Mundividências Reflexões

A Tolerância

Raymond Bernard
Escrito por Raymond Bernard

Sede tolerantes a respeito de tudo e lembrai-vos que a crítica negativa não cria nada a não ser a tristeza. Se não podeis emitir, acerca de uma questão, um comentário construtivo, mais vale então vos absterdes de falar.
(Código de vida Rosa-Cruz, regra 9 – AMORC).

Esta regra não deve ser objecto de nenhum desenvolvimento particular de tal modo ela é completa em si mesma. Insistirei, também, somente no seu carácter geral e na sua aplicação universal e prática. Temos, de facto, tendência a admirar directivas nobres e profundas, mas relegamo-las imediatamente para o domínio da teoria pura, sob pretexto que nos parecem impossíveis de seguir. Sem dúvida, na sua leitura, prometemo-nos por vezes conciliar com isso, e fazemo-lo durante tanto tempo que não as chegamos a aplicar ou tão pouco! O mesmo se passa com a tolerância. No entanto, não existe talvez nenhuma regra tão fácil de observar, nenhuma igualmente que seja geradora, em proporções parecidas, de força, de bondade e de paz interior.

A tolerância deve manifestar-se a propósito de tudo e não unicamente no domínio da religião e da filosofia, onde geralmente adquire o aspecto de indiferença. Quantas vezes, com o que nos rodeia e mesmo com o nosso companheiro imediato, não mostrámos nós provas de nervosismo, porque as ideias que nos eram sujeitas pareciam opostas às nossas! Qualquer desacordo, pequeno ou grande, tem a sua origem numa falta de tolerância. Nós “cremos” ter razão, “cremos” ser os únicos a ter estudado ou compreendido todas as fases de uma questão e, portanto, não admitimos a contradição. Que prova de fraqueza damos então! O nosso raciocínio é ele, deste modo, tão pouco fundado que não toleramos uma opinião contrária susceptível de nos levar a pensar que estamos errados, ou é somente o nosso amor próprio que procuramos preservar? Imaginai, numa sala, dois seres com ideias inflexíveis que não querem, nem um nem o outro, dar provas de compreensão. A sua posição orgulhosa e ridícula estabelece uma desarmonia constante, geradora de piores calamidades. Transponde as mesmas condições para um escritório, para um grupo de pessoas, ou para uma organização e determinai onde pode conduzir um tal estado de factos. Cada um está insatisfeito, atormentado, e a tristeza é a sorte de todos.

Quem, enfim, manifesta mais inteligência, mais humanidade – aquele que, satisfeito consigo próprio, não cessará de dizer: “Tenho razão”, ou aquele que, sem por isso abdicar da sua personalidade ou das suas próprias conclusões, saberá calar-se ou retirar-se? Em toda a opinião humana, qualquer que seja o seu domínio, há um aspecto construtivo e é este aspecto que é necessário discernir. Se não conseguimos encontrá-lo, mais vale então abstermo-nos de qualquer comentário e não procurarmos, através de uma crítica negativa a destruir, por medo de nos destruirmos a nós próprios, ao mesmo tempo. No ponto de vista místico, o mais forte é aquele que terá sabido evitar a discórdia e restabelecer a harmonia. Esse está sempre em paz consigo próprio e cria em si as condições favoráveis para uma paz ainda maior.


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Porém, aquele que semeia o vento recolhe a tempestade, e interiormente toldado e torturado pelas suas próprias ideias negativas, construindo sobre a areia do seu amor próprio, procurando ainda prejudicar, assim como os meios para o fazer, no fundo, ele não se prejudica senão a si próprio, ao ponto da sua saúde poder, um dia, experimentar a reacção aos pensamentos que alimenta.

Aprendamos a calar-nos. Aprendamos a compreender o outro. Saibamos ser indulgentes e misericordiosos para com os nossos semelhantes. Jamais esqueçamos que não há pessoas boas ou más, mas que há somente seres diferentes uns dos outros. Esta diferença constitui o mundo no qual vivemos. O nosso primeiro dever para connosco próprios é o de aí nos adaptarmos com gratidão, pois da uniformidade teria nascido o aborrecimento, a estagnação, e nenhuma evolução teria sido possível. Não espereis que os outros sejam tolerantes para convosco, mas, desde já, tomai vós próprios a determinação de ser tolerante para com todos e para com todas as coisas. Vereis, então, o Universo abrir-se perante vós e a vossa existência será resplandecente , digna de vós e digna de outrem.

Raymond Bernard
(Traduzido por Alexandre Gabriel)

Publicado na Edição Zero da Cerberus Magazine

 

Sobre o autor

Raymond Bernard

Raymond Bernard

Raymond Bernard nasceu a 19 de Maio de 1923, na região de Isère (França), e passou pela transição a 10 de Janeiro de 2006. Esoterista, escritor, humanista e responsável por vários movimentos iniciáticos, dedicou a sua vida à perpetuação da Tradição no mundo de hoje. No início da década de 1940 entrou em contacto com a Antiga e Mística Ordem Rosacruz, AMORC, da qual veio a ser Grão-Mestre para a França e países francófonos. (Todos os direitos reservados Alexandre Gabriel)

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