Templarismo Vias Iniciáticas

Critica à série “Templários” do Canal História

Luis de Matos
Escrito por Luis de Matos

Estreou há umas semanas, rodeado de uma campanha de publicidade sem precedentes, mais um programa sobre os Templários. Desta vez o Canal História pôs a carne toda no assador. As imagens eram impressionantes, os cenários faziam lembrar as produções de Hollywood. Muitos efeitos, câmara lenta a rodos, espadas e sangue, cavalos e castelos. Muito impressionante, sem dúvida. Para completar o engodo, ficámos a saber que as filmagens foram feitas em Tomar, Almourol e outros lacais, com a participação de alguns amigos quer nas recreações de época, quer com entrevistas a historiadores Portugueses. Agora é que era! Finalmente a “nossa” história passava fronteiras.

Mas não. Tanto orçamento, tanta produção e tanta imagem de encher o olho obedeceu a um medíocre guião que estava certamente pensado muito antes de ouvir os tais historiadores. E assim se perdeu uma boa oportunidade. Foi penoso ver a mediocridade do conteúdo vestida pela excelência das imagens e o esforço genuíno dos diversos actores – de que gostei particularmente dos nossos. Sem som, seria um documentário de referência. Com som, uma interminável sequência de lugares comuns desinteressantes, ponteados por gritantes erros históricos e falsidades novas sobre a história do Templo, emergindo a períodos uma ou outro lúcido entrevistado que dava uma boa contribuição, imediatamente mergulhada no esterco da mediocridade televisiva. Assim. Tal como digo.

Transcrevo, sem editar, as minhas reflexões nas redes sociais durante o período em que ainda nutri esperança:

“Após o segundo episódio, estou cada vez mais triste e esperançoso.


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Triste porque nunca vi tanto disparate junto num documentário sobre os Templários. As imagens do Castelo nas margens do Mondego são de estalo (Almourol, no Tejo lá passou por ser Soure… de que importa isso, quando Soure passou por ser a doação mais antiga aos Templários…); as ruínas do Templo de Salomão passaram por ser as do 4º Templo (!!! 4º????); ficou estabelecido que os Templários encontraram “pergaminhos” nas ruínas, que traduziram (?!!!!) mas que nós não sabemos o que tinham escrito. Enfim, argoladas monumentais sem rede. Malabarismos em corda bamba.

Mas houve pior. Muito pior. A cena do aspirante a ser sovado e a beijar com a boca cheia de sangue o porta-chaves cunhado com a cruz é de tal modo idiota e pavorosa que será difícil voltar chegar a este nível de estupidez mais adiante na série. As especulações febris sobre o período entre 1118 e 1128 são confrangedoras. Quando não se sabe, inventa-se? A falta de referência a um personagem central surpreende de tal maneira que ainda pensei que era cartada final, mas não… E ficou o mistério (claro, faltam peças): porquê monges-cavaleiros, porquê um Concílio em Troyes (“marcado por São Bernardo para dar a Regra aos Templários”, diz um dos entrevistados; anedótico… anedótico!… ), porquê Hugo de Payens e oito dos seus “amigos monges”, como foi dito, etc. “Era a Cabala, a matemática mística medieval”, dizia uma senhora referindo-se possivelmente ao Zohar, um pouco mais novinho e ainda assim explicação insuficiente. Tristeza. Pois. Tristeza.

E esperança porque aspiro a que se siga nesta história Portugal e que, nesse capítulo, o Realizador tenha ouvido um pouco mais a única flecha que acertou no centro do alvo e passou despercebida como se fosse mais uma das alucinantes tiradas a que este Documentário já nos vai habituando. Não, não é quando alguém diz: “Eles no fundo estavam à procura da Távola Redonda do Rei Artur”… (?!…) E sim quando o Manuel J. Gandra diz: “A Ordem do Templo, sendo uma Ordem que surge no seio da Igreja Católica, é uma Ordem que tem em certos aspectos da sua vivência e da sua prática, vestígios de um Cristianismo de outras origens que não exclusivamente católicas. Por exemplo, a ideia de que Jesus teve um irmão gémeo, que é uma ideia que está na Bíblia – há uma passagem onde se faz referência a Tomé e esse Tomé é qualificado como “didimus”. “Didimus” é a palavra grega para irmão gémeo. E segredos como esses, que são segredos evidentemente perigosos, certamente o Templo os detinha.” (sic). E isto passa despercebido entre as múltiplas afirmações que variam entre o óbvio e o absolutamente e escandalosamente fantasioso (particularmente da parte dos entrevistados espanhóis). Bravo Manuel Gandra. A ver se o que se segue redime um pouco isto tudo.

