inventar uma nova para a substituir, mais cedo ou mais tarde magoa. Há um barómetro, relativo e particular, muito fiável nos sentimentos. Podemos dizer que o bem relativo é o que vai de acordo com a essência de um ser. O que nos magoa é o que vai contra nós, o que forçamos a encaixar em nós mas que não nos corresponde e se torna, sem que saibamos porquê, numa violência intolerável. Esse é o mal relativo, e há que saber que a única forma com que não se pode lidar com ele é cedendo-lhe, ignorando para isso o que sentimos e renegando a nossa identidade, porque esse é o mal absoluto.

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