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A Alta Sacerdotisa – O Feminino Sagrado

Anabela Melão
Escrito por Anabela Melão

“As mulheres já nascem iniciadas nos mistérios.”

E, porém, algumas de nós, ofuscadas pela luz da Lua de prata que enfeita o céu e atordoadas pelo som do silêncio da noite, insistimos em ser belas adormecidas. Negligenciamos o “puro vivido”. Perdemos a habilidade de tecer emoções com gotas de orvalho e de as transformar em poesia. Os olhos do coração permanecem fechados, cegos, surdos e mudos.

Como dizia Louis Claude de Saint-Martin:“O Coração é o céu do homem, e a sua Alma o seu Deus. O Deus não pode morrer, mas os céus podem obscurecer. O único meio pelo qual o Novo Homem (semelhante ao Cristo) pode impedir que o seu céu obscureça, consiste em que faça um coração à Imagem de Deus.”

“Se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes.”, disse Isaac Newton.


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A Suma Sacerdotisa é aquela que distribui os dons sagrados e que cumpre uma missão elevada: a de trazer o feminino sagrado de volta.

Fá-lo, devolvendo as “qualidades sensíveis” mais profundas do ser humano.

– “Nuvens, abri-vos! Deixai-me ver a Deusa. Os raios do luar bebem-me as lágrimas, E eu bebo a luz do sol da imensidade!”

Proponho que nos concentremos nalguns pensamentos.

O primeiro é de Thomas Edison: “A melhor visão é a intuição.”

O segundo é de Michael Polanyi: “Sabemos mais do que podemos explicar.”

O terceiro é de Jung: “Cada um de nós tem a sabedoria e o conhecimento que necessita em seu próprio interior”.

O que é posto em causa com esta carta é a capacidade de ver o não-visto e de ver o já-visto, de outras maneiras.

O homem sabe. Mas não sabe que sabe. A mulher sabe que sabe.

A carta transmite esse jogo. A Sacerdotisa serve-se da intuição e apresenta-se como A Autoconhecedora Independente, A Juiza que aplica a Tora através da sua consciência intuitiva, julgando, com clareza e precisão, as nossas acções, e, talvez até mais que isso, as nossas omissões.

“O coração tem razoes que a própria razão desconhece”, disse Blaise Pascal.

O coração, movido pelos sentidos, e fazendo deles A Arma, apela à intuição, àquele pensamento directo, sem a mediação de raciocínios e de lógicas, afasta-se do conhecimento formal e reflectido, e age, de repente, como se saltasse, em imprevisto e sobressalto, para a realidade. Torna-se um ente vivo que nos coloca as idéias em ordem, ultrapassando o caos do erro de se tomarem as imagens pelo real, numa procura contínua de uma certa coerência dinâmica do universo, ultrapassando aquela que é a sua sequência habitual: a das pseudo-evidências.

Com o coração assim impelido, somos convocados ao conhecimento pessoal, assente na nossa Verdade interior. As Sacerdotisas sabem que para qualquer acção existe uma reacção. (A Lei Tríplice).

E eis que desperta o nosso Eu todo sapiente, imbuído da nossa intuição, auto-suficiência, autoconfiança e independência. Num ápice, esclarece-se o poder do mistério da sabedoria feminina interna. Há, pois, que a cultivar, com perseverança, gradual e lentamente – pois o processo é fruto de um trabalho hérculeo, em atenção constante às armadilhas do intelecto (recordemo-nos como Diana atrapalhava Hércules), procurando uma estabilidade emocional que nos presenteie com um lago tranquilo, para que, por fim, ajudemos o processo a usar a flecha do pensamento claro e certeiro.

À medida que esta nossa consciência intuitiva desabrocha, aprende-se a reconhecer o verdadeiro ensinamento espiritual genuíno e a diferenciá-lo do que já foi distorcido, manipulado e defraudado; usam-se os princípios e valores espirituais armazenados num recanto da nossa alma: descobre-se o mundo das ideias universais e faz-de dele o nosso lar e o porto seguro.

É um primeiro passo, frágil e hesitante, ainda, para compreeender e aceitar a humanidade toda como a nossa autêntica família espiritual, e, autenticamente, encontrar em cada Homem O Irmão.

Quanto tempo temos para reconhecer a intuição com que fomos abençoadas pela génese divina? Quanto tempo dura o eterno? – perguntou Alice. – Ás vezes, um segundo – respondeu o coelho.

Dentro de cada um jaz adormecida essa bússola interior. Desperdiçamos os restante cinco sentidos para chegar a uma nova conclusão: a de que a realidade concreta pode ser alcançada pela abstracção. Na intuição, essa espécie de apreensão instintiva do conhecimento, também existe a certeza, também há lugar a convicções intrínsecas. E é com essa atividade imaginativa da intuição que ficamos aptos a descortinar novos horizontes e perspectivas. E a arrecadar armas para melhorarmos o Eu e o Outro.