Ah! Mas as imagens estão lindas!”

Dias depois:

“Se a esperança era pouca, desta vez estatelou-se no chão qualquer hipótese de seriedade. É seguramente uma das melhores oportunidades mais ingloriamente perdidas para falar da Ordem do Templo. Mas gastou-se mais dinheiro em efeitos e que fique bonito aos olhos do que em ter conteúdo. Forma, forma, forma, mas muito mau historicamente falando. Um desastre de que não tenho memória e semelhança! Os nossos historiadores bem diziam “hostes em Ourique” e eles a contarem a história de alguns Templários companheiros de Afonso Henriques a serem mortos um a um na mata cerrada, como se o Hannibal Lecter os perseguisse. Os nossos bem diziam “Alentejo” (tipo… campo aberto…), no “alto de uma colina” e eles lá voltavam à floresta e aos regatos, homem a homem até Afonso Henriques ficar sozinho com uma mão cheia de soldados [frente ao inimigo árabe, pouco mais numeroso]. O que fazer? Desatar ao karaté e partir-lhes o focinho à Matrix? Não foi preciso, afinal Afonso Henriques, isolado com os “amigos” foi resgatado em Ourique por uma força Templária de salvação que desceu de Soure! De Soure! Os nossos [historiadores] bem diziam que “foi uma campanha notável”, tão longe da base, mas já foi tarde… Já tudo estava filmado com outra versão bem diferente… Porquê?

Na Ficha Técnica, além de preciosidades como o agradecimento ao “Convento de Cristo dos Cavalheiros (sic!) do Templo”, há dezenas de nomes ligados à parte técnica e não mais que uns três ou quatro ao conteúdo (à parte os entrevistados que não interessam nada porque os que são de levar a sério não são levados a sério [pela Produção] e os outros até fazem engasgar um santo). Nota-se. Nota-se muito.

Algumas preciosidades deste último episódio que começaram por me consternar e no final já nem sabia se desligava e ia ler um bom livro ou ia deitar, para não ser achincalhado como um espectador imbecil, daquele jeito:

“E apareceu-lhe Jesus e os seus anjos que lhe deram uma cruz e lhe disseram «Sob esta divisa vencerás»”… (a sério, a sério! Pela minha saúde, juro…)

“A conquista de Lisboa foi o maior desastre militar Templário de sempre.”

“Gualdim Pais era o Aio de Afonso Henriques”

“Gualdim Pais e Afonso Henriques tinham brincado juntos em criança”

E não esquecer o nome do nosso conhecido autor “Paolo Lução”(sic)

Que borrada, Canal História… Que borrada.”

Tal e qual. Assim foi.

Desde já quero dar os meus parabéns aos que, confiando numa marca de referência como a do Canal História, se entregaram de coração à tarefa de ajudarem nesta série que prometia ser um marco inesquecível. Desde logo os que ajudaram a recriar as diversas cenas em Tomar e Almourol, que estão cinematograficamente falando, excelentes. Temos homens! Por outro lado os próprios historiadores, cujos nomes nem sequer foram devidamente reproduzidos, como vimos, ou cujas entrevistas, que imagino terem sido compreensivas e extensas, foram pura e simplesmente ignoradas, transparecendo apenas um ou outro ponto. O caso do Manuel Gandra é notório. Imagino a Produção a tentar fazer sentido de algumas coisas que ele lhes disse e a ver que não tinham lugar na narrativa pré-estabelecida, por isso cortando a torto e a direito. Tenho tanta certeza disto, que nem vou perguntar.

Ora, o que fica do que passa? Nada. Espuma e pó que irão assentar com o tempo. Amanhã já o Canal História nos está a meter extraterrestres pelos olhos para explicar o óbvio. Depois de amanhã todos esqueceram.

É pena. Os Templários mereciam mais e melhor. Os espectadores mereciam mais e melhor.

E há mais e melhor por aí.

Aproveito o ensejo para recomendar aos nossos leitores a edição em DVD do filme “Mensagem” de Luis Vidal Lopes, com guião de Manuel Gandra. Em qualquer loja FNAC o poderá obter se não estiver à venda. Apesar de ser de 1985 e ter toda uma cinematografia que hoje é anacrónica, seguramente que ninguém se irá arrepender de ver até ao final. Aprenderão mais e melhor sobre os Templários (incluindo reconstituições de cerimónias) do que nesta última pastilha elástica espanhola. Sigam por aqui, sem engano.

