Mundividências Reflexões

Experiências de Quase Morte (EQMs), como Fenómenos de Expansão da Consciência

Escrito por Manuel Domingos

As EQMs podem ser integradas na ampla panólia de fenómenos que consideramos como de expansão da Consciência. Acontecem, particularmente, em situações de paragem cárdio-respiratória, acontecendo também em casos de coma e em pacientes anestesiados (menos frequente). mais adiante voltaremos a esta ideia, quando abordarmos os aspectos dinâmicos deste fenómeno, a todos os títulos, intrigante e de fundamentos elucidativos ainda desconhecidos (apesar da pressa em os justificar fisiologicamente por parte de uma certa franja, fundamentalista, da comunidade científica, com medo que se descubra….bom, sei lá o quê.)

Esta situação é, quanto a nós, que partimos há cerca de 25 anos de uma posição céptica ao observarmos o primeiro caso, algo que hoje se apresenta como inquestionável do ponto de vista da sua veracidade. As explicações avançadas até ao momento, para fundamentar o seu aparecimento e dinâmica, afiguram-se (como deixámos antever no primeiro parágrafo) pouco consistentes e até algo forçadas. Referimo-nos não só às tentativas de fundamentação orgânico-mecanicistas (tantas vezes arrogantes e mergulhadas em “cadinhos de experimentação” animal não humana e, por isso, não extrapoláveis para a nossa espécie…neste contexto), mas também a toda uma panólia de argumentos “ultra-espiritualistas” que não nos parecem satisfazer, minimamente, os citérios mínimos para que posamos chegar ao porquê das EQMs.

Na realidade, não sabemos o que se passa. Apenas podemos dizer que elas… SÃO! Por isso, e antes de avançarmos, recomendamos humildade, trabalho intenso, multi e interdisplinaridade e total abertura ao Conhecimento, sem tabus ou “birras” porque temos à força que explicar, fisicamente ou espiritualmente, o fenómeno de modo forçado, para que não percamos o estatuto (mas qual estatuto?). Meus senhores e minhas senhoras, estimados leitores, o Saber não pode assentar numa “Feira de Vaidades” e assumir a ignorância sobre determinados factos não nos deve “beliscar o Ego”, nem provocar um catastrofismo de identidade intelectual. Afinal há tanto por conhecer, muito por descobrir e uma miríade de interrogações para reflectirmos e investigarmos, que se conhecessemos tudo, cairíamos num “definir c’est finir” no pior dos sentidos. Por isso, vamos lá falar verdade e não ter problemas em dizer: EQMs? Existem sim mas não sabemos como se processam. Fenómeno estranho? Claro que sim. De contornos a roçar o esotérico (no sentido literal do termo)? Pois então (e não se assustem com a palavra que até vem no dicionário e que é, tão só e precisamente, o inverso de exotérico). Mas fascinante, muitas vezes regenerador do Eu que a “sofre” e, indiscutivelmente, um “apetite” para os investigadores, despretensiosos e não-fanáticos, da Consciência e dos seus Estados Alterados que, de uma forma tantas vezes a roçar a dedicação monástica (se que isso signifique clausura), abraçam a pesquisa, respeitando o tema, com saudável, entrega, temor, dúvida, teimosia e coragem, enfrentando a tradicional “velharia do restelo” (retrato do, tradicional, atraso nacional e da, tenebrosa, mentalidade de “loby”) que ainda anda por aí e que gostava de condenar a uma ardente fogueira sócio-intelectual os que se atrevem a demandar.

Mas em que consiste tal fenómeno? Podíamos escrever dezenas de páginas sobre este aspecto mas o espaço concedido não nos permite tal. Por isso iremos abordar as manifestações das EQMs que consideramos nucleares, em termos de frequência e de impacto na pessoa.


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Mas afinal, e retomando as ideias iniciais deste trabalho, o que se entende por EQM?

Para começar….nada do “outro mundo”.

Podemos conceptualizar o termo Experiência de Quase-Morte (EQM) como sendo um conjunto de senso-percepções com ou sem movimