Filosofia Mundividências

Dialéctica e a Ética do corpo

Escrito por Luís Coelho

O maior desafio da intenção ética constitui o respeito pelos que, reconhecidamente, não são caros à Obra Espiritual. O nível mais elevado, de algum modo mais exigente, de construção Espiritual corresponde ao respeito, à compaixão, por todos os que, por se encontrarem mais desfasados do objecto Ontológico, representam um perigo maior ao próprio comportamento ético-moral do tecido social.

Nesse sentido, uma maior tolerância pode, de algum modo, ter como efeito secundário uma menor tolerância, porque os que hoje toleramos podem ser os que amanhã despeitam, e até que estes se tornem igualmente tolerantes, é alimentada a máquina de produção em série de seres incapazes de sentir compaixão. Lembra a lógica do dominado/ser em renúncia e do dominante, perante a qual, muitas vezes o que renuncia é eliminado face ao que domina, o que, numa escala maior, poderá traduzir uma Sociedade de “Super-Homens”. O ser da renúncia não é, ainda assim, necessariamente mais ético do que o ser dominante, pois que o primeiro se deixa justificar muitas vezes pelo Objecto de uma Justiça Superior, na qual coloca a esperança de uma salvação; obviamente, a justificação em causa gora a intenção teleológica do objecto ético, mas não a consequência prática do mesmo objecto, a não ser pelo processo indirecto acima apresentado.

Não obstante o afirmado, teremos que atender ao seguinte: se o ser aberto à compaixão trai a sua intenção em prol de um comportamento intolerante, isto poderia significar que os “tolerantes” seriam já os “intolerantes” (e, quiçá, de acordo com a lógica dos “dominantes” e dos “dominados”, os “intolerantes” passariam a ser os “tolerantes”). Não obstante, trata-se aqui de perceber que tipo de “intolerância” deve o homem do Espírito exercer face ao ser ontologicamente “menor” (e, portanto, com probabilidade acrescida, se bem que não obrigatória, de ser intolerante). Não se trata propriamente de castigar, punir, frustrar, trair, iludir; o tipo de “intolerância” que o ser Espiritual deverá exercer é mais propriamente o da “intolerância ao intolerável”, o que remete o Ego do homem do Espírito para uma luta em prol da Ética, do acto correcto, do dharma, e, tão mais importante, pela Verdade. Daí, a acção “egóica” do ser do Espírito passa a ser a acção “para-egóica” de uma intenção Superior que transcende o elemento individual. E assim, a aparente “intolerância” é somente Tolerância inaparente, o aparente Ego é somente Todo inaparente.

Indubitavelmente, a energia que move a intenção Ética é corpórea, egóica, pelo que cada vez mais a temática teleológica dos níveis de dignidade ético-ontológica da acção correcta tende a perder para uma visão consequencialista, lógica logo frustrada pelo próprio exercício da “vida prática”, no seio da qual constantemente fazemos juízos de Valor respeitantes ao que move o ser na sua acção “moral” (não esquecendo a “relatividade” deste “correcta”). Na Essência, todas as teleologias se igualam numa intenção de auto-preservação, mas, na aparência, no quadrante prático de um julgamento da dignidade ético-moral de outrem – capacidade que vai buscar ao corpo e aos níveis de desenvolvimento cognitivo-moral a sua verdadeira força motriz -, a avaliação deôntica assume a sua “normatividade” face às necessidades de avaliação da força moral do “outro”; avaliação que quase sempre se correlaciona com o aspecto mais ou menos digno da acção, incluindo a sua consequência prática. Obviamente, o que a acção produz não é indiferente ao Sujeito que avalia o quadro moral da mesma acção, se bem que existe um limite – na esfera do círculo de consequências – para a avaliação dos próprios efeitos do comportamento.


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Assumindo plenamente a sensibilidade do Sujeito aos diferentes níveis de dignidade ética percepcionados a partir da acção do “outro”, poderíamos dizer que mesmo essa avaliação implica o corpo no seu juízo do que aproxima ou acomete o Sujeito da sua própria auto-preservação ética. Daí que os seres “mais dignos” e correctos nos pareçam mais “atraentes” e “benignos”. Quando, na verdade, a sua dignidade é também a do corpo, como é a nossa, no nosso próprio julgamento valorativo; julgamento que, como sabemos, implica o jogo comparativo com o nosso próprio Quadro de referências, o nosso Arché, o qual depende grandemente do Quadro arquetípico afecto à Sociedade, à Cultura, à História, referência construída dinamicamente na relação com essas, referência instável, modificável mediante as necessidades éticas de cada Sociedade, Cultura, História.

Os Valores são uma construção Humana elevada ao expoente de um Arché primevo, categórico, axial, permanente, muitas vezes dignificado pela necessidade supergóica da personalidade, da sociedade cujo arquétipo domina o aparelho axiológico dos comportamentos. Construção necessária, requerida à urgência da intenção civilizadora, se bem que criadora das Estruturas Super-morais que são parte do condicionamento que nos prostra, incluindo o que consideramos inaceitável e o que elevamos à condição de tabu, alvo da constrição pessoal, castração da intenção permeada pela ilusão de liberdade.

