Filosofia Mundividências

Da desconstrução da Espiritualidade e das Instituições…

Escrito por Luís Coelho

‘Espiritualidade’, quando te vão compreender plenamente? A própria palavra, por ser linguagem e língua, termo e conceito, é “não espiritualidade”. Quando vão os homens entender que as construções espirituais, símbolos e hierarquias, denegam a própria Espiritualidade, o objecto cristalino, puro, nu, plenamente nu? A Espiritualidade, no seu sentido pleno, aproximativo, fusional, implica o próprio materialismo, o próprio psiquismo, o que quer que seja, desde que à Verdade diga respeito.

E saber que a Verdade pode somente ser a “verdade” própria, que o Espírito pode ser apenas a projecção do anacoreta, isso é mais “espiritual” do que essa “Espiritualidade” que por aí abunda e se faz medrar na ilusão de uma Objectividade “desvelada” por uns tantos “mestres” (como se a Espiritualidade nua e crua alguma vez requeresse mestres…), por uns tantos Eleitos, que, de resto, são somente a dissimulação de uma relação de conveniências.

Espiritualidade, tu és a Verdade, se é que tal existe, mais ainda do que Totalidade moral, aproximação e compaixão que, de resto, quase todos os homens do Espírito não possuem, porque, para eles, a Verdade é mais importante do que o resto, porque, para eles, o objecto intelectivo é mais urgente do que o objecto Espiritual em si mesmo, porque, para eles, interessa manter-se a divisão, a clivagem, entre os homens de Dioniso e os (superiores) homens de Apolo, porque, para eles, é importante afirmar a mesma Ética, os mesmos Valores, que permitirão manter os mesmos homens do Espírito emersos, seguros, socialmente superiorizados e respeitáveis (sim, em grande medida, a moral do “fraco”, bem como a moral nietzschiana do filósofo nobre, é a projecção da necessidade do mesmo Homem que afirma o Espírito enquanto incapacidade de adaptação à Sociedade das maiorias corporizadas e doxológicas; a Ética, o imperativo moral, a construção valorativa há muito considerada dominante – e por isso mesmo, vista como Universal – é essencialmente a projecção e generalização da fraqueza, da culpa, do complexo castrador do homem que, por ser irredutível à “normalidade”, permanecendo assim socialmente desadaptado, compensa e sobrepõe-se, edifica Estruturas que, por se mostrarem eficazes, e por acção das Instituições e da “educação” condicionadora destas, tendem a perpetuar-se, e assim, a serem projectadas enquanto Eternas, univocamente inquebrantáveis). E este desvelar do Verdadeiro – que considero dentro da minha própria “construção” – é mais Espiritual do que a avocação condicionadora do Eterno, muitas vezes acriticamente mantida pelas mesmas Instituições que o denegam.

Porque as Instituições têm filosofias próprias, e nessa especificidade, nessa aculturação, denegam o Eterno. Porque as Instituições têm rituais precisos, hierarquias determinadas, muitas vezes “viajadas” por quem não tem o ínfimo domínio da Consciência.


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E alguma vez a nudez, o Sagrado, pode ser reduzida a rituais, a mestres, a hierarquias – quando até já afirmei que, na perspectiva do psiquismo, não há sequer diferentes patamares de Consciência, que estes são a ilusão criada à altura do mistério e do indecifrado -, a elementos históricos e culturais, incluindo as tradições serôdias, quando “Espiritualidade” é, por excelência, Conhecimento desvelador, desconstrutor, desmitificador (quando, quase sempre, o esforço tem sido de “(re)mitificação” do que poderia ser entendido como simples, cruento), desmistificador (quando, quase sempre, o esforço tem sido de “(re)mistificação”, na traição, muitas vezes considerada, da aproximação à Infância, à Primavera das coisas); sim, Ser Espiritual é converter-nos ao Princípio, é substituir a História pela Intemporalidade (ou a sua ilusão), a cultura pela Sabedoria, as religiões e filosofias pela Religião e a Filosofia, sem que o Dogma aparente venha deturpar mais do que descobrir, sem que o Dogma venha proibir mais do que libertar; sim, ser Espiritual é estar no caminho próprio, internalizado, no movimento aproximativo do núcleo do Ser e das coisas, e as Instituições, os vários tipos de Esoterismos e Secretismos, vêm muitas vezes complicar essa via, (re)criar os mapas que, úteis à maioria das pessoas, são inúteis ao verdadeiro Objecto Espiritual…

