Druidismo Vias Iniciáticas

Da Harpa do Bardo à Harmonia Druídica

Da Harpa do Bardo à Harmonia Druídica
Alexandre Gabriel
Escrito por Alexandre Gabriel

Dos Druidas Antigos aos Novos Druidas

HarpaAs origens do Druidismo perdem-se nas brumas do tempo, mas é hoje defendido por vários investigadores que as suas origens estariam nos chamados “Proto-Druidas” ou “sacerdotes-xamãs” do período Megalítico, cuja sabedoria teria sobrevivido até ao período Clássico, testemunhado pelos historiadores greco-romanos. De igual forma, as raízes do Druidismo encontram-se também no próprio Xamanismo, podendo o primeiro ser considerado como um desenvolvimento particular deste, extirpando-o de um contexto tribalista para um contexto civilizacional, embora animado pelo mesmo espírito de autenticidade.

É certo que ninguém poderá afirmar que existe uma corrente ininterrupta visível que una os antigos Druidas e os actuais. Muito provavelmente não existirá. Com a perseguição feita pelos romanos aos celtas e aos seus sacerdotes, bem como a posterior cristianização, seria muito difícil isso ter acontecido. Porém, é natural que a sua sabedoria tenha sido “recolhida” no seio do próprio cristianismo, pese embora o facto de ter sido amplamente adaptada. Mas o que terá levado o homem europeu a remexer no seu passado mais arcaico, em pleno século das Luzes, e a procurar reabilitar antigos cultos e tradições? A valorização exacerbada do racionalismo, iniciada nos séculos XVII e XVIII, em detrimento absoluto do lado espiritual, criou uma profunda ferida na civilização do Ocidente, a qual ainda não cicatrizou. O Druidismo está nas próprias raízes da Europa, num contexto histórico, mas hoje a sua pertinência espiritual atravessa continentes e meras delimitações políticas. A própria situação ambiental do planeta revela-se catastrófica, já que o homem, alienado do seu meio ambiente, mas também de si próprio, não se dedica à auto-reflexão, pois deixa que pensem por ele, acabando por se tornar uma presa das condições exteriores a si próprio.

Assim, existem hoje tantas expressões diferentes do Druidismo no séc. XXI quantas poderíamos imaginar, isto após a sua aurora no revivalismo romântico e a sua proliferação no séc. XX. Tal deve-se certamente a uma necessidade interior do ser humano que, ligando-se à sua essência espiritual, acaba por encontrar formas actuais para a expressão da mesma, ainda que as suas raízes sejam milenares.

Embora alguns considerem o Druidismo como uma religião, devemos ressalvar que esta nunca poderia ser uma religião “revelada” e dogmática, com um “livro sagrado” escrito por mão humana, pois  o mais importante “livro” que o Druida almeja aprender a ler é o “grande livro da Natureza”, onde tudo se encontra escrito. Neste sentido, certas correntes druídicas inglesas actuais criaram no séc. XX a expressão adogmática druidry (geralmente não traduzido para português), que significa exactamente a noção de druidismo, mas liberta do “ismo” condicionador e dogmático.


PUBLICIDADE


O Bardo e a Harpa – Instrumentos do Espírito

Raízes Históricas e Míticas

Os bardos da antiguidade tinham um papel proeminente na sociedade, gozando de um estatuto privilegiado, junto dos chefes, dos reis e do povo, tal como nos refere o famoso Conto de Taliesin. Para além disto, a associação do bardo-druida à harpa é um poderoso arquétipo da espiritualidade céltico-druídica. Mas as origens deste instrumento, como iremos ver, são bem mais remotas.

A harpa é um instrumento musical cuja história tem milhares de anos eencontra-se espalhada um pouco por todo o mundo, desde o antigo Egipto à África ocidental e Mesopotâmia. Podemos mesmo dizer que a evolução da harpa acompanhou, de certo a modo, a própria evolução das sociedades humanas. As harpas da Antiguidade não possuíam a estrutura rígida nem os mecanismos complexos da actual harpa de orquestra, nem o seu superior número de cordas. Eram bastante mais simples, e tiveram as mais diversas formas e variantes ao longo do
tempo e das civilizações.

