Antigo Egipto Escolas de Mistérios

As Raízes Xamânicas e Mistéricas do Esoterismo Ocidental

As Raízes Xamânicas e Mistéricas do Esoterismo Ocidental
José Manuel Anes
Escrito por José Manuel Anes

Nem todos os livros académicos sobre esoterismo (como de A. Faivre, por exemplo) referem as suas raízes arcaicas – que pertencem quer a um “sagrado selvagem”, longínquo, quer a espiritualidades filosóficas e religiosas antigas -, mas, apesar do nosso não ter pretensões a manual universitário (embora não rejeite o rigor) opto por fazê-lo – numa outra divergência/complementaridade com o Mestre – pois elas vão influenciar correntes esotéricas posteriores.

Sigo assim Arthur Versluis (in Magic and Mysticism – an Introduction to Western Esotericism, cap. I) – autor que Faivre me apresentou na Cidade do México em 1996, no Coingresso da Academia Internacional das Religiões, que pela primeira vez incluiu uma secção sobre esoterismo – o qual considera que as mais remotas “raízes das tradições esotéricas ocidentais” são:

(1) “as antigas tradições mistéricas”, isto é as religiões (pré-cristãs) de Mistérios, quer egípcias (Mistérios de Osiris e de Isis), quer médio-orientais (Mistérios de Attis, de Adonis, etc.), quer greco-romanas (Mistérios de Deméter/Ceres, de Dionísio/Baco, de Mitra, etc.)”

(2) “as antigas tradições mágicas greco-romanas”


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Falemos sobretudo das primeiras, mas em nosso entender é preciso referir que existe uma tradição ainda anterior a esses Mistérios que os influencia, assim como influenciará mais tarde, num plano simbólico, os “mistérios” das fraternidades iniciáticas, tradição essa que é o Xamanismo.

O Xamanismo é, de facto, uma “técnica arcaica do êxtase” (Mircea Eliade) ou uma “religião extática” (Ian Lewis) em que o corpo – corridas, saltos, danças, gritos, os trajes, as máscaras, o tocar o tambor, etc. – e as substâncias ingeridas – cogumelos como o peyotl (América Central) e a “amanita muscaria” (Sibéria) e por outro lado o vinho (Mediterrâneo) – desempenham um pepel importante no desencadear do êxtase – se bem que uma corrente de psicologia moderna, “alternativa” (a psicologia transpessoal) sustente que o êxtase pode ser atingido pelo intenso trabalho com o corpo – como o faz o xamanismo -, e por meditações e exercícios diversos (respirações, etc.).

O escolhido para ser iniciado no xamanismo é um indivíduo a quem sucedeu algo de extraordinário, por exemplo alguém que foi atingido por um raio e sobreviveu ou um jovem que caiu de uma árvore e não morreu. A iniciação dessa pessoa fora do comum consiste numa cerimónia complexa conduzida pelo xamane e que provoca no iniciado uma experiência de morte e ressurreição, de transmutação, que o leva a sentir renovado o seu corpo (ossos, carne e sangue), isto é, ele sente-se renascer num novo corpo.

Muitos deuses das Religiões de Mistérios passavam, no mito, pelo processo de morte e ressurreição – Osiris, Attis, Adonis, Dionísio, etc, – e o próprio Jesus Cristo, que para o cristão, viveu entre nós a paixão, a morte e a ressurreição – “morreu, desceu aos infernos, ressuscitou ao terceiro dia e ascendeu aos céus onde está sentado à direita de Deus-Pai todo-poderoso” (era este o Credo que me ensinaram, embora hoje a palavra infernos esteja substituída pela expressão “morada dos mortos”). Mais tarde as fraternidades iniciáticas no Ocidente centraram os seus rituais de iniciação num processo elaborado de morte e ressurreição já não real mas simbólico, mas que tem quanto a nós uma origem no sagrado “selvagem” do xamanismo.

