Filosofia Mundividências

Corpo e dialéctica

Escrito por Luís Coelho

Paradigmas diversos (serão um só, manifestações da mesma Estrutura?) abastam as nossas vidas, a Realidade multíplice (o múltiplo é a manifestação do Uno, sua extensão? É seu processo involutivo? O mais ínfimo do “múltiplo” não é Uno? O Uno não é o “múltiplo” de um Uno que se lhe sobrepõe? Esta sobreposição é escalar, dimensional?). O filósofo em potência defende efusivamente a Globalidade (poderia ser, por exemplo, o “platónico” ou o “hegeliano”, como outro – ou parte de si – que se rendesse à visão do Ideal), enquanto outro (ou será outra parte do si?) advoga, por exemplo, o modelo liberal (obviamente o modelo “liberal” também contém um Ideal, e o Idealismo contém no seu cerne a semente liberal do entendimento filosófico, e, no seu termo, o Liberalismo do Todo; em ambos pode subsistir a presunção metodológica de uma cientificidade materialista, em ambos, como na ciência, também existe Dogma, Autoridade, e estes são a resultante do enquistamento da Razão, a Ciência também parte e se faz pela Razão, e a Razão faz uso da Observação, e a Observação é accionada pelo subjectivo, este é um objecto intencionado, uma representação). Há razões do foro “íntimo”, quiçá meramente circunstancial, para que esses – e não outros – paradigmas sejam defendidos (mesmo que temporalmente, e o que faz com que um seja defendido em desprimor de outro pode parecer advir da aleatoriedade, até porque, em última análise, tanto faz que seja um ou que seja outro, todos acabam por significar o mesmo, e por isso é indiferente que se defenda uma coisa ou outra, o Destino é idêntico e o Contra-destino é Destino mesmo assim; daí que os paradigmas signifiquem pouco, ambos pretendem esgotar, finalizar, resolver a Realidade, mas uma Realidade “terminada” é projectada em outra Realidade “a terminar”, o processo é eternal e é indiferente que o esgotemos ou não. Por outro lado, permanecemos identificando diferentes (?) caminhos de solucionamento da Realidade, as nossas “diferenças” são o nosso Ego a declamar, e o Ego não entende que a “resolução” da Realidade conduz à sua própria evicção, sobrepujamento; se, acaso, tentássemos nada fazer ainda assim o Ego estaria a declamar, senão a reclamar, a gritar a resolução do devir no assegurar do Presente Absoluto, e acabaríamos sempre amoldando o mesmo trajecto; o “diferente” passa, assim, por “igual”, uma escolha acaba a equivaler-se na escolha aparentemente oposta, uma coisa e o seu contrário correspondem-se, igualizam-se, as divergências são a ordem da proximidade, do encontro, mas é inútil dizê-lo, pois o corpo quer dissertar, garantir a primazia, a sobrevivência, e, assim, mantém a sua labuta, a defesa do seu intróito, à semelhança deste texto que se pretende seguro e a segurar, esculpido para a imortalização, o mesmo que advoga o risível de tal coisa); acaso razões limítrofes possam levar a que os mesmos propugnem, mais tarde, o modelo antagónico, uma vida consente inúmeras faces, a transfiguração paradigmática ad aeternum cujo (i)limite se (irre)conhece na satisfação (interna, da ansiedade; quiçá se queira satisfazer a demanda dos demónios interiores, esgotar o rogo, a exigência, do Superego). De algum modo, não existem modelos “bons” ou “maus”, todos são necessários e é a sua existência (insistência) paralela, o seu dualismo justaposto, que permite (re)criar o Equilíbrio, se bem que este Eixo criterial (de Equilíbrio) também pode comportar alterações com o decorrer do tempo, à medida que a Consciência Colectiva (e o Inconsciente Colectivo) vai sofrendo mudanças. Cada paradigma verá o “outro” como adversário (raramente, enquanto complementar), todos se pretenderão reinantes, modelares, arquetípicos, “únicos”, quando a verdade é que a existência do que quer que seja implica a in-xistência paralela do seu “contrário” (note-se que este “contrário”, a sua noção, é também construção subjectiva, uma representação mental). A visão Dogmática da Totalidade é “justa”, faz todo o sentido, e agora, neste tempo mater de “multiplicidade”, ousa constituir o modelo “bom”, “revolucionário”, “desejável”, mas, num tempo de Globalidade, talvez parecesse mais justo filar um modelo “liberal”, “disciplinar”, cognitivamente organizador. Um modelo minoritário parece sempre “justo” quando vem contrapor à hipérbole do paradigma dominante (principalmente se somos inadaptáveis a este último). Mas mais me (trans)parece que todos os modelos são justos e que o (representado/entendido enquanto) “justo” limita-se a consubstanciar uma construção efectuada à medida dos critérios (primitivamente introjectados) do momento, do ‘Arché’ cognitivo-social, sócio-moral. O “justo”, o modelo apreendido, tudo isto está, apesar de tudo, muito dependente do “chão” criterial, paradigmático, existente, somos reféns de um qualquer ‘Arché’, e dele nos lançamos na tentativa de o exaurir; buscamos, primeiro, o Equilíbrio e, tardiamente, intentamos esgotá-lo, pois um Eixo de Equilíbrio é um ‘Arché’ específico, um “Princípio” atributivo, ainda escravo da coisa “relativa”, da solução precisa.

