Ciências Antigas Tarot

Diálogo com a Alta Sacerdotisa

Anabela Melão
Escrito por Anabela Melão

TOC. TOC. TOC.

Tenho pela frente o Pórtico de Salomão, na extremidade Ocidental do Templo, onde se erguem as Duas Colunas.

Bato à Porta de Santuário oculto que alberga a Deusa dos Mistérios.

Oiço o conselho dos anciãos: Bate e se te abrirá!


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Trémula, retenho a máxima ocultista “querer, ousar, saber, calar”, O Diabo é o querer, a Luxúria o ousar, O Mago o saber, e a Sacerdotisa o calar.

Mas como posso reservar-me ao silêncio e resguardar o seu segredo se anseio conhecê-la?

Sei que apenas fala àqueles que estão dispostos a perguntar-lhe e que estão dispostos a ouvi-la.

E, como está sentada, tenho de ir até ela.

– Quem és tu, ó dama silenciosa, que desliza sobre o mármore com os seus pés alvos e pequenos?

– Quem és tu, ó celestial Luz que, como Morgana, se passeia por Camelot, e atravessa para o Mundo das Fadas, transportada pela lua de barca que lhe jaz aos pés e que a leva até Avalon, fora do tempo e do espaço, por entre as brumas?

– Sou a Alta Sacerdotisa! Oiço uma voz feminina, madura, responder do lado de lá.

Incompreendo e assusto-me porque antevejo um poder contido, controlado, direcionado e disciplinado. – Sou uma filha dos homens!

– O que pretendes? Pergunta a Senhora dos Saberes Nocturnos.

– Atravessar as colunas das forças cósmicas e telúricas, evolutivas e involutivas. Passar entre a Força e a Beleza.  Intrometer-me entre os pilares da Árvore das Vidas. Penetrar na aliança indissolúvel entre o céu e a terra. Alcançar o primeiro degrau da escada de Jacó. Conhecer a felicidade inefável do Nirvana. – respondo.

– É entre colunas que exerço o meu sacerdócio. A  minha essência é o paradoxo! Eu sou o incógnito – responde a Santa Europeia Joana D’Arc.

– Sei que as colunas são os limites do Mundo criado, os limites do mundo profano, e desejo passar entre elas, para conhecer os Sagrados Mistérios! O que é o calor sem o frio? Ou a Luz sem as trevas?

– Porque tens a arrogância de querer atravessar as colunas que me ladeiam? Como formulas os princípios que te revelam o número Dois?

– Sei que és Guardiã da Unidade. Do que não tem limites.

– Que concluis dai?

– Que o ser, a realidade e a verdade têm como simbolo o número Três.

– Porquê?

– Porque é necessário devolver o binário à unidade por meio do número Três.

– Sabes então que só eu tenho a chave dos segredos? Que sou a Dona da Porta?

– Sei disso. E sei que existe tanta coisa entre o céu e a terra de que a minha consciência escolástica não suspeita! Assim como sei que “Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas me convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam.” (Paulo, I Coríntios, X, 23).

–  Deixa o teu Mundo do lado de fora do Templo. Ele não passará por entre estas colunas. Entrai pela porta estreita, gentil infanta. Veda o teu olhar com o fino véu da ignorância. Mas não olvides que apenas te mostrarei o caminho da verdade e que te cabe a ti descobrir o teu próprio trilho. – recomenda-me Cibeles.

Iniciar é introduzir. Entro sozinha e a pé. E vejo Juno imponente!

Misericordiosa oferece-me um silencioso convite: – “Fica tranquila e saibas que eu sou a Deusa. A grande divindade feminina. A rainha da magia. A poderosa feiticeira. A Grande Mãe.”

– O que procuras? Interroga Hathor.

– Conheci o Mago, com ele aprendi sobre o Poder de Criação. Mas cônscia da minha insuficiência, agora quero desvendar o que posso criar.

– E como intentas conseguir tal feito? – pergunta.

– Passando da Sabedoria morta à Sabedoria Viva. Dá-me, ao menos, o reflexo da tua Sabedoria, já que sou também mulher.

– Iniciada, avança! De nada serve a vacilação! – Diz peremptória A Voz.

Timidamente, avanço. Lembro o dito “O mundo mudará menos com as determinações do homem do que com as adivinhações da mulher.“ (Claude Bragdon)

– Sabes quem sou, por debaixo das aparências do que os teus pobres olhos descortinam?