O Valor requer a reprodução do comportamento cindido pelos pólos estreitos que balizam um centro mercurial do Equilíbrio. O Super-Homem quer criar o seu próprio centro de Equilíbrio. Em Deus, encontramos todos os centros possíveis de equilíbrio. A viagem trans-demiúrgica que acarreta o salto entre centros e escalas de equilibração arquetípica, ou seja, a viagem que gora a própria referência em abono da Totalidade, é a do poeta, Sábio elevado à (não) Consciência metanóica que se faz equivaler ao Nada pacificador.

O Nada é, consabidamente, o objecto utópico do ser na presunção da recriação Ética que a própria tolerância traduz e estende à totalidade do tecido humano. Pretende-se fazer do comportamento moral a etapa obrigatória do prelúdio da Totalização. Mas a intenção ética, a acção moral, independentemente do nível de dignidade ético-ontológica que ocupe nos termos de uma pirâmide escalar de Valores, é movida pelo motor corpóreo, pela própria necessidade bio-evolutiva, elevada à própria projecção endócrina que chega a anteceder e a “condicionar” o comportamento. Sim, o Espírito é um animal gigantesco. E a consciência deste processo seria perigar a intenção humana, não fosse um facto que tal consciência só pode, de algum modo, ocorrer nos mesmos indivíduos cuja dignidade ontológica implica um nível tal de aculturação que o seu condicionamento moral só poderia ser já suficientemente avultado, pós-moderno, espiritualizado, e portanto, refreador do comportamento imoral.

A Culpa implica a refreação moral, a aceitação do Valor enquanto Estrutura inquebrantável, imperecível, e até inatacável. Mas a Culpa obriga igualmente ao conhecimento da Verdade, porque o ser inseguro de si não consegue suportar a possibilidade de Existir algo para além do si (ou seja, não aguenta a possibilidade de existirem “sis” para além do seu “si” visto sempre como um “Si”). E, assim, em abono da Verdade, a muitas vezes indesejada verdade do Relativismo emerge enquanto veículo epistemológico válido. A maioria dos filósofos, e também dos homens de Ciência, não quer aceitar a possibilidade de um relativismo radical, porque a urgência da Segurança egóica radicada na existência de uma Estrutura (moral) imperecível sobrepõe-se à mesma urgência radicada na perspectiva de uma Verdade, que, neste contexto, é somente a de que “Não existem verdades absolutas”. Passe-se a tendência bem materialista para criar uma solução de continuidade entre a Verdade “de facto” (vista como “científica”) e a Verdade Ética, tabu quase inviolável da Espiritualidade, bem como do Idealismo em geral e do pós-modernismo em particular (e claramente a tendência oposta à que apresentei no meu «Corpo e pós-modernidade», 2012). Tabu por muitos agressivamente atacado, incluindo todos aqueles que pensam que “Espiritualidade” corresponde a umas aulas de meditação, ao exercício de pseudo-terapias, ou à leitura mal integrada dos mestres da antiguidade.

Filosofia imoral a minha? Talvez, mas, curiosamente, saindo deste meu aforismo e revisitando a vida lá “de fora”, volto ao meu rigoroso comportamento ético, à prisão que anos de refreação do meu “Eu selvagem” impregnaram na solução da minha adaptabilidade. Adaptação social que ponho em risco no preciso momento em que puno a inverdade, em que defendo a mesma filosofia relativista que faz de mim uma espécie de “louco” pervertido. Curiosamente a mesma inadaptação que arrisco no momento de gritar a Ética entendida como um Todo aos que fazem de si mesmos os agentes de uma “ética” egomaníaca, corporativista, classista, culturalista, laboral. Sempre a inadaptação, a inaceitação, a crucificação, em todos os momentos em que a Verdade singular ofende a verdade democrática.

Sempre a Culpa justiceira a fazer do ser individual o Cristo de uma maleita social. A Culpa de nada fazer seria ainda maior. A mesma Culpa que a Evolução inventou e que acaba por predispor à inadaptação evolutiva do ser. Porque a Consciência é uma faca de dois gumes, e o seu expoente máximo é pouco saudável ao corpo, se bem que salutar ao Espírito. E é nesse gritar da tolerância, é nesse riscar do intolerável, que a Ética é menos o comportamento inteligente que permite a própria sobrevivência e mais a atitude do Sábio que tem pouco apego a este “reino”. Uma Ética que parte da intrínseca necessidade auto-confirmatória perante o fantasma incestuoso (interno), mas que acaba por gorar a auto-confirmação perante o animal social (externo)… coisa pouco importante para o tal homem “pequeno”, castrado na intenção secular, livre na intenção Espiritual (mesmo sabendo que esta é somente a ilusão de uma liberdade, a dissimulação do mitómano), para o qual a defesa da Verdade perante os que “não sabem o que fazem” é tão natural, obrigatória e corajosa quanto o comportamento de um labrego que se atira à água para salvar alguém em risco de se afogar.

Por  Luís Coelho

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