Mundividências Reflexões

A Torre

Escrito por Iphtriz

Isto não é uma reflexão mas sim a minha estória. Escolhi contá-la porque estórias nos permitem refletir de uma forma que simples textos, por mais bonitos e profundos que sejam, não podem. Nas estórias há alguém real que sofre e, por isso, cresce; há alguém que age e decide de acordo com as suas convicções e que luta por as enquadrar e adaptar ao mundo em que vive ou, nas horas piores, por adaptar esse mundo às suas convicções; há uma lição que deve ser ouvida e compreendida e que não se altera pelo cair de lágrimas, mas que se consolida com elas e que as altera com a compreensão que vem das vivências, dos sonhos e do que separa estas duas coisas e, da mesma forma, as une.

E agora que o livro vai terminar parece a altura certa para o escrever, se não for útil para mais ninguém vai ser útil para mim, o que implica que seja útil para muitos outros que estão à minha volta. Sim, nada do que se vive é em vão, por isso é que nunca ninguém deve acreditar que é insignificante – esse é o primeiro passo para o erro que este livro corrige e transcende.

Esta é a estória de uma menina que sabia ser diferente mas que queria sê-lo ainda mais do que o era. E compreendeu cedo de mais, e por isso erradamente, que os que a rodeavam e amavam não eram como ela e esperavam que ela fosse como eles. No seu delírio por diferença, sabia-se forte o suficiente para ser o sacrifício dos que amava e reuniu tudo o que era diferente nela para construir um mundo só dela em que nunca ninguém poderia entrar.

Ela percebia perfeitamente que dentro do seu próprio castelo nunca ninguém a poderia magoar e criou mecanismos para que ninguém a pudesse salvar, porque podia viver a vida a dormir pela sua família e sonhar com o mundo que construíra para si, onde era rainha e senhora e tinha mais do que aquilo que precisava. Vivia com livros e fantasia, ouvia estórias contadas pelo vento e vivia-as, sentia-as, mesmo que tudo no seu dia-a-dia fosse oco e vazio. Quem precisa do real fora de si quando dentro de si há fadas e dragões, mistérios e aventuras, e um mundo que se dobra aos nossos pés?


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Ela era o que os que estavam fora dela ditavam, e divertia-se construindo personagens dentro de si que unissem os pontos de vista de todos eles, para que nunca notassem a diferença. Para que o seu mundo continuasse, era necessário encontrar um equilíbrio entre as construções mentais dos seus amigos e familiares sempre que eles estivessem no mesmo lugar e ao mesmo tempo com ela. Agradar era o método e iludir uma arte; sem nunca mentir, convenceu toda a gente que era o que queriam que ela fosse. E a menina convenceu-se de que assim todos seriam sempre felizes. O seu delírio por diferença transformou-se em omnipotência, já que não havia expetativa que não conseguisse alcançar, e a menina ganhou orgulhosamente a coroa da farsa e da pretensão.

Mas a menina tinha valores e algo dentro de si se ressentia com a facilidade com que podia utilizar as suas capacidades em seu benefício, magoando os outros se fosse preciso. Por outro lado, não queria continuar a fingir, o sacrifício parecia-lhe agora grande de mais, e tal como nas estórias que vivia dentro de si, queria que fora de si fosse ela quem dominava. Se os outros compreendessem o que fizera e o ponto a que fingira, nunca a perdoariam. Mas fizera-o por eles e saber que a condenariam enfurecia-a.

A menina sabia a sua fraqueza. Os outros não agiam de acordo com as expetativas de outras pessoas, levavam apenas em conta a opinião daqueles que julgavam importantes para si, sendo que alguns eram influenciados em grande grau por aqueles que respeitavam. Mas a menina não se encontrava nesse grupo, sentia que ninguém a respeitava porque sempre fora de acordo com a vontade de outrem e, por isso, não tinha qualquer poder para alterar o comportamento dos que a rodeavam. Na verdade, era ela própria que não se respeitava, e o seu delírio de omnipotência tornou-se numa crença masoquista na sua própria insignificância e fraqueza. Restava-lhe apenas a hipótese de os magoar sem que eles percebessem que ela era a fonte da sua dor.

Magoá-los, no entanto, era destruir a sua própria construção e arranca-la à força do seu castelo. Então, nesse castelo, a menina escondeu todo o mal que encontrava dentro de si e, como não via nenhum bem, escondeu o seu ser na sua totalidade. Para isso, fez os seus sonhos mudarem de modo a que as sombras se moldassem em escuridão que a amordaçava. Todas as noites, antes de ir dormir, tudo o que a menina imaginava eram cenários de morte e tortura que a subjugavam e, acreditando que o merecia, contentou-se em cumprir as expetativas dos outros enquanto as suas eram proibidas, já que acreditava que tudo acerca de si própria era mau e cruel e cumprir os seus sonhos só traria infelicidade e desilusão a todos os que amava.

A menina cresceu, então, com uma necessidade arrasadora e desesperante de fugir, conjugada com a certeza de que, para o bem de todos, devia continuar presa no seu castelo, lugar de onde temia acima de tudo sair, pois era o único lugar em que encontrava felicidade. Aos poucos, a vida fora de si perdeu toda a importância, isolou-se de todos os que conhecia e ignorou as expetativas de todos enquanto se enterrava na campa de dor que construíra para si própria.

O fosso entre o sonho e a realidade alargava-se cada vez mais e já não havia força para sonhar com estórias felizes, porque não havia qualquer semente de felicidade na vida real. Contudo, a menina não quis aceitar que esse fosse o seu fim. A certeza de que um dia deixaria a torre e tudo o que ela simbolizava crescia, mas até que esse dia chegasse viveria adormecida, cumprindo as expetativas dos outros para afastar o aborrecimento avassalador e conseguir sementes para sonhar sonhos melhores.

Diligentemente, mestrou-se em ser o que os outros esperavam sem que eles se apercebessem disso e escrevia todos os seus sonhos em poema, convencendo-se de que esses eram os seus verdadeiros obstáculos e vitórias, enquanto esperava o dia em que seria salva por alguém que reconhecesse o seu brilhantismo e coragem.

E houve de facto um dia diferente, mas não como a menina sonhou. Houve um dia em que a rapariga em que a menina se tornara conheceu um rapaz em quem via tudo o que ela desejava ser. Mais do que isso, a rapariga considerava que esse rapaz a via tal como ela era, através de todas as suas máscaras e encenações, e nesse dia a menina não viveu a dormir mas despertou e o mundo transformou-se totalmente porque ardeu e tremeu de todas as formas possíveis, para além de tudo o que a rapariga alguma vez idealizara enquanto menina.

As sensações eram tão poderosas depois de toda àquela dormência que a rapariga se entregou a elas como fazia nos seus sonhos, e desejou que a vida a engolisse e a fizesse feliz por simplesmente fazer parte dela. O seu maior sonho era entregar-se à vida, e agora desejava cumpri-lo com todas as suas forças. Mas esta mudança abrupta preocupou os seus familiares que, desesperados, a tentaram impedir de se precipitar. Tudo o que a rapariga sentiu foi que a prendiam, agora que o seu tempo estava a começar, depois de todos os sacrifícios que fizera por eles. Não aceitava mais nenhum tipo de sacrifício, o seu momento era aquele e não o daria pela felicidade de quem quer que fosse se não a sua.

Efusiva e furiosamente, a rapariga magoou de todas as formas que sabia e conseguiu inventar, mas isto apenas resultou no pânico e dor dos que a rodeavam e, subsequentemente, na sua perda de liberdade. A rapariga viu-se então na posição desesperante de escolher entre o rapaz e a sua liberdade, mas, na sua ânsia por conseguir ambos, acabou por os perder aos dois.

Revoltou-se e prometeu a si mesma que nunca mais fingiria ser quem não era para agradar à sua família, e adotou o extremo da irresponsabilidade completa. Rapidamente caiu em infelicidade profunda porque, no fundo, sabia que a culpa não era de ninguém além de si própria. Constatou todo o mal que tinha provocado e alegrou-se por nunca realmente se ter libertado da torre, mas o desejo era demasiado forte dentro dela. Então a rapariga comprometeu-se a aprender a dominar-se a si própria, de modo a que um dia pudesse viver sem magoar os que amava.

A parir dessa altura, a rapariga passou a viver meio-acordada e a ser um misto entre quem era e o que os outros queriam, mas esta vida sem intensidade cansava e dececionava a rapariga, que se tornara irresponsável e irascível em comparação com o seu comportamento enquanto menina, responsável e calmo por levar os outros em consideração. Apesar de se preocupar por os magoar, sentia os outros como um estorvo e ocasionalmente libertava a sua maldade das profundezas para magoar de modo a combater o seu tédio e vingar a sua própria dor.

Finalmente, a rapariga deixou a sua casa, convencida de que assim abandonaria a sua prisão, mas tal não aconteceu porque esta se encontrava dentro de si própria. Fora de casa, a rapariga fez um amigo e percebeu que, quando a sua dor se tornava insuportável, magoá-lo não a ajudava. Confusa, o amigo ajudou-a a compreender que o mal que reconhecia como ela própria na verdade era uma outra coisa, que alimentando-a lhe dava momentos em que ela era tudo o que sonhara e a amordaçava, no medo de não ser nada fora da torre.

Presa pelo seu medo e pelo seu ego, a rapariga continuava a desejar tudo, viver sem deixar a torre, e por isso tudo o que era e tinha era o nada. Mas algo mais mudou na rapariga com esta amizade, ela via que o amigo vivia e lutava por se compreender a si próprio e à vida e, graças ao seu exemplo, a rapariga passou a querer essas mesmas coisas para ela. Já não desejava simplesmente, agora ela queria a vida e entendeu que não podia continuar na torre, iludida por ser algo que nem sequer correspondia ao seu ser na realidade, impedindo-se de ser efetivamente alguma coisa.

O seu medo, no entanto, continuava forte, e teimosamente persistia em tentar viver ainda na torre, tentando ter as duas coisas em simultâneo. Mas só os fracos, devido ao seu medo de falhar, desejam tudo. Todo o trabalho e dor envolvidos no ato de sair pareciam-lhe inglórios por serem apenas por ela própria, se lhe dissessem que tinha de lutar por outra pessoa ela aceitaria a missão sem dificuldade, mas lutar por si não lhe parecia meritório.

Mas se não lutasse por si, a rapariga nunca sairia da torre, e nunca viveria. Percebeu então que, para se tornar mulher, tinha de se perdoar a si própria e à menina que tinha sido, aprender com todos os erros que cometera e decidir seguir em frente. Tinha de procurar com todas as forças sair da torre, arriscar tudo, superar todo o seu medo de se deixar descobrir e não ser apreciada e, quando finalmente pisasse a terra fora do seu castelo, ela viveria e o seu caminho apareceria para ela o trilhar e formar como decidisse, fiel ao que acreditava e não à vontade dos outros.

Pois tinha-lhe sido dito que os caminhos não são coisas estagnadas e mortas e que pouco sentido haveria em ele estar sempre lá à espera dela se ela nunca escolhesse percorrê-lo. Mas quando ela desse o derradeiro passo, decidida a procurar e a percorrer, o caminho materializar-se-ia à frente dos seus pés, com todas as ramificações, becos e precipícios que ela teria de enfrentar e que seriam vida e não imaginação.

Então a rapariga saiu da torre e deparou-se com o precipício para além do qual o caminho seria desenhado e, vencendo o medo, deu um passo para o vazio. Não caiu, porque os seus pés encontraram um caminho feito de escuridão e decidiu avançar através dela em busca dela própria, da vida e do seu sentido.

Esta é a verdadeira mensagem desta estória. Nunca ninguém, seja por que razão for, deve acreditar que está certo submeter-se à vontade dos outros e fechar-se na sua própria escuridão. O medo e a insegurança nunca devem deixar de ser um estímulo e passar a ser uma prisão que se alimenta de nós e inverte quem nós somos como um reflexo dum espelho. Ser insuficiente é apenas escolher continuar a sê-lo por medo, egoísmo, dor, presunção ou indiferença.

No entanto, há obstáculos que temos de enfrentar e, se este for um deles, é importante valorizar o nosso tempo e não ficar à sombra do obstáculo, consumidos por ele e impedidos de viver por causa dele. Ninguém sabe o que nos espera na continuação do nosso percurso, mas parar por causa disso é privarmo-nos de tudo o resto e, por mais que se tenha a perder, o nada nunca o há de compensar. Tentar escolher algo que conjugue a inexistência de risco com a ultrapassagem do obstáculo é como escolher dar um passo à frente e um atrás ao mesmo tempo e isso só nos vai permitir ficar no mesmo lugar. Nunca se contente com isso.

Por Iphtriz

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