É verdade que a Filosofia, as ciências, todos os instrumentos de aproximação à Verdade, são fundamentais e irredutíveis, mas não pode o homem Espiritual, o verdadeiro Sábio, permanecer eternamente ligado, reduzido, aos mapas; Ele tem de transcender, nele, a visão das coisas simples, para além da criação categorizadora e do conceito; é qualquer coisa que surge naturalmente, como resultado obrigatório e Destinado, e isso cria Nele a (nova) consciência da vanidade dos Esoterismos, da superficialidade das Filosofias, não por serem-no verdadeiramente, mas porque já os transpõe, quase esquecendo que chegou a deles precisar.

Sim, o Homem do Espírito não aprende, reconhece, porque no mundo encontra a sua própria Essência, vê o seu intrínseco prolongamento, e é isto coisa psicológica, emocional, esta coisa de “reconhecer” o já “seu”, e que o Homem do Espírito quer que seja reminiscência platónica, porque é isso que está no Dogma, e o Dogma fala sempre mais alto, mas o homem do Espírito é superior ao Dogma, é Ele mesmo o novo Dogma, o suposto único e intemporal Dogma, e todos os outros – os que se afirmam “espirituais” – não saberão reconhecer neste homem a verdadeira personificação do Cristo, mas, por dependerem dos mapas da Instituição, por duvidarem do Dogma incarnado, não deixarão de crucificar esse mesmo Homem, homem só, eternamente só, isolado, irredutível à Instituição, porque, como já disse, Ele é inadaptável (e é por isso que ele é filósofo), Ele é “para além” dos mapas criados, e os mapas, por existirem, são a confirmação de um Espírito não cumprido, porque a cumprir-se, isso fará a destruição das instruções, a superfluidade dos supostos “iluminados”. Sim, há por aí muitos que se afirmam Homens do Espírito, transcendentes, e é natural que deles desconfiemos, mas, a haver um verdadeiro (?) homem do Espírito, este só poderá ser reconhecido por outro (verdadeiro) homem do Espírito. E neste reconhecimento, existe de facto o verdadeiro Dogma, a Verdade mais pura, pelo menos a mais pura à escala humana, porque, não obstante as relativizações, há Verdades, pelo menos face à menoridade daqueles que optam por permanecer eternamente ligados às Instituições.