– És dona do silêncio e senhora dos segredos. És aquela que sempre foi, é, e sempre será! Qual Neith!, digo titubeante. Sei que devo aprender a escutar o meu próprio silêncio. Sei que devo contemplar e meditar. Mas, antes, tenho de perceber o que vejo.

– O que vês?, indaga, renitente.

– Vejo os teus florões, como uma tiara pontifícia, que te coroam a cabeça das três luas, bela Cassiopéia. Temo essa cavernosa escuridão!

Impaciente, luto para controlar as bravas emoções que me assolam.

Hesito entre a luz e a obscuridade,  o positivo e o negativo, o dia e a noite.

– E que mais vês?

– As tuas vestes cerimoniais, de rainha, o teu vaporoso manto, os teus flutuantes véus.

– O que tens para perguntar sobre o meu manto?

– Porque é azul, amplo e farto? pergunto.

– Não sabes – ó criança – que o azul é da mesma transparência do vazio da água, do ar e do cristal, é a cor da abóbada celeste numa noite estrelada? – Penetra aí o teu olhar e alcançarás o infinito e chegarás a Deus! É amplo, porque não tem fundo nem tem fim. É farto porque leva à emoção, à intuição e à fé – explica-me Perséfone.

Arrisco o olhar e vejo entre o azul o manto de Cristo, o manto de Maria, o manto de Tutankhamon, e antecipo: – Quero iniciar-me nas verdades da vida eterna. Empresta-me um pouco do teu manto e ensina-me o caminho na Fé.

A Alta sacerdotisa, paciente e amorosamente, cheia de compaixão, cede-me parte do manto que a encobre. E  quase que denuncia uma gravidez, qual Papisa, mas eis que tomo consciência que está prenhe do Dom da Revelação.

Noto, então, que uma metade do corpo está mais encoberta que a outra, e percebo-lhe a dualidade do traje: é o exotérico, o visível e o externo versus o esotérico, o invisível e o profundo. Veste a realidade dissimulada por detrás de cortinas de aparências sensíveis.

Insatisfeita, continuo.

– Mãe Sophia, tu ó Senhora dos sete véus do Conhecimento, porque usas tantos véus? Porque acobertas o Oculto com véus de enigmas, alegorias e simbolos? Não são eles os sete Planetas, as sete verdades e as sete cores do arco-íris?

– Criança, ser humano algum levantou os meus véus! Sabes o que desejas?  Esqueces que “Eu sou tudo o que foi, tudo o que é e tudo o que será, e que o meu véu mortal ninguém jamais suspendeu?” – indagou Artemis.

– Rogo-te, ó mãe que me ajudes a encontrar a senda do caminho interior! A entreabrir a cortina do Tabernáculo!

– Sabes que te diriges a Diana, a Artémis e a Hecate?

– Sei, Alta Sacerdotisa. Deixa que perceba o teu/o meu lado lunar! Sou apenas um iniciado. Sou a Coisa. O Jogo da Energia e da Consciência. O jogo sem “eu”. O jogo sem palavras e sem males. Sou a oposição obsessiva entre o “bem” e o “mal”.

– Eu sou a Triplice Deusa Lunar: a virgem intocada, a ninfa orgiástica e a velha sábia.

– E, ainda assim, suplico-te, ó Deusa, deixa-me entrar pelo reino que está entre o consciente em estado de vigília e do sono. Deixa que acalme em mim a disputa entre a vontade de te perguntar e a força, o fazer e o valor do silêncio.

Ciente da impaciência da antecipação do sentido dos meus passos, tremo e atrevo-me: – Deixa que levante, ainda que ao de leve, a ponta dos teus véus, ó Isis, deusa do amor e da magia, deusa-mãe do Egito.

Plena de uma intuição resolutiva, responde. – Queres tu flanquear os umbrais do conhecimento alto ? Queres tu vislumbrar a linguagem hieroglífica das coisas e do segmento de oiro das formas universais? Por quem te tomas?

– Por quem anseia perder os passos pelo santuário da iniciação, da revelação e do êxtase! Anseio ouvir o cantar do galo! – retalio.

– Está feito, caia o véu! Cerra os olhos para que só o espirito veja a claridade da Luz que te dará a conhecer as Leis da Eternidade. Como o Senhor, descansarei ao cair do sétimo véu. – Oiço a voz inefável da rainha do Sabá, Belkis, aquela a quem Salomão dedicou o Cântico dos Cânticos.

