Antigo Egipto Escolas de Mistérios

Akhenaton

Anabela da Costa
Escrito por Anabela da Costa

Filho do Faraó Amenófis III e da sua Grande Esposa Real Tiye, Amenófis IV, o rei que mais tarde será conhecido por Akhenaton, foi um dos mais enigmáticos faraós do Antigo Egipto. Amenófis IV foi responsável pelas extraordinárias reformas religiosas que ocorreram no Egipto no séc.XIV a.C., através das quais, foi firmado um marco histórico, sinal do nascimento de uma herança filosófica, que iria persistir até aos nossos dias.

Estima-se que o reinado de Amenófis IV tenha começado quando ele atingiu a idade de quinze anos, e que tenha durado cerca de dezassete anos (de 1364 a 1347 a.C.). Pela altura em que se tornou soberano, tinha já desposado Nefertiti, nome que significa «A bela chegou». O faraó Amenófis IV, passou a sua infância e adolescência no Palácio de Malgatta, onde permaneceu até ao sexto ano do seu reinado. Desde cedo, a sua educação foi levada a cabo essencialmente pela sua mãe, a rainha Tiye, e dado que ela possuia uma enorme afinidade ao culto do Deus Sol, «Atum-Rá», uma divindade com o centro de culto em Heliópolis, certamente a rainha foi uma fonte de conhecimento inesgotável, pela qual Amenófis IV assimilou algumas das ideias que veio a utilizar na sua própria doutrina. Todavia, parte importante da sua educação foi também administrada por Amenófis filho de Hapu, um vizir que terá antes sido escriba, versado nos mistérios egípcios e que lhe terá transmitido as antigas tradições, reservadas apenas ao Faraó e a altos dignitários.

Hoje, é possível afirmar com alguma segurança, que o reinado de Amenófis IV (forma helenizada do nome egípcio Amenhotep IV) terá ocorrido inicialmente em co-regência com o seu pai Amenófis III. Nos primeiros anos de governação, seu pai tê-lo-á ajudado a fortalecer o reinado e a conter as hostilidades que advinham das transformações religiosas que ia pondo em prática; no entanto, na família real não foram apenas pai e filho a assumir um papel importante na realização destas grandes reformas, a sua mãe, a rainha Tiye, e a sua amada esposa Nefertiti, juntamente com altos dignitários do reino, realizaram acções indispensáveis para assegurar que esta inovação religiosa, pudesse ocorrer em toda a sua plenitude. Este precioso acompanhamento de Amenófis IV, no que diz respeito à sua mãe, passou por uma formação específica destinada à sua condição de regente e também por um grande equilíbrio político conseguido através de uma engenhosa diplomacia, que terá permitido alguma serenidade e a diminuição das tensões sociais ao mesmo tempo que as reformas iam decorrendo. No caso da sua esposa, foi a participação activa na celebração e difusão religiosa e também o apoio devoto que lhe deu em momentos de infortúnio, no decorrer da sua «revolução».

No reino de Amenófis III, o culto de Amon era o culto predominante, e o seu clero, ganhava cada vez mais poder político, administrativo e religioso. Ao mesmo tempo que ganhava protagonismo, o clero corrompia-se e dedicava-se a práticas libertinas, ostentando também uma enorme riqueza. Adoptando uma postura materialista, o clero distanciava-se das suas funções principais e tentava dominar a cena política. O rei, temendo um eventual ataque à sua supremacia e tentando asseverar o controlo do reino, foi delineando uma estratégia que pudesse conter a ascensão do clero de Amon. Decidiu então fomentar o renascer de Aton, uma divindade que era uma versão do deus Ré-Horakhty, que significava «Hórus no horizonte» ou «Hórus dos dois horizontes». Ré-Horakhty era representado por um disco solar e um Uraeus (um adorno em forma de serpente que é, entre outros, um símbolo das fases de um processo iniciático em que um homem profano se transforma em iniciado). Estes dois elementos iconográficos conjugados, resultariam na representação do sol nascente.