No que ao “corpo” diz respeito, não é impossível identificar o Eixo de Equilíbrio, de “normalidade”, para determinado indivíduo. Parece existir um Eixo comum, um modelo de partida, para muitos é esta a única “normalidade” vigente (este Eixo é primevo, mas não é necessariamente o primeiro, ao longo dos tempos o Corpo tem sofrido mutações, incluindo, quiçá, a própria genética de base, sendo, assim, difícil calcular a que correspondia verdadeiramente o Corpo genuinamente primevo; o “primevo” de agora corresponde à genética comum, trans-Universal, mesmo assim projectado culturalmente enquanto coisa “primária”, muitas vezes ignorando-se os factores do meio, do contexto). Mas existe também o “normal” para o sujeito em causa, o ponto de Equilíbrio que o coloca em sinergia “perfeita” consigo mesmo e com os elementos do Sistema onde jaz integrado (note-se que, como é óbvio, o “perfeito” não existe, trata-se de uma projecção, uma “sensação”, facilmente perecedoura). Essa “perfeição” é definida (tanto objectal quanto subjectivamente) pelo próprio paciente, mas comummente o terapeuta impõe o seu modelo de “normalidade”, para não falar da intrínseca terapia. Claro que o “normal” é sempre difícil de ser estabelecido, vide o exemplo sempre frutífero das psicoterapias “dinâmicas” (por outro lado, o “normal” está em constante mudança, não há “Equilíbrio” estável, se é que é possível capturá-lo). Para além disso, o trabalho “reequilibrante” local, da Terapia, pode significar o desequilíbrio num outro nível, numa outra Escala de Consciência, o bem “aqui” pode ser o “mal” distante, é sempre impossível prever as veras consequências do nosso “toque” (não que sejam de todo “imprevisíveis”, mas são-no pragmaticamente, humanamente). Muitas vezes se impinge uma terapia “holística” – porque essa perfaz a organização, a necessidade, interna do próprio terapeuta -, se assaca o modelo da Totalidade, esquecendo que o paciente, mesmo respondendo bem ao modelo no “imediato”, pode vir a conflituar com o mesmo, pela via dos que compõem o seu Sistema/Rede de suporte. O que equilibra localmente pode não ser o que equilibra à distância. O que equilibra o próprio terapeuta pode não ser o que equilibra o paciente. O terapeuta não pode deixar de conter (pender) em si um fluxo perspectivístico e inclusivo dos diversos modelos de intervenção (não sendo, apesar de tudo, incompreensível que prefira um deles, a segurança que esse lhe dá poderá constituir a porta da aceitação e entendimento de outros/vários modelos). Já não se trata só de se ser “dinâmico”, “reeducativo”, “holístico”, trata-se sobretudo de se ser “dialéctico”, capaz de responder de modos muito diversos às necessidades do Equilíbrio alheio (?…). O corpo do paciente é o nosso corpo, o nosso corpo é o dele (e é porque o nosso é esforçadamente nosso que ele pode ser do outro, ocorre-me agora, porque sempre passa por mim a lógica do contraponto, os “contraditos” são igualmente aceitáveis, a ordem de uma sentença é a da projecção atomística/finita da Consciência, mas esta rapidamente se dissolve tomisticamente em outras projecções de limites indefiníveis, e que, por isso mesmo, é um “outras Outra” – “As coisas são possibilidades realizadas contendo inúmeras possibilidades realizáveis.”, Teixeira de Pascoaes). Atemos, aqui, um Todo, mas se for necessário “quebrar” esta “Totalidade” por momentos, bem que o devemos fazer em nome da mesma “Totalidade”. Vai tudo depender do que identificamos, do que resolvemos, do que o Paciente-Terapeuta solucionou, muito aquém e além dos paradigmas e soluções precisas, tudo se integra, desintegra e volta a integrar numa dinâmica única em que pretendemos “dialectizar” todos os modelos afrontados como um só (o objecto de trabalho é sempre “desconstrutivo”, temporalmente “reconstrutivo”; há que desconstruir, refazer o plano anamnésico da Estrutura, diluir as significações acrescidas e artificiosas, desestruturar, quiçá perverter a própria história, infantilizar o terreno supostamente amadurecido do “concreto”, do Soma), a técnica para além das técnicas, o método para além dos métodos, o modelo único que tudo e todos inclui, exigente de uma visão “integral”, a mais “integral” que for possível (porque continuamos, como sempre, limitados ao rol de modelos e eixos locais). Não há, então, limites para a noção/conceito de Terapeuta “integral”, por mais que ele domine nunca dominará o suficiente, se bem que a sua “Sabedoria” mais “primeva” e “dinâmica” – qualidade rara num terapeuta, sendo, por isso mesmo, que há poucos terapeutas genuínos – será um garante da capacidade de “dialectização” (quase) infinita (o Terapeuta uniparadigmático pode também “integralizar-se”, um paradigma são “vários Um”, o paradigmático pode sentir-se tentado a multiplicar o seu pathos, precisará, quiçá, de um para ser vários). Pode ser, por exemplo, que trabalhe uma Postura num paciente e que, no decorrer da mesma, escolha manipular, ou reforçar um segmento, posso ainda reinventar a Postura – a dor pode exigir essa reinvenção -, alongar mais determinada área, fazer o “PNF” noutra área, mobilizar uma outra, e tudo isto ad infinitum, poderia continuar eternamente, sempre com vista ao objecto do Equilíbrio, nenhum “tempo” nos deverá limitar, o paciente visado como um Todo, mas, se necessário, transitoriamente pensado em termos “analíticos”, “nosológicos”, “locais”, “técnicos” (quiçá o que chegámos a entender enquanto total, íntegro – subjacente ao “reeducativo” -, nem o seja verdadeiramente, há que atender às diversas possibilidades…), para logo voltar a compor um Todo, nunca deixou de o ser. O PNF aqui, a Reconstrução Postural ali, o alongamento acolá, tudo termos, significantes que devem fundir-se num significado único (na verdade, já permaneciam “fundidos”…), num Sentido coeso, sem nome, sem conceito, inicialmente provido pela Razão/Raciocínio Clínico, mais tarde a superar a própria Razão/Raciocínio para qualquer coisa “maior”, aparentemente transcendente (mesmo que esta “transcendência” trate de se limitar à nossa “sensação”, ao nosso sentido íntimo, subjectivo, e talvez este pudesse antecipar, substituir, a própria Razão…). Aqui não há espaço para preconceitos, limitações paradigmáticas, nomeações (ou haverá?). O Terapeuta é uma espécie de “Super-Homem”, “Homem-Deus”, o outro é o paciente, ah não!, o Terapeuta e o Paciente não são dois, são UM, Uno; vamos desbravando a sua História, procurando o corpo “fóssil”, o corpo “mítico”, o que transpõe a própria História e (des)constrói o ‘Arché’/”Princípio” deste UNO (e, no entanto, quem muito procura para trás sempre se perde… o “local” atesta a sua importância, pode ser até a via para o global…). Atemos aqui o objecto “alquímico” mercurial e queremos mais, queremos superar a própria lógica do Equilíbrio preciso, mas aí já estamos a deixar de ser “terapeutas” para sermos outra coisa, inomeável. Visando o “contraditório”, bem sabemos que a visão Uniparadigmática tem a sua razão de ser, ela reforça a noção de especificidade, de Identidade, a sua segurança, a sua força, poderá fazer-se sentir “positivamente” no paciente; não obstante, é muito comum a visão “paradigmática” limitar a dinâmica do terapeuta, reduzi-lo a uma perspectiva, a um locus, quando dele requereríamos a dinâmica dos Logoi, multifacetada, inclusiva e demiurgicamente extensa. Todas as visões são obviamente aceitáveis, há vários caminhos de resolução da Realidade, e todos são justificáveis; no entanto, cada um desses caminhos implica uma noção de sinergia, Equilíbrio, diferenciável.