Não posso deixar de referir, neste contexto, a profunda e inteligente análise do antropólogo contemporâneo Maurice Bloch que – no livro La violence du réligieux 1997, pp. 9-20 – sustenta que este esquema de morte e ressurreição constitui a «estrutura irredutível mínima fundamental […]» de todos os rituais, e não apenas dos iniciáticos, mas dos religiosos em geral. Esta «quase-universalidade» assenta na «relação entre o processo religioso e as noções de vida e de morte biológicas», pelo que, segundo Bloch, o processo iniciático pretende inverter o processo natural que vai da vida para a morte, estabelecendo um processo cultural que vai da morte para a vida.

Sobre a dimensão sacrificial das origens do sagrado e do religioso e a sua simbolização posterior, recomendo a leitura indispensável de René Girard, La violence et le sacré.

Mas para além da iniciação xamânica – desmembramento e recomposição, “morte e ressurreição” – existe o “vôo xamânico”, feito pelo especialista do sagrado já iniciado, que é o xamane, realizado para resolver algum problema da comunidade (seca, doenças, etc.) ou para obter iluminação e respostas a determinadas questões, “vôo” esse que é desencadeado pelo trabalho com o corpo e sobre o corpo e também com o auxílio de substâncias coadjuvantes de natureza químico-biológica (cogumelos, bebidas alcoólicas, etc.), que provocam uma sensação de viagem: para cima, como uma águia, ou um condor – para obter iluminação – e para baixo, como um jaguar, penetrando nas fendas da terra – para obter poder.

RELIGIÕES DE MISTÉRIOS

Vejamos agora, sucintamente, numa perspectiva do esoterismo e das iniciações, algumas das religiões mistéricas ou de Mistérios

Mistérios de Osiris

Osiris é raptado pelo seu irmão Seth – no final de um banquete em que este se propunha oferecer uma caixão finamente decorado a quem nele coubesse, sendo Osiris o verdadeiro destinatário, pois Seth já tinha tirado as medidas a Osiris… – acaba por ser morto pelos esbirros de Seth e o seu corpo dividido em 14 pedaços os quais foram espalhados pelo Egipto – tema de decomposição que remete para o xamanismo das origens. Foi Isis, irmã e esposa de Osiris que andou a recolher os 13 pedaços do seu corpo, reintegrando-o de certa maneira – o Feminino integrador – mas faltando o 14º., o falo de Osiris, que simboliza a virilidade iniciática e também a fecundidade da “terra negra” (Chem), o Egipto e as suas margens banhadas pelo Nilo.

Eleusis/Demeter

Proserpina ou Perséfone, filha de Deméter, andava pelos campos colhendo lírios quando Hadés, o rei dos mundos subterrâneos, a raptou sequestrando-a nessas regiões inferiores. Isto tinha sido combinado com Zeus o rei dos deuses, mas perante o espectáculo do sofrimento de Deméter que, numa gruta – onde mais tarde seriam celebrados os mistérios – chorou durante largo tempo a perda da sua filha, ele comove-se e propõe um acordo a ambos, Deméter e Hadés, acordo que consistiu na condição da Proserpina ter de ficar durante uma parte do ano debaixo da terra e outra parte à sua superfície. Trata-se de uma referência clara à vida de uma planta que começa quando a semente que se coloca debaixo de terra apodrece, “morre”, para dar origem às raízes mas também ao caule que surge à superfície progressivamente com folhas, flores e frutos. Trata-se de uma religião de mistérios baseada na meditação sobre os mistérios da Natureza e na maravilha que estes causavam no Homem antigo. O seguidor dessa religião, o iniciado nos mistérios (o “mixto”), era convidado a imitar a vida da semente e, portanto da Perséfone, num processo sacrificial simbólico de morte e ressurreição, de descida e ascensão. Os mistérios de Eleusis, celebrados na Grécia, tinham duas festividades, uma no Equinócio da Primavera – os Mistérios Menores – onde aos candidatos à iniciação era ministrada oralmente uma instrução e outra no Equinócio de Outono – os Mistérios Maiores – onde se vivia através do ritual uma experiência radicalmente transformadora do iniciado.