Segundo a Tradição, o arco musical* (provável antepassado da harpa) ter-se-á originado a partir do arco e flecha utilizado pelo Homem para a caça em tempos remotos. Este ter-se-á apercebido do som produzido pela corda ao ser beliscada e, a partir daqui, aquilo que era um instrumento de guerra terá evoluído para a forma de um instrumento musical e ritual**. Mais tarde, este instrumento, sob uma forma mais complexa, é certo, veio a originar tanto a harpa como a lira. Esta ideia é extremamente interessante no plano simbólico, porque nos aponta para a transformação de um instrumento guerreiro (que serve para agredir, caçar e matar) num instrumento musical (que serve para envolver espiritual e emocionalmente o ser humano, para criar laços sociais e relaxar). Então, podemos aqui observar um processo de transmutação, sublimação e transcendência, relativamente à sua função primeira, de carácter diametralmente oposto.

xamã com um arco musical

 

Representação geralmente interpretada
como sendo um xamã com um arco musical
na gruta Les Trois Frères, em França

O Papel da Harpa e do Bardo na Sociedade Celta

Acabando por se popularizar nas regiões de matrizes célticas, ainda hoje a harpa tem uma presença significativa ao nível musical e cultural nesses países. A título de exemplo, lembremo-nos da sua utilização como emblema nacional na Irlanda, país que tem um rico passado ligado a este instrumento e aos seus harpistas, do quais o mais célebre é, sem dúvida, o famoso Turlough O’Carolan que viveu entre os séculos XVII e XVIII.

Diodoro da Sicília, historiador grego do séc. I AEC, fala-nos da utilização da lira, instrumento familiar da harpa, usada pelos antigos bardos gauleses:

«E há entre eles [os Gauleses] compositores de versos, a quem chamam Bardos; estes, cantando com instrumentos semelhantes a uma lira, aplaudem alguns, enquanto injuriam outros.»

A harpa é o instrumento musical mais importante na tradição popular do País de Gales. Este facto é atestado no antigo conto galês Tudur, Filho de Einion, em que Tudur, ao se cruzar com um homem que diz ser músico, lhe pergunta de imediato pela sua harpa, pois “nenhum galês pode dançar sem ser ao som da harpa”. Outro conto, A Harpa Sobre as Águas, realça a importância do bardo harpista naquela época. Nesta história, o harpista é o único sobrevivente da catástrofe que ocorre no palácio de um rei cruel, ficando a sua harpa a flutuar sobre a água, fazendo assim prevalecer este poderoso símbolo de nobreza e harmonia.

Tríades Celtas sobre a Harpa

Na era medieval os monges copistas registaram muitas das antigas tríades de sabedoria da cultura céltico-druídica. São várias aquelas que se referem à harpa e aos harpistas, dando-nos uma ideia da sua particular importância:

«Três coisas que não podem ser confiscadas segundo a justiça: o livro, a harpa e a espada.»

«Três feitos da Irlanda: uma estrofe espirituosa, uma música na harpa, o barbear de um rosto.»

«Três coisas que constituem um harpista: uma música para fazer chorar, uma música para fazer rir, uma música para fazer adormecer.»

«Três coisas próprias para quando se está em casa: o companheiro a seu lado, a almofada na cadeira e a sua harpa afinada.»

A Harpa de Dagda, o Bom Deus

O deus celta Dagda, conhecido como “o bom deus”, tinha uma harpa mágica chamada Daurdabla (que significa “carvalho de dois verdes”), feita em madeira de carvalho e ricamente ornamentada. Quando tocava nas suas cordas punha as estações na sua ordem correcta, restabelecia a ordem cósmica e dava ordens aos guerreiros no campo de batalha. Esta harpa era também conhecida como Coir Cethair Chuir (“música de quatro ângulos”) e Úaithne (nome por vezes dado ao seu harpista, noutras versões da história).

