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O Esoterismo nos Contos de Fadas – Parte 1

Fernando Glórias
Escrito por Fernando Glórias

Introdução

A sua origem é particularmente difícil de traçar, uma vez que sobreviveram e foram sendo transmitidos de geração em geração na sua forma mais tradicional, a oralidade, e apenas esporádicamente sob a forma escrita. Ainda assim, os vestígios que foram deixando na literatura, indicam-nos que os contos de fadas existem há milhares de anos, se bem que a sua importância como género literário só tenha sido reconhecida muito recentemente.

Por exemplo, a expressão “conto de fadas”, como expressão para designar um género literário com características próprias, distintas dos outros géneros literários, surge apenas no final do século XVII, em França, sendo da autoria de Madame d’Aulnoy.

Os contos de fadas, tal como os conhecemos hoje, são o resultado da evolução de estórias com centenas de anos, em diversas culturas. Durante grande parte da sua existência, o que hoje designamos por contos de fadas, destinava-se tanto a um público adulto, como a crianças. É só com a recolha feita pelos Irmãos Grimm no século XIX que os contos de fadas começam a ficar associados apenas a crianças.

Etimológicamente, em Alemão, o género que designamos por conto de fadas, recebe a designação de Märchen, diminuitivo de Mär, e que se pode traduzir por pequeno conto, ou pequena estória.


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Combinando a estrutura deste pequeno conto, com a abertura “Era uma vez”, ficamos perante um pequeno conto, cuja acção se desenrola, regra geral, num tempo e local indefinidos (o que permite adaptações e variações locais), numa época em que o acesso à magia era algo comum, ou pelo menos somos levados a pensar que sim.

Se tivermos em consideração a audiência a que se destinavam estas estórias, e que os recursos para divulgação do conhecimento, fosse ele de que natureza fosse, não abundavam, encontramos no modelo do conto curto do conto de fadas, o veículo ideal para transmitir ensinamentos que interessava fixar, fossem eles de carácter moralista (Capuchinho Vermelho) ou de outro tipo (Branca de Neve).

Fáceis de memorizar, com possibilidade de sofrer adaptações locais sem que isso desvirtuasse o essencial da mensagem, os contos de fadas sobreviveram.

Definição

Estes contos curtos, possuem uma mistura de personagens humanas, que vão ser confrontados com situações extremas que terão que ultrapassar para provar o seu valor (ou aceder ao nível seguinte), e não humanas que irão ajudar (ou não) os protagonistas humanos (fadas, elfos, duendes, gnomos, goblins, trolls, etc.).

Os humanos são também alvo de sortilégios ou magia, quase sempre apresentada de modo negativo ou como prova de aprendizagem, que constitui mais uma prova a superar.

Podemos assim, de modo resumido, apresentar uma tentativa de definição para o conto de fadas como um conto curto onde personagens humanas interagem com personagens não humanas, são alvo de sortilégios e magia e confrontados com outros obstáculos e situações extremas que têm que ultrapassar. Uma vez cumprida a tarefa, porque trata-se apenas disso, uma tarefa a cumprir, o(s) protagonista(s) têem a merecida recompensa.

Os Contos de Fadas na Literatura

Os contos de fadas mais antigos que se conhecem sob a forma escrita, datam do antigo egipto (circa 1.300 AC; O Conto dos Dois Irmãos). Ao longo dos tempos, os contos de fadas vão surgindo, ainda que de forma esporádica, sob a forma escrita, é o caso do conto O Burro de Ouro, que inclui ainda Cupido e Psyche, e de data da época romana, approx. 100-200 AD, o conto Panchtanta, da Índia, que data do século III AC. Não se sabe no entanto, até que ponto é que estes registos reflectem a popularidade dos contos de fadas nas respectivas épocas.

As análises estilísticas indicam que estas, como muitas outras recolhas posteriores, reformularam os contos tradicionais de modo a conferir-lhes uma forma mais de acordo com os cânones literários da época.

Para além de marcarem presença em compilações literárias, os contos de fadas surgem também nas obras de filósofos taoístas chineses como Liezi e Zhuangzi. Na Europa, os primeiros contos de fadas de que há registo, são os de Esopo, da grécia antiga, que datam do século VI antes de Cristo.

Já mais próximo da nossa época, mais concretamente durante a Renascença, os italianos Giovanni Francesco Straparola (1480-1557) e Giambattista Basile (1575-1632) são encarados como os percursores das compilações de contos de fadas.

As compilações de contos de fadas voltam a ser retomadas em França, no final do Século XVII por Madame d’Aulnoy, altura em que surge pela primeira vez a expressão conto de fadas e altura também em que este tipo de compilações conhece algum sucesso. Porém, seria necessário esperar até ao século XIX, para que as compilações dos Irmãos Grim despoletassem um verdadeiro sucesso do género conto de fadas à escala europeia.

Os Irmãos Grim foram os primeiros a demonstrar preocupação em preservar não apenas o enredo e as personagens, mas também o estilo em que o conto era narrado.

Já no século XX, e como exemplo das alterações a que os contos de fadas foram sendo sujeitos ao longo dos tempos, Bruno Betelheim (autor da obra Psicanálise dos Contos de Fadas), entre outros, insurgiou-se e criticou a eliminação dos elementos de violência e de carácter sexual dos contos de fadas. Para Betelheim, como para outros psicólogos, a existência de elementos desta natureza no conto de fadas permitia, de modo simbólico, resolver conflitos, o que conferia uma maior utilidade ao conto de fadas.

Branca de Neve é um conto de fadas comum a muitos países europeus, sendo a melhor versão, a que foi recolhida pelos Irmãos Grimm (Schneewittchen und die sieben Zwerge, “Snow White and the Seven Dwarves”). A versão alemã do conto, inclui elementos como o espelho mágico, a maçã envenenada, o caixão de vidro, e os sete anões, a quem só foram dados nomes individuais em 1912 na peça da Broadway intitulada Snow White and the Seven Dwarves, tendo recebido nomes diferentes no filme da Disney com o mesmo nome, datado de 1937. A história apresentada pelos irmãos Grim, geralmente referida como Branca de Neve, não deverá ser confundida com uma outra história também recolhida pelos Irmãos Grim e intitulada Snow White and Rose Red (designada pelo seu nome alemão Schneeweißchen, e não Schneewittchen, originalmente Sneewittchen uma designação do chamado Baixo Alemão).

(continua…)

Fernando Glórias

Sobre o autor

Fernando Glórias

Fernando Glórias

Após a conclusão da Licenciatura na FCSH da UNL, enveredou por uma carreira de Tradutor Técnico que o levou para indústria petrolífera. Manteve no entanto sempre o gosto pelo esoterismo e a paixão por abordar os assuntos de uma perspectiva diferente. Ao longo dos aos foi aprofundando os seu conhecimentos de esoterismo, através de leituras, participação num projecto de tradução de uma obra de divulgação sobre os Cavaleiros Templários, entre outras actividades.

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