Do verbo intuire, estamos face a um olhar para dentro, ao acto de ver, perceber, discernir, a uma percepção clara ou imediata, ao acto de pressentir; à contemplação pela qual se atingem, em toda a sua plenitude, verdades diversas daquelas que são alcançadas pela razão e pelo pensamento discursivo ou analítico

“Nada é mais doloroso, mais angustiante do que um pensamento que escapa a si mesmo, idéias que fogem, que desaparecem apenas esboçadas, já corroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras, que também não dominamos”. (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p. 259)

A intuição imputa insight permissas de filosofia com as quais transformamos o mero acto do filósofo ou da filosofia. Agigantamos o acto de pensar e de teorizar. Pois se uma teoria é apenas uma caixa de ferramentas, que nada tem a ver com o significante, há que pô-la ao nosso serviço para que funcione. E não para si mesma. Se não há pessoas para utilizá-la, a começar pelo próprio teórico que deixa então de ser teórico, é que ela não vale nada ou que o momento ainda não chegou. Não se refaz uma teoria, fazem-se outras; há outras a serem feitas. (FOUCAULT, 1996, p. 42).

A Suma Sacerdotisa é esse conhecimento pessoal, essa verdade interior, o modo receptivo do arquetipo feminino da consciência – o conhecimento interno do coração – essa sensação de mistério e escuridão. O que nos ensina? A ouvir e a escutar a mensagem do nosso professor interno que o guia; a sintonizar o coração com a fé; com os olhos postos no conhecimento oculto ou secreto.

Lembrar — reter a memória — o dom de saber o passado, presente e o futuro coletivo.

Sabemos, por esta descoberta, que a intuição supera o virtual, entendido como “um processo de transformação de um modo de ser num outro” (LÉVY). “A intuição operacionaliza o virtual e faz dele uma fonte indefinida de atualizações” (LÉVY). E, como as atualizações são sempre parciais, elas mesmas se encarregam de gerar novas virtualizações. E assim, como que miraculosamente, se faz do que é já possível, daquilo que “já está constituído, mas permanece no limbo” (LÉVY) – de um estático já constituído, algo real. Este trabalho exige tudo de nós, já que não existe nada de linear na construção, mas sim “movimentos erráticos do acaso” (TADEU).

E é assim que, ao baterem as doze horas da noite, pelo Sol da Meia-Noite, num gigantesco “vasus hermeticus”, se remexem, em movimentos circulares, tipicamente femininos e lunares, com a colher da intuição, a lógica rígida e a sensibilidade doce e eis – EUREKA! – o discernimento da realidade.

E a Suma Sacerdotisa, cercada adentro da noite perfumada pelo cântico dos bosques, ostentando brumas e miragens no mais profundo silêncio de ecos vagabundos e, entre véus que ocultavam O Templo, sob a mais nobre inércia das estrelas, finalmente, como uma deusa eleita do amor divino e devoto, oferece, a cada um de nós, o Livro que carrega no seu liso colo de alabastro – e que pesa tanto quanto todo o silêncio e segredo dos Mundos – e do qual consta a maior lição de vida: que a Pureza é viver apenas para o Maior; que o Maior é Tudo. Sejas tu como Artemis para Pan. Lê-te no Livro da Lei. Foi-te aberto o caminho para veres através do véu da Virgem.

E lembrei-me então de mais três pensamentos.

Um, de Fernando Pessoa, Bernardo Soares: “Ó noite onde as estrelas mentem luz, ó noite, única coisa do tamanho do Universo, torna-me, corpo e alma, parte do teu corpo, que eu me perca em ser mera treva e me torne noite também, sem sonhos que sejam estrelas em mim, nem sol esperado que ilumine do futuro.”.

Outro, de Bob Marley: “Se choras por não ter visto o pôr do Sol, as lágrimas não te deixarão ver as estrelas.”

E um outro, de Sophia de Mello Breyner Andresen, que vos dedico, intima e amorosamente, a cada um de vós, meus Irmãos: «Quanto deserto Atravessei para encontrar aquilo Que morava entre os homens e tão perto.»

Paz e Luz

Anabela Melão, Agosto 2014


Sobre o autor

Anabela Melão

Anabela Melão

Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. Assessora do Secretário de Estado da Administração Interna, Luís Madureira (XI Governo Constitucional), de 1989 a 1990. Inspectora de finanças principal da Inspecção-Geral de Finanças, de 1990 a 2004. Adjunta do Secretário-Geral da Assembleia da República, 1993-1994. Adjunta e Chefe de Gabinete do Secretário-Geral da Assembleia da República, 1994-1997. Vogal do Conselho de Fiscalização do Ministério do Trabalho e da Segurança Social, 2000-2002. Sub-Inspectora Geral da Inspecção-Geral das Obras Públicas, Transportes e Comunicações - Auditora do Tribunal de Contas, 2002-2009. Directora Executiva da REGIS LABORE, International Consulting, Lda. Percurso Maçónico: Iniciada em 1996, na Grande Loja Feminina de Portugal Venerável Mestre da Respeitável Loja Eclipse (Primeira Loja Livre e Soberana em Portugal)

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