Não sabemos exactamente o que se passava nos mistérios de Eleusis mas há um trecho do “Asno de Ouro” de Apuleio em que ele, através de Lucius, diz que embora tendo sido iniciado nos mistérios não pode no entanto revela-los pois jurou guardar segredo sobre o seu conteúdo, afirmando que eles eram uma experiência que perdurava para o resto da vida. Mas – contrariando, em parte, o seu juramento – diz-nos que depois de um jejum de dez dias, se dava entrada no templo para uma cerimónia secreta em que se ele aproximou do reino da morte, o reino de Proserpina, no qual ele viu o sol brilhar à meia-noite – sinal de ressurreição, de iluminação -, após o que, simbolicamente, se aproximou dos deuses e permaneceu entre eles.

Dionísio

Dionísio – equivalente grego do romano Baco – foi morto pelos Titans que o cortaram em 14 pedaços, conseguindo reintegrar o seu corpo, ressuscitando – outra vez uma clara referência ao desmembramento xamânico e à recomposição/reintegração/”ressurreição”. De notar o desmembramento em 14 pedaços em Osíris e em Dionísio e também, significativamente, que o processo sacrificial do Deus-Filho Jesus o Cristo se desenrola em 14 estações da Via Sacra.

Os mistérios dionisíacos – celebrados nas montanhas, à noite e com archotes – tinham uma clara raíz xamânica, e utilizavam o vinho para atingir os estados extáticos, mas a importância dos tambores e do ritmo, dos cânticos e dos gritos, da dança, das corridas e dos saltos era decisiva para atingir esses mesmos estados. De salientar a presença de um falo gigante que desfilava nesses mistérios numa carruagem e a presença maioritária de mulheres, sendo conhecida a dimensão orgiástica de alguns mistérios, não numa dimensão profana (em que mais tarde caíram), mas num contexto de evocação da força e da energia de Dionísio/Baco. Nota: uma recriação desta dimensão fálica vai aparecer no começo do século XX na OTO de Aleister Crowley.

José Manuel Anes

(Artigo publicado na Edição Zero da Cerberus Magazine)

Sobre o autor

José Manuel Anes

José Manuel Anes

José Manuel Morais Anes é Bacharel em Química e Licenciado em Química (Ramo científico de Química-Física), pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, respectivamente em 1973 e 1975. Foi colaborador de investigações no Centro de Química-Física e Radioquímica do (antigo) Instituto de Alta Cultura, de 1973 a 1976 tendo tido uma Bolsa do Governo espanhol para uma Pósgraduação em Madrid em 1977/78, na Faculdade de Ciências da Universidade Complutense e no Instituto de Química-Física Rocasolano” do “Instituto Superior de Investigaciones Científicas”. Foi, de 1978 a 1997, Perito Superior de Criminalística do Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária, tendo estagiado em Jerusalém, em 1986, no Laboratório da Polícia Nacional de Israel e tendo estado presente em vários estágios e congressos na área da Polícia Científica (Análise de vestígios e Análise de Esplosivos) em Israel, Alemanha, França e Inglaterra. Tem organizado colóquios internacionais sobre o Esoterismo de Fernando Pessoa e as suas relações com Aleister Crowley na C.M. Cascais (Junho de 2000) e na Casa Fernando Pessoa (Abril de 2009). É autor e co-autor de cerca de 30 livros. De entre as suas obras destacam-se os livros “Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos” (Ésquilo, 1ª. ed. 2005, 3ª. ed., 2008) e o mais recente “Um outro olhar – a face esotérica da cultiura portuguesa” (Ésquilo, 2008). É ainda autor do livro “Os Jardins iniciáticos da Quinta da Regaleira” (Ésquilo, !ª. ed. 2004, 2ª. ed. 2007) Intervem regularmente, como comentador eventual, em diversos órgãos de informação (jornais, revistas, rádios e Tv) sobre temas de terrorismo, criminalidade organizada e violenta e grave, polícia científica e segurança interna. Foi iniciado Maçon no Grande Oriente Lusitano, em 1988, tendo saído em 1990, para constituir a Grande Loja Regular de Portugal-GLRP, onde fundou a Loja “Quinto Império” e onde foi sucessivamente, até finais de 1996, Grande Inspector, Assistente de Grão Mestre e Vice Grão-Mestre. A partir de 1997, passou a integrar a Grande Loja Legal de Portugal/GLRP – potência regular internacionalmente reconhecida pela Maçonaria Universal – de que foi, Grão Mestre (de 2001 até Março de 2004).

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