Retomando a dualidade Dogma vs. Liberalismo, será assim tão difícil de aceitar que possa conter em mim os dois modelos, como tantos outros significantes-significados? Não é uma questão de ter vários heterónimos, trata-se somente de possuir um certo perspectivismo. O Dogma parece mais certo quando há demasiado liberalismo, o liberalismo parece mais certo quando há demasiado Dogma. Para além disso, subsiste – como sempre – a questão subjectiva. As minhas capacidades auxiliam-se no momento de abraçar um modelo meritocrático, liberal, que admito ser mais pragmático, realista, solucionador. Mas há algo no meu íntimo – será a Culpa? – que repreende um modelo que parece ser desumano, que prefere a visão Totalizadora, o Ideal, que, para muitos, implica a teoria de um certo materialismo dialéctico. E, em reacção a esta repreensão, rapidamente me possui a noção de que também o liberalismo encerra a sua justiça. Todos os modelos são, na verdade, justos, e simultaneamente injustos. O justo vs. injusto não implica nada de “prévio”, depende tão só de um julgamento pessoal, influído pelo que a matriz sócio-cultural empreende enquanto (in)justo (e, ainda assim, o “prévio” é também o “construído”, projectado). Defender esta flexibilidade trans-paradigmática é acusar a vontade de tudo ser, a defesa de quem pouco é, mecanismo (defensivo) necessário à compreensibilidade mais racional, à razoabilidade, e aqui me vou entrecortando, inter/intra-explicando, diluindo e espalhando modelos, elementos, tentando escutar o multiverso, tentando ser multiverso, sem escolha, sem atributo, com Nada de preciso a prender-me a algo de facto.