Antes de terminar gostava de vos chamar a atenção para o que nos vais escapando entre os dias atarefados nos nossos canais.

Primeira referência para a série “Palácios de Portugal”, na RTP2, que nos dá a conhecer dezenas de Palácios que muitos de nós não conhece nem nunca ouviu falar. Muito bom.

No mesmo canal, o excepcional “Visita Guiada”. Rigor histórico e científico, sem ser sensaborão nem só destinado a especialistas. O programa sobre a Sé de Braga e o seu tesouro foi excelente, com muito conteúdo informativo e imagens deslumbrantes. Em minha opinião, um dos melhores programas do género.

Na SIC-Notícias podem ver o “Tradições”, um pequeno bloco cheio de boa informação e que nos mostra a riqueza cultural (e para quem o saiba ver, iniciática) que ainda resiste por esse país fora.

Finalmente o “Caminhos da História” de Joel Cleto no Porto Canal. No dia em que conhecer este programa, deixa de pagar mais para ver o Canal História.

No próximo número irei abordar alguns dos mitos mais comuns sobre a Ordem do Templo que conduzem a uma série de especulações sem qualquer base histórica e que impedem uma visão ampla e aberta sobre a verdadeira Ordem medieval. Alguns dos equívocos criados por estes mitos são de tal modo persistentes, que têm influenciado o modo como as Ordens modernas que se inspiram no Templo se vêem a si mesmas. Mas para sabermos um pouco mais, há que esperar pelo próximo número na Cerberus.

Por Luis de Matos

Sobre o autor

Luis de Matos

Luis de Matos

Luis de Matos é gestor de empresas e é o actual Presidente e COO da Digital Stream Interactive, ramo europeu da DSI Americana, companhia da área de New Media. Nasceu em 1968 na freguesia do Bonfim, no Porto. Viveu até aos 10 anos no coração de Trás-os-Montes, o que influenciou a sua formação humanista e determinou o seu interesse pelas tradições populares Portuguesas. Mais tarde acompanhou a sua família numa mudança para a região de Sintra, onde passou a juventude sob a sombra da mítica Serra que sempre o fascinou. Foi no intento de decifrar os seus mistérios que entrou em contacto com literatura ocultista que amiúde referia Ordens Secretas, como a Maçonaria e os Templários, apaixonando-se rapidamente pela gesta da Demanda do Santo Graal. Ainda na juventude, teve a boa fortuna de encontrar orientação para os seus estudos. Passou a interessar-se pela História desconhecida do povo luso, acabando por fundar com mais dois amigos o Jornal Quinto Império, de que foram colaboradores – e amigos de largas conversas – nomes como Lima de Freitas, Agostinho da Silva, António Quadros e José Manuel Anes, entre muitos outros. Viria a entrar na Maçonaria em Maio de 1991, na Respeitável Loja Quinto Império, à época a nº 525 do Distrito de Portugal da Grande Loja Nacional Francesa. Interessava-lhe sobretudo a profundidade do Rito Escocês Rectificado e o projecto de acender a Luz que iluminou Willermoz, através da criação da Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa em Portugal. Ainda em 1991 foi membro fundador da Grande Loja Regular de Portugal, onde desempenhou funções de Grande Oficial durante a quase totalidade do mandato do Grão-Mestre Fernando Teixeira. Em 1995 foi armado Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa (Ordem Interior), pelo Priorado Helvético, no Convento de Cristo, em Tomar, assumindo no mesmo ano a condução da Loja de Santo André de Lisboa e no ano seguinte a condução da histórica Respeitável Loja Fernando Pessoa, nº1. Após o período conturbado na Maçonaria Regular no final dos anos 90 em Portugal, prosseguiu o seu trabalho maçónico ao lado da Maçonaria Anglo-Saxónica, na Grande Loja Legal de Portugal, até que deveres profissionais o levaram a residir em Madrid a partir de 2005. Ausente por isso dos trabalhos na Maçonaria Portuguesa, manteve entretanto na capital espanhola a ligação à Ordem, sendo membro de uma das mais prestigiadas e antigas Lojas do Rito de Emulação. Pode consultar as suas reflexões sobre Maçonaria e outros assuntos em: www.universatil.wordpress.com

2 Comentários

  • O History é mestre supremo em fazer documentários altamente tendenciosos e fora da realidade. Se fizeram isso com o tema dos Templários, é até bom sinal hahahahahah Se elogiassem e fizessem um documentário fidedigno era de levantar suspeitas.

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