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O nome original de Aton era «Que viva Ré-Horakhty, o que se regozija no horizonte na sua identidade da luz, que está no disco solar». Sob este nome, Aton foi adorado muito antes de Amenófis III e Tutmés III, respectivamente pai e avô de Amenófis IV. Ambos tinham um culto especial a ele dedicado, e Amenófis III, o rei deificado, tinha sido já identificado com o disco solar e assumia o nome de «O deslumbrante Aton». Todavia esta divindade não tinha até então assumido, pelo menos de forma pública, um papel relevante no panteão egípcio, como teria ocorrido no reinado de Amenófis IV. O culto a Aton, que no contexto teológico de Akhenaton pretendia ser um sistema monoteísta, na prática verificou-se henoteísta, dado ter sido um sistema religioso que admitia a existência de outros deuses, colocando, no entanto, o deus Aton acima de todos os outros. Contudo, é evidente que Amenófis IV pretendia apagar a memória das outras divindades, e durante o seu reinado não se poupou a esforços para remover por todo o Egipto, as referências a outras divindades. Para esse objectivo, contou com a ajuda do seu exército, com o qual foi possível garantir, algumas vezes pela força, as reformas desejadas. Amenófis IV removeu as
inscrições de monumentos que mencionavam outros deuses e alterou também as inscrições que possuiam a palavra «deuses» (forma plural) e passou-as para a palavra «Deus» na forma singular. Com estas reformas era inelutável o recrudescer da animosidade por parte do clero de Amon, em particular o que se situava em Tebas; quando Amenófis IV fez saber, que o novo culto, na sua maioria, dispensava a existência de sacerdócio, a relação entre o clero e o faraó agravou-se ainda mais; O culto de Aton deveria ocorrer sempre através do rei, o sacerdote e filho de Aton. Amenófis IV seria então a expressão e o difusor da luz divina, emanada por Deus para toda a humanidade.

Sem demora, no primeiro ano do reinado, Amenófis IV, ordenou a construção de um templo dedicado a Aton em Karnak, a localização exacta do templo é desconhecida, no entanto, tudo indica que esse e outros templos dedicados a Aton estivessem localizados a leste do santuário de Amon e orientados na direcção do nascer do sol. Neles estaria a representação do disco solar, conhecido como o símbolo das três fontes de adoração, a luz, a vida e o calor. Contudo, o culto, a simbologia e a doutrina de Aton tornaram-se cada vez mais complexas; particularmente na tentativa de tornar o culto de Aton a antítese do culto de Amon de forma a acentuar uma substituição definitiva. No campo da arte, a anterior concepção conservadora e a ideologia canónica de Amon, foram substituídas pela representação livre da intimidade e do forte realismo, quanto à arquitectura, os velhos templos sombrios e recônditos deram lugar a templos amplos ao ar livre, e no contexto da representação, mais uma vez o antagonismo, a quase escondida e dissimulada representação de Amon «O Oculto», dava agora origem à concepção iconográfica criada por Amenófis IV, onde Aton era retratado em espaço aberto com o disco solar acima de si, a emanar os seus raios, que terminando em forma de mãos, seguravam várias Ankhs (o símbolo da vida egípcio), oferecendo vitalidade à família do faraó, «Os raios de Aton são protectores, as suas mãos dão-nos saúde e força».

No 4.º ano do seu reinado, Amenófis IV, em conformidade com a sua reforma religiosa, decide então alterar o seu nome, de Amenófis IV «Amon está contente»), para Akhenaton («eficaz para Aton» ou «Gloria para o disco solar»). Ao alterar o seu nome, Akhenaton, oficializava a ruptura com o deus Amon e oficializava a ascensão de Aton, que passava agora a ser a divindade mais importante do Egipto.

No mesmo ano, Akhenaton resolve construir uma nova capital para o país, uma «cidade templo» que resolve chamar de Akhetaton, «O horizonte(Akhet) de Aton». O local escolhido, foi o que é hoje uma cidade árabe chamada Tel-El-Amarna, que fica situada na margem oriental do rio Nilo, na província egípcia de Al Minya. Este «horizonte de Aton», sendo edificado em terreno virgem, iria pertencer exclusivamente a Aton e nele seriam construídas as fundações que iriam acolher a sua filosofia e o seu culto. Amarna, «Akhetaton» seria construída relativamente perto de Hermópolis, a cidade que tinha como deus principal Thot, o deus da experiência e da razão, da da música e da magia, identificado na civilização grega como Hermes. Akhenaton queria porventura envolver os sacerdotes de Heliópolis nos trabalhos místicos da nova capital, eles que ao contrário dos sacerdotes de Tebas, estavam desprovidos de intenções materialistas e estariam mais interessados na aplicação e transmissão das tradições místicas. Não convém esquecer que o culto de Aton, foi no seu princípio um reviver dos costumes religiosos de Heliópolis.