Para além da harpa, Dagda carregava consigo uma clava, que nas suas mãos se tornava um instrumento capaz de, com uma das pontas, matar nove homens de uma só vez, enquanto a outra ponta tinha o poder de trazer os mortos de novo à vida. Com estes dois instrumentos representava portanto duas facetas opostas: por um lado tinha a sensibilidade suficiente para tocar um instrumento como a harpa (qualidade feminina), por outro tinha a capacidade guerreira de agir quando era necessário (qualidade masculina).

O seu terceiro atributo era o Caldeirão, que fornecia uma fonte inesgotável de alimento, recusando-se apenas a alimentar dois tipos de pessoas: os cobardes e os mentirosos. Prefigurava assim uma apologia do Graal, valorizando as virtudes da coragem e da verdade.

Segundo as antigas lendas irlandesas, o harpista de Dagda, Úaithne, casou com a deusa do rio Boyne, Boann, dando à luz três filhos. O nascimento de Goltraiges, o filho mais velho, foi extremamente doloroso para a deusa, enquanto o segundo, Gentraiges, teve um parto suave que lhe deu grande alegria. Por fim, após o nascimento do terceiro filho, Suantres, sentiu-se muito cansada e adormeceu.

Úaithne transmitiu a arte da harpa a todos os seus filhos, sendo que cada um desenvolveu um estilo próprio de tocar o instrumento, conforme as condições particulares do seu nascimento. Assim nasceram os “Três Nobres Estilos da Irlanda”: o goltrai (estilo do choro), o geantrai (estilo da alegria) e o suantrai (estilo do sono). Estes três estilos foram também perpetuados na tríade de sabedoria referida mais atrás neste texto.

Estes modos musicais teriam, segundo os antigos contos, um poder real e verdadeiro naqueles que os escutassem. É curioso assinalarmos aqui uma semelhança com as histórias gregas de Orfeu e Pitágoras, que com as suas harpas ou liras exerciam o mesmo efeito sobre animais e pessoas, influenciando o seu comportamento e as suas acções através do modo musical que tocavam.

Uma vez que Dagda e a sua harpa eram inseparáveis, ele levou-a para a conhecida Segunda Batalha de Mag Tured, onde os Tuatha Dé Danann derrotaram os Fomorianos. Porém, durante o período que envolveu os preparativos de guerra e o combate propriamente dito, os Fomorianos infiltraram-se no acampamento guerreiro dos Tuatha Dé Danann e roubaram-lhe o seu precioso instrumento. A ligação entre Dagda e a sua harpa era algo de muito especial, pois Daurdabla só a ele ou a Úaithne, o seu harpista, permitia que lhe tocassem. Qualquer outra pessoa que tentasse tocar era incapaz de dela obter qualquer som que fosse. Assim, era totalmente inútil para os Fomorianos, excepto como troféu de guerra. Assim, quando deu pela falta da sua estimada harpa, Dagda enrubesceu de fúria, partindo de imediato com o seu filho Óengus para o campo inimigo, resoluto no intento de recuperar Daurdabla. Os dois entraram violentamente no salão onde os Fomorianos jantavam, vendo a harpa ao fundo, pendurada numa parede. Então, entoando um cântico mágico, Dagda chamou Daurdabla:

Vem Daurdabla, que murmuras docemente como a maçã,
Vem, Coir-Cethair-Chuir, estrutura de harmonia de quatro ângulos,
Vem Verão, vem Inverno,
Para fora das bocas das harpas, das gaitas e dos foles!

Ao ouvir Dagda, a harpa voou de imediato pelo salão fora, matando assim vários Fomorianos, aterrando nas mãos de Dagda. Então, Dagda tocou os Três Nobres Estilos da Irlanda, fazendo os guerreiros chorar, depois rir e, finalmente, adormecer. Ambos conseguiram então escapar silenciosamente, saindo incólumes do campo inimigo.