Verdades que deixam de o ser, quando são transcendidas, reduzidas e materializadas, tornadas a matéria de outro Espírito, e isto ad infinitum, e nisso também vejo a Verdade, a mesma que muitos supostos “espirituais”, grão-mestres e outros quejandos, não saberão reconhecer, e, por isso mesmo, tentarão desvirtuar, reduzir ao pequenino, ao daninho, mas, face a eles, é uma Verdade, que, não reconhecida pela Instituição enquanto tal, corre o risco de morrer para os homens, e portanto de morrer a Verdade em si, porque a Verdade só pode sê-la na consciência, quando, mesmo assim, ela Existe com ou sem o humano, eternidade muitas vezes ludibriada, caricaturada pelas Instituições que se dizem “supremas”, “eternas”, e logo a seguir se profanam com a estultícia, o poder, a gula, o desejo, a ambição, na ilusão de uma Comunhão que nunca chega a sê-la, porque a única Comunhão que existe à escala Humana é a que correlaciona múltiplos e inentendidos desejos de confirmação egóica, como a satisfação que quase todos os pseudo-iniciados procuram numa espécie de “psicologia do auto-conhecimento”, quando, na verdade, Espírito é mais do que psicologia, quando genuinamente não existe Razão Pura, e todo o Conhecimento próprio é a ilusão que o Ego nos destina, mas, ainda assim, mais vale esta Consciência atida no seu desconforto (que não deixa, contudo, de ser Ilusão) do que a ilusão dos pequenos, dessas massas tresloucadas que o Espírito frustra na condescendência; mesmo este meu esforço de escrita é a ilusão da minha auto-consciência, na perfeita certeza de que em mim reside mais Verdade do que nos outros, capaz de me colocar para além do bem e do mal, para além dos homens de quem não gosto, a Verdade que a Verdade da minha verdade diz poder não ser verdadeira, mas, porventura, até o É, dependendo o Ser ou Não Ser de uma mera questão de escala ou perspectiva, porque nada É verdadeiramente, tudo É em relação a algo; e é este exercício de “descondicionamento” também a tentativa de repor a Verdade junto de todos esses pseudo-iluminados, que não conseguem distinguir sequer o Espírito do falso Espírito, a Luz da falsa Luz, aliás, a Luz de agora da Luz de ontem (porque toda a Luz é condição temporária, um relativo em potência), a tentativa de Ser para além deles, que dói, e tem mesmo de doer, porque desconforta a referência que parecia inabalável (como dói toda a certeza desconstruída, como dói toda a referência questionada, como magoa todo o Absoluto convertido em relativo), a referência que deixou de o ser, e é este desconforto, esta dúvida incessante, mais ‘Espírito’ que o espírito, certeza minha, verdade minha, Verdade em si mesma, ilusão minha, Ilusão máxima na Imaginação mínima, desconforto sempre buscado face à Instituição, nela sou irredutível, incomensurável, e por isso afirmo a Verdade inóspita ao próprio Espírito, a relatividade capaz de infirmar o mesmo Espírito que faz a minha reflexão, mas a Verdade que o mesmo Espírito não poderia frustrar, até porque a Culpa atenta a tudo, nada lhe escapa, senão quando a dor é muita, e aí o pensamento requer ser parado, a certeza requer ser pregada, e até o pensamento se quer fazer ruir, desaparecer, não vá criar nova dúvida, nova dor, e é por isso que os homens querem ser algo em específico, algo preciso, o Dogma no qual a sua Verdade é toda a Verdade do mundo, é por isso que é tão difícil para o homem o mero estado de Dúvida, Indiferenciação, nudez, Totalidade, Equilíbrio, para além do julgamento, para além das hierarquias, para além das morais, para além do certo e errado, para além do aceite e inaceitável, para além do que, hoje custando, hoje sendo incognoscível, amanhã será mais fácil, mais aceitável, pleno.

E todo este pensar, esta obsessão, não é ela a infirmação da indiferenciação, porque é mais uma Verdade a querer segurar-se a si mesma, na Ilusão de uma certeza, na sempre estúpida incapacidade Humana em permanecer simplesmente “incerto”, ignoto (e ele É-o, não haja dúvidas!), infantil, primaveril, porque o Destino obriga a saber, obriga ao movimento, à evolução, e este Destino é o do Corpo – os homens do Espírito querem que ele venha do Alto – e é por isso que, sendo Corpo, podia até ser anti-Espiritual, porque o (hiper?)racional podia ser a desistência, a amputação do caminho, a perjúria face ao Entendimento, face à Determinação. Não é isto ser Espírito?… Vencer a Condição, e, se a Condição é a do caminho, é a do Encontro, então talvez o Espírito deva ser o diabólico, a separação, o afastamento, o anti-Destino, o anti-Leis, consciência determinada pelas Leis que se querem superadas, Espírito que o Corpo criou para sê-lo e logo deixar de o ser porque o Espírito não quer o corpo, mas sem ele logo deixa de o Ser. E continua a fluir, este pensar que o Espírito quer, que o corpo quer, mas que logo perverte a União, é este caminho de Luz a ser Escuridão, porque o Uno é traído face a outro Uno.

E, agora, vós, homens do Espírito, para quem isto escrevo, podem ir em paz, na perfeita consciência da minha loucura (que é a confirmação da vossa “normalidade”), comprometidos somente com as vossas certezas, e o preconceito de que eu nada sou, senão um traidor, um bicho irreferencial. Na verdade, traio-me a mim mesmo, porque, vendo bem, não é este texto tão arrumadinho, não está aqui o respeito pela música e a sintaxe? E eu a julgar-me “mais” livre, quando também eu sou relativo, quando também eu sou Doxa (não amo eu as palavras?), como todos somos, na orgia despudorada da Natureza.

Luis Coelho


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Luís Coelho

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