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Foi no inverno do 6.º ano de reinado de Akhenaton, que Amarna a nova capital do Egipto, foi dada como edificada. Os trabalhos de construção permaneceram durante mais alguns anos, mas a verdade é que Akhenaton via agora materializado o seu sonho. Consoante o que pensou, escreveu e fez, cumpria agora a sua promessa. Numa das raras estelas de Amarna que não foram destruídas, podemos ler: «Eu farei Akhetaton para Aton, meu pai, neste lugar; Não a farei nem mais para o sul, nem mais para o norte, nem mais a leste, nem mais a oeste. Não ultrapassarei os limites, nem ao sul, nem ao norte, não construirei a oeste, mas a oriente, onde o sol aparece, no local onde ele (Aton) rodeou de montanhas a seu gosto(…)». Foi também possível encontrar uma descrição referente aos limites de Amarna, «Vai de uma falésia a outra, do horizonte oriental do céu, ao horizonte ocidental do céu». Remete-nos numa perspectiva de herança, para uma concepção tradicional de uma Loja maçónica, onde a «Loja Akhetaton», «se estende de oriente a ocidente, do zénite ao nadir e do sul ao setentrião».

Em Akhetaton, cabia ao casal solar, Akhenaton e Nefertiti, assegurarem os rituais e as oferendas, que permitiam à luz celeste recriar o mundo em cada um novo dia. O faraó sacerdote cuida da luz da manhã e a rainha sacerdotisa cuida da luz da tarde, perfazendo assim em dualidade complementar, o «ciclo cósmico». Akhenaton não era meramente um regente administrativo, na função de sacerdote de Aton, presidia cerimónias religiosas, que eram geralmente de cariz público, o que tornava o povo mais próximo do culto e da família real. Como Sumo sacerdote, Akhenaton partilhava a sua doutrina espiritual com quem achasse digno de a receber; pelas palavras de um dignitário podemos ler: «Akhenaton passa o dia a instruir-me, tão grande é o zelo que eu tenho a praticar a sua doutrina» e mais profere, «O meu Senhor fez-me avançar, porque eu praticava a sua doutrina; escutei a sua voz sem cessar; os meus olhos viam as suas belezas todos os dias; o meu senhor, sábio como Aton, fazia da Justiça o seu prazer. Quão próspero é aquele que ouve, a tua doutrina da vida!», é desta forma evidente que através da aprendizagem dos ensinamentos, era permitido ao dignitário o avanço para uma nova luz, uma iniciação aos «novos» mistérios.

Ao grande templo de Aton na cidade Amarniana, foi atribuído o nome de «het benden – (Templo da pedra erguida)», alusão à simbologia de Heliópolis a um obelisco no qual a luz separava os dois pólos, celeste e terreno, a pedra central onde o criador se manifesta às origens da vida. Neste caso, poderíamos observar uma grande coluna monolítica, na qual estava representado Akhenaton e a família real. A família estava numa condição de veneração ao Sol, substituindo assim a versão de pedra triangular dos templos de Heliópolis, neste caso era Akhenaton a pedra angular da cidade do sol.

Tal como acontecia nos outros templos, existia um caminho simbólico em direcção a deus. O fiel começaria por atravessar uma porta monumental, que servia de entrada para um largo átrio, preenchido uniformemente em cada lado por várias esfinges e um renque de arvoredo. Ao ser atravessado, daria lugar a pequenos pilares ornamentados com pequenos tecidos em forma de bandeira. Cruzar-se-iam depois grandes pátios, através dos quais se chegaria ao espaço mais sagrado, o grande altar. Os raios de sol chegam de todos os lados e o povo está autorizado a percorrer todas as salas do templo, situação que era anteriormente interdita e reservada apenas aos sacerdotes iniciados. No templo também está presente, a ideia da sacralização do tempo e do espaço, representada pelo simbolismo do número 365, a quantidade de pedestais construídos destinados à colocação das oferendas. As acções de culto, passam na sua maioria pelas oferendas dos melhores produtos; para glorificação do divino, Akhenaton com o seu ceptro ritualista, procede à consagração e sacralização das oferendas que assegurarão o bem estar do país e a vida dos seus habitantes. Era assim feita a comunhão entre Deus e o Homem.