– Abençoada seja esta hora! – agradeço.

Cega por parte de um véu que tomba sobre mim e me entoutece os sentidos, continuo.

– Mater Shekinah, deixa que faça o caminho da Sabedoria, como Zoroastro e Mitra, e que demore sete dias de viagem por entre os sete véus que adornam o Templo.

– Pois, diz-me, o que vês nos véus que torneiam as colunas?

– Desses teus sumptuosos véus bordados brotam sete romãs abertas que jorram de dentro do Jardim Superior do Éden. Quais braços do Menorá do Tabernáculo. Quais sete frutas que consagram Israel. Eis-te, ladeada de romãs. São elas que sinto entrelaçarem-se nos meus sete chackras, abrindo-os. Por entre os véus de Maya quero levantar as pontas dos véus do Templo, atando-os com os véus que te adornam. Tomo como minha divisa Gnóstica a Vontade.

– E que mais vês que te desperta a curiosidade pueril? – pergunta maternalmente.

– A cruz-insígnia  que trazes ao peito que me marca como se fosse o chackra do coração. Sei que a cruz da Iniciação se recebe, apenas, no templo-coração. Mas o meu coração já é teu. Ele é teu hospitaleiro. Nele escondo a minha caixa de Pandora e nela deposito o meu ser espiritual, ainda pequeno, a minha devoção pelo que me ensinas. Nele faço regaço de receptividade e de aceitação. Pois se diz que “como o homem pensa no seu coração, assim ele o é.” – respondo.

– A minha cruz é a tua chave! O teu passado, o teu presente e o teu futuro. Junta a tua vontade à tua imaginação e terás a chave! -desafia-me Nanã.

– Qual é a chave? Qual é o segredo? – pergunto, de novo. Convencida de que a chave que abre o interior dos mistérios é a cruz que carrega ao peito.

E lembro-me de Hermes Trimesgisto, o três vezes sábio, o Senhor da Sabedoria. E imagino, por um instante, que poderá estar sentado, algures, tudo observando no Templo!

– A chave e o segredo não tas posso dar. São tuas por direito. Moram no teu coração. Descobre tu o caminho de ti, para ti, em ti – aduz, convicta.

Percebo então, ao colo, a Tora, ou talvez, o Tarot. Com TAR se faz o caminho, com ROT, acompanho-nos o Rei. O caminho real que palpita, recém-descoberto, no meu coração. Percebo-o. Intui-o.

– Vai, minha filha. Agora que me conheceste, jamais me afastarei de ti. Continua a percorrer-te a ti mesma e grita pelo meu auxílio quando nada perceberes, nada ouvires, nada veres.

Vou. Saio, como entrei, entre colunas.

Saio da Lua Astrológica e tomo consciência que dei os primeiros passos entre uma escuridão inefável de onde saía uma luz essencial. Perdi-me num solitário deserto. Coube-me meter por entre as veredas do Templo onde mal cabia, por estreitas colunas em que os meus ombros roçaram e se feriram as minhas mãos, por  sinuosos caminhos de pedras onde os meus pés sangraram, por luzes que me cegaram, e, por fim, coube-me de lá sair para a morte, num esforço para resgatar o início de mim mesma, e, de novo, como se fosse a primeira vez, nascer.

Só então pude beber das águas verdadeiras.

Entendi, então, que só um coração aberto pode encontrar a Evolução.

Para vivermos livres, vivamos ocultos.

Por Anabela Melão

Sobre o autor

Anabela Melão

Anabela Melão

Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. Assessora do Secretário de Estado da Administração Interna, Luís Madureira (XI Governo Constitucional), de 1989 a 1990. Inspectora de finanças principal da Inspecção-Geral de Finanças, de 1990 a 2004. Adjunta do Secretário-Geral da Assembleia da República, 1993-1994. Adjunta e Chefe de Gabinete do Secretário-Geral da Assembleia da República, 1994-1997. Vogal do Conselho de Fiscalização do Ministério do Trabalho e da Segurança Social, 2000-2002. Sub-Inspectora Geral da Inspecção-Geral das Obras Públicas, Transportes e Comunicações - Auditora do Tribunal de Contas, 2002-2009. Directora Executiva da REGIS LABORE, International Consulting, Lda. Percurso Maçónico: Iniciada em 1996, na Grande Loja Feminina de Portugal Venerável Mestre da Respeitável Loja Eclipse (Primeira Loja Livre e Soberana em Portugal)

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