A Voz do Antigo Bardo

“A Voz do Antigo Bardo”, da obra “Canções da Inocência e da Experiência”, por William Blake (1757-1827)

Arquétipo da Harmonia

Num plano simbólico e iniciático, a harpa representa um arquétipo da mitologia celta ligado à harmonia e ao equilíbrio. Pela arte subtil de tanger as cordas – símbolo das diferentes qualidades e gradações energéticas, representadas também pelas atribuições zodiacais ou planetares –, o Iniciado restabelece uma ordem no caos, combinando as diferentes notas, de forma a fazer ressoar em si a etérea música das esferas.

Da mesma forma que Dagda recupera a sua harpa, que lhe foi roubada pelos bárbaros Fomorianos, podemos aqui ler uma alusão velada à via heróica e guerreira, onde Dagda representa o Iniciado que, com força e coragem, procura reinstalar em si a harmonia perdida, da qual se afastou por influência das forças egóicas, mentais e ilusórias, representadas neste conto pelos Fomorianos. Será interessante repararmos que, nesta Demanda de recuperação pela sua própria harmonia, Dagda foi acompanhado por Óengus, divindade celta do amor. Assim, na Busca empreendida pelo herói, para além da coragem e da força, é igualmente fundamental a presença do amor, não de uma forma sentimentalista e redutora, mas de uma forma interior, ligada ao próprio Coração – verdadeiro ponto de encontro entre o homem e o divino. Assim como Dagda entoa um cântico que faz com que Daurdabla venha imediatamente ao seu encontro, matando vários Fomorianos no caminho, o Bardo deverá encontrar, pela sua arte, o seu próprio Verbo ou Palavra Perdida, que fará ressoar o seu Ser verdadeiro que, ao vibrar por simpatia, eliminará os obstáculos que impedem o emergir do eu real.

Símbolo de harmonia desde tempos imemoriais, a harpa tem o poder de agir sobre as paixões e emoções humanas, ora agitando-as, ora refreando-as. Estendendo as suas vibrações a quem quer que a escute e agindo fielmente segundo a doutrina pitagórica do número, a harpa canta uma matemática sonora em que a sua equação se resolve dentro de cada um de nós.

* Instrumento musical arcaico, constituído por um braço de madeira curvo e uma corda esticada.
** Como nos demonstram as gravuras que datam de 15.000 a.C. na gruta 
Les Trois Frères em França.

Alexandre Gabriel

Artigo originalmente publicado em “Mandrágora – O Almanaque Pagão – 2011: No Bosque Sagrado dos Druidas” (© Zéfiro, 2010. Todos os direitos reservados).

Sobre o autor

Alexandre Gabriel

Alexandre Gabriel

Alexandre Gabriel licenciou-se em Ciências Musicais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Tem feito parte de vários projectos musicais dentro da temática medieval e celta, dos quais se destacam o grupo Strella do Dia (nascido em 2000) e os Avalon Ensemble (nascidos em 2003), dedicando-se em particular à harpa céltica e à composição. É editor da Zéfiro, surgida em 2005, que se dedica à edição literária sobretudo na área do esoterismo, da espiritualidade, da história e da filosofia. Coordenou a edição do livro “O Perdão dos Templários” (Zéfiro, 2006), assim como a edição de 2011 do “Mandrágora – O Almanaque Pagão – 2011: No Bosque Sagrado dos Druidas” (Zéfiro, 2010), tendo feito parte da direcção editorial deste projecto de 2009 a 2014. Tem-se igualmente dedicado à tradução e à revisão de diversas obras. É coordenador do projecto cultural da Casa do Fauno em Sintra, fundado em 2011. Em 2001 aderiu à Ordem dos Bardos, Ovates e Druidas (OBOD), da qual é desde 2011 o responsável e orientador do ramo de língua portuguesa do Curso de Bardo.

Deixe um comentário