Mundividências Reflexões

A Sombra Confunde?

Olivier de Brito
Escrito por Olivier de Brito

“Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstratas, e as abstratas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde. “
Fernando Pessoa, in ‘O Livro do Desassossego‘

Então porque é que confunde? Talvez deva fazê-lo. Nesta épica batalha de contrários, de luz e trevas, onde os elementos por vezes cegam e por outros baralham a visão das coisas, que posição se deve assumir perante tal cenário? Devemos nós, pelo menos os que buscam, persistir na ideia de que algo nos incomoda profundamente, e por isso não nos descansa o espírito, e que nos impele a caminhar por entre sombras, jogos ilusórios e mais ainda, o que nos assola ainda mais, porque acompanhados desse assombroso silêncio?

Esse silêncio que nos coloca perante as “realidades” das coisas por vezes tão brutais e desumanas. Com que propósito nos é colocado perante os nossos olhares essa dura ambiguidade? Por um lado, surge a beleza fecunda da natureza que nos encanta com a sua matemática sagrada, por outro, surgem-nos sentimentos de repulsa perante os que nos rodeiam, concretizada nas suas ações destrutivas, e como explicar a destruição das mesmas com os instrumentos que foram inventados e criados por nós e para os outros. Que conceito esse de autodestruição? Criando para logo destruir o seu próximo, logo seu semelhante, já que a fonte primordial é comum.

Talvez nos devamos focar então na ideia de mistério, na ação de nos calarmos, entendo aqui a noção de observação silenciosa, de apaziguamento mental e aceitação de que as regras do “jogo” assentam no pressuposto de que os níveis de densidade só se dissipam à medida da nossa capacidade de persuasão e paciente sapiência. Aqui, não nos basta apenas retirar dos sonhos respostas concretas sobre o que vai de lá do véu, não basta igualmente estarmos expectantes sobre a passagem das nuvens para desviar essa mesma ponta do véu. A tarefa árdua talvez então resida no facto de que se queremos rasgar os céus, temos que subir escadas cada vez mais escarpadas, onde o ar se torna cada vez mais rarefeito e onde a companhia é cada vez mais solitária. E se pensarmos que, no meio do caminho, tivemos algum deslumbre e que a solução está encontrada podendo assim voltar para casa, é puro engano, já não há volta a dar. Talvez seja esse o preço a pagar pela nossa ousadia de querer compreender.


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O sentido, se realmente existe, e espero que sim, só é percecionado quando se relacionam factos objetivos aparentemente independentes entre si. O espírito neste contexto é chamado a jogo, se me permitem, coloca-se em atenta escuta, só através deste instrumento é que se poderá captar e sintonizar os vários sinais vibrantes em movimento e observá-los na sua dinâmica. A consciência, na sua interligação e interação, formará um corpo consistente e coordenado. Da variabilidade dos fenómenos circundantes discernirá um sentido no interior (Esotérico em grego) do elemento percecionado, e lhe dará inteligibilidade e leitura ordenada.

Assim se considera que o ser humano tem intrínseca a noção de transcendência, exigindo de si mesmo a sua própria superação. Já que existe algo que supera a nossa elementar compreensão dos fatores externos, exige-se que o ser humano tenha a capacidade de se superar, tendo os instrumentos adequados, para os atingir. Não darei aqui o alerta que o que foi referido tenha sido já tentativa de concretização por parte de elementos e sujeitos ao longo da nossa história, com propósitos muito obscuros, e não daqueles que me proponho partilhar convosco, ou seja, construtivos, mas ao invés, com o claro propósito de subjugação destrutiva das liberdades fundamentais do ser humano e suas respetivas sociedades onde se insere.
A questão mistérica com que nos deparamos será muitas vezes um exercício onde a inteligência é chamada a redobrar-se muitas vezes em si, em constantes avanços e recuos na tentativa de perscrutar os segredos do mundo. O resultado, julgo eu, necessário, será de (Re)direcionar a sua posição num eixo vertical, posicionado entre os equilíbrios e os desequilíbrios das nossas buscas e aceitar o peso do mundo e de tudo o que acarreta. Tem-se, nesses termos, o sentimento de esmagamento, de algo que nos põe no nosso lugar, de algo que é demasiado transcendente à nossa compreensão, ainda rudimentar. Esse é o caminho do discípulo.

A compreensão da essência, esse outro lado do véu, exige da nossa parte uma quase desmedida persistência para redirecionar o nosso pensamento para o nosso âmago primordial, e partir desse centro para lá das suas extremidades. É este centro que contém todas as possibilidades de um mesmo conjunto. Só assim atingiremos e entenderemos os fatores exógenos da existência das individualidades e suas repercussões nas dimensões culturais, sociais, políticas e religiosas onde é integrada. É necessário entender que toda a ação é gerada por uma causa, e que essa causa só pode advir de uma razão intrínseca.

Por estes fatores, o silêncio e a leitura da vida implicam ação efetiva, não se compadecem com atitudes passivas e inertes. Elas implicam recusa intransigente da nossa parte perante as ideologias cristalizadas e tudo o que implique estagnação e não-fluidez de pensamento, implicam inconformismo perante o que nega e barra o caminho para essa centralidade primordial e vertical. Implicam finalmente constante contramovimento no sentido de se restabelecer fatores de equilíbrio. Aqui se clama pela vinda da santa ousadia, ousadia de dizer que existe mais do que se vê e ousadia na confrontação de ideias estabelecidas sem muitas vezes se compreender donde vieram e, principalmente, com que razão e objetivos foram penetrando nas nossas mentes.

Neste contexto, aproximo-me da ideia de Beleza de Platão, na busca da verdade e da perfeição. Tentar ver a Beleza em todo lado e em todos parecerá de loucos, mas é neste elemento perene que consiste a Arte que transmuta o metal vil em ouro, tanto em nós como nos outros.

Por Olivier De Brito

Sobre o autor

Olivier de Brito

Olivier de Brito

Frequência universitária na licenciatura de estudos europeus na Faculdade de Letras da Universidade clássica de lisboa; Assistente administrativo no Centro Hospital Barreiro-Montijo;

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