E há ainda o próprio cárcere do “justo”. O corpo, quiçá disfarçado de “Espírito”, implica-nos na prossecução da solução salvífica, no que permite, no que parece, auxiliar na preserveração. É a ordem do Ego, mesmo assim. O “justo” é uma projecção do que às forças eróticas da “Vida” diz respeito, mesmo que sublimado esteticamente para algo mais racional. Talvez fosse mais razoável permitir o “injusto”, o prosseguimento da referência estranha, desadaptativa; a própria “morte” é a ordem de inscrição Espiritual, e a concorrência em vida, o “matar”, é a ordem de inscrição da vida para além do “outro”, a perjúria da salvação, da Condição, a ser Ordem Espiritual Suprema, saturniana é certo, mas racional ainda assim (“A verdade é uma agonia sem fim. A verdade deste mundo é a morte. É preciso escolher: morrer ou mentir. E eu nunca me consegui matar.”, Louis-Ferdinand Céline, «Viagem ao Fim da Noite»). Podemos ater vários injustos, podemos até conceber o demencial, o “sem lógica”, o irrazoável, o caminho fortuito mais negro consubstanciará, mesmo assim, o trajecto mais razoável, o vislumbre do “livre”, porque nos recusamos a Evoluir, a obedecer à Condição mais primitiva. No fim, ficamos a entender que há vários “justos”, aliás tudo é “justo” e “injusto” em simultâneo, esses termos servem uma função, um sentido, e aqui já estamos para além da função, do sentido, e estar “além” é, ainda assim, estar “aquém”, na referência, no plano cognitivo, na sinalética orientadora, queremos ser “livres” e há sempre algo, alguma coisa, de onde partimos, outro algo onde aterramos, amargando a “terra” que nunca chegámos a transcrever.

Luís Coelho, terapeuta e escritor

Sobre o autor

Luís Coelho

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.