Alquimia Ciências Antigas

Desconstrução / Construção

Olivier de Brito
Escrito por Olivier de Brito

Vós, sejam testemunhas do meu dever cumprido

Como perfeito químico e como Alma santa.

Porque de cada coisa extraí a quintessência.

Tu deste-me a lama e transformei-a em ouro.


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Baudelaire

Este ouro que alucina tanta multidão não será assunto para a nossa busca. A essência que nos interessa aqui revela de uma natureza totalmente diferente daquela que é perspetivada no atual “mediatismo alquímico” existente hoje em dia. Aqui iremos referir-nos ao ouro como meta essencial para a nossa perfeição como seres integrantes de um Todo e de um Todo que é igualmente integrante em todos nós, “Aquilo que está em cima é como o que está em baixo, e o que está em baixo é como o que está em cima” diz o velho axioma da Tábua de Esmeralda .

Não sendo eu um especialista na ciência alquímica, é minha intenção, neste pequeno excerto, poder partilhar convosco o que alquimia chamada “Arte real” pode representar no nosso caminho, e construir convosco, igualmente, passo a passo, uma metodologia de trabalho, instalado no nosso “laboratório” interior.

Para isso, é necessário desconstruir alguns conceitos que foram sendo ao longo dos séculos cristalizados em bases erradas, formando assim caminhos desviantes do seu verdadeiro propósito. A Alquimia pode considerar-se como uma Arte-Ciência transformadora da natureza. Possui duas principais vertentes: uma operativa e outra filosófica. Como referi acima, a parte operativa não será aqui abordada, não sendo eu sequer conhecedor de tal Arte. O que me interessará aqui refletir convosco está assente na operação filosófica dessa mesma Arte, ou seja, definir passos e procedimentos de transformação da nossa própria Natureza objetivando o nascimento do novo Homem.

Da forma como antigamente os textos eram lidos e estudados em espaços consagrados e de uma forma sagrada, façamos, nós, seres da contemporaneidade imediatista, uma leitura atenta e igualmente sagrada, diria mesmo transformadora da Natureza que nos rodeia, tendo em conta que somos reflexos e materializações dessa mesma Unidade. Portanto o trabalho, a Obra, é iniciado a partir do momento em que se opera o processo de  visualização acompanhada e ligada à consciência dessa mesma leitura. O objetivo assenta na fusão dos vários elementos que nos compõe como seres pensantes e físicos a essa Proveniência, e que por mediação dessa mesma Proveniência se interiorizam processos universais de consciência tanto individual como coletiva de pertença aos elementos existentes exteriores a nós e comuns a uma Unidade central.

Neste âmbito, o processo alquímico iniciou-se com o elemento integrativo do ser pensante, do ser reflexivo. Considero-o nesta fase, como percurso ou via para a verdadeira humanização do Homem, resultado da transformação da matéria mais grosseira para a subtilização da mesma, que se definiria em Alquimia como Ouro. Define-se, assim, simbolicamente o cinzelar dessa mesma matéria grosseira, através de uma ciência que pretende transmutar profundamente os “compostos” psicológicos e emocionais que o ser humano tem formado ao longo dos séculos através das normas religiosas, sociais e culturais. Ou seja, ao invés de formar um Todo proveniente de um elemento originário, preferiu, ou assim as circunstâncias o levaram a fazê-lo, pegar inversamente na multiplicidade e varáveis externas para construir um Corpo corrompido pelo ilusório, diria mesmo, pelo sucedâneo da chamada realidade objetiva e científica proferida e promovida pelas elites positivistas e materialistas dos séculos XIX e XX. Notemos igualmente que os fenómenos coletivos não passam ao lado desta questão.

No entanto, a Alquimia explica que todo o processo de subtilização da matéria deverá passar por fases de decomposição e putrefação, de desconstrução como o artigo se intitula, a fim de atingir a sua total consumação na plenitude das suas capacidades. Poderíamos referir aqui o que a Rosa-Cruz evoca quanto à ideia de consumação ou perfeição atingido no desabrochar da Rosa na Cruz. A Cruz na sua figura geométrica, composta no cruzamento da horizontalidade (Tempo) e Verticalidade (Eterno), vê florescer na sua centralidade a plena realização das suas capacidades através dessa Rosa Alquímica. Ou seja, o despertar ontológico do Ser na sua plena capacidade e realização.

Mas para não cair na tentação de explicar os efeitos sem explicar, ou melhor construir-se nas causas, proponho que façamos um caminho em conjunto, a longo prazo, esculpindo fase a fase os processos  de filtragem, separação, consumação e calcinação como se refere a Arte Alquímica, a fogo brando, no sentido de basearmos o nosso percurso de uma forma sustentada e serena. Consiste em potenciar todas as nossas faculdades intelectuais, emocionais e psicológicas não na obscuridade da noite, mas sim, ao raiar do Sol a Oriente. “Essencial é saber ver/ Saber ver sem estar a pensar/ Saber ver quando se vê/ E nem pensar quando se vê/ Nem ver quando se pensa” Fernando Pessoa em Ficções do Interlúdio.

Aqui estão apenas expostas algumas reflexões de alguém, de um peregrino, que pretende conhecer-se a si mesmo e partilhar e beneficiar dos vários contributos futuramente divulgados neste espaço, pelos seus semelhantes. É no despertar das consciências que nos tornaremos mais clarividentes e nos reconheceremos verdadeiramente à Luz daqueles que nos antecederam e que trilharemos caminhos e percursos para aqueles que virão depois.

Hoje em dia, transformação não pode ser confundida como remendos num pano rasgado, mas como construção de bases antecipadamente pensadas e refletidas ao pormenor e na sua consequente materialização, também elas geradoras de desenvolvimento futuro e guardiãs  das suas fundações. Assim entendo o conceito de  Tradição.

Por Olivier De Brito

Sobre o autor

Olivier de Brito

Olivier de Brito

Frequência universitária na licenciatura de estudos europeus na Faculdade de Letras da Universidade clássica de lisboa; Assistente administrativo no Centro Hospital Barreiro-Montijo;

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