Na sua doutrina, Akhenaton abandona também o postulado em que a alma após a morte física. é sujeita a julgamento no tribunal de Osíris. Para os fiéis a Aton, a sua alma transforma-se agora num «corpo astral», numa força imaterial, sendo que mais tarde os pitagóricos herdarão esta noção previamente formada por Akhenaton. Para os fiéis, a sua alma aguardará nas trevas impaciente, esperando o novo dia e a nova criação trazida pelo disco solar, e através dele, a alma voltará a nascer. A morte parece não existir e no lugar dela apenas uma metamorfose com base nas leis da eternidade.

O Aton de Akhenaton representa o princípio da criação, uma matriz de energia condutora da luz dos vivos e dos mortos, o espírito que ilumina a alma humana. Aton é a consciência universal para a qual nada é impossível, e apesar de se exprimir através do Sol, Aton não se limita a ele. Aton é a energia que faz existir todas as coisas, e o Sol, apenas a forma na qual escolhe lançar a luz sobre a terra, através do seu maior esplendor. Aton é também o «olho do sol», o olho sagrado que contém a fórmula alquímica de todas as coisas, e a assumir esta forma, Aton demonstra ser a harmonia universal, na qual o homem retende participar. Para desfrutar dos seus mistérios, terá de abrir também o seu «olho interior». Aton é assim o ciclo da vida, a ressurreição dos dias; quando nascem pela manhã, com a benção da luz, da vida e do calor, e para quando seguem para uma morte temporária, assim que Aton desaparece no ocidente. Aton oferece então aos homens a boa nova, quando volta a emergir no horizonte, e revivendo todas as manhãs, volta a espalhar o seu amor pela terra, «Tu apareces na perfeição da tua beleza no horizonte do céu, disco vivo, criador da vida».

Akhenaton pode ser considerado o percursor do monoteísmo, e através dele foram influenciadas religiões que persistem até aos nossos dias. Entre outros indícios, um exemplo curioso dessa herança, é o salmo 104 da bíblia, com uma estrutura que nos faz parecer estar perante uma versão do hino a Aton, da autoria do próprio Akhenaton. Muitos outros indícios repousam na própria filosofia de Amarna, receptáculo do conhecimento, de onde beberam muitos teólogos e profetas.

Akhenaton deixa-nos aos vinte e nove anos, durante a sua vida foi um sonhador que se perdeu na contemplação, na poesia e na sua descoberta espiritual. No entanto foi gradualmente negligenciando o seu papel de monarca, preferindo assumir-se mais como sacerdote, do que como um regente. A política externa e interna passou para segundo plano, o que fez com que o país atingisse um estado caótico, que pôs em causa a sua soberania, e o Egipto só recuperou após a sua morte, na emergente continuidade dinástica.

De Amenófis IV a Akhenaton, o culto atoniano residiu na reaproximação do homem ao divino, trazendo-lhe de volta a luz na concepção de que os homens de todas as raças nascem iguais, e deve o Homem sentir-se uno com todos elementos da natureza: minerais, vegetais, animais e humanos. Deverá o Homem igualmente, procurar a total comunhão e harmonia com Deus, honrando-se a si e aos outros.

É de facto na arte, na literatura, nos textos religiosos e nas pedras monumentais que hoje «ouvimos» as palavras e as acções de Akhenaton, ecos do pensamento do faraó, que viria a morrer tragicamente, abandonado pelos seus próximos, em torno de circunstâncias políticas de extrema adversidade. No entanto, o seu sonho deixou um legado de luz, passível de iluminar o Homem, sempre que este permita que ela se reflicta no seu «disco solar» interior.

Miguel Caldeira e Anabela da Costa, Agosto de 2014.

Bibliografia:

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  • The Queens of Egypt. Butles, Janet R. 1908
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  • Os grandes faraós do antigo Egito, Araújo, Luís Manuel
  • Civilizações Pré-Clássicas, António Augusto Tavares (2010)
  • The Pharaoh’s Sun-Disc : The Religious Reforms of Akhenaten and the Cult of Aten, Sobat, Erin, 2008
  • Os faraós, BELER, A. G. de. [Lisboa]: Gama, 2001.
  • Akhenaton et Néfertiti, Le couple solaire, Jacq, Christian, 1978
  • The Life and Philosophy of Akhenaten, Devi, Savitri, 1943
  • Ancient Historiography, Brand, Peter , 2008
  • Maravilhas do Egipto. BELER, A. G. de. ,[Lisboa]: Gama, 2002.
  • O Egipto dos Grandes Faraós – Christian Jacq – edições asa – 1 edição agosto de 1999 – Porto
  • O Egipto do Faraós – Jean Marc Brissaud editions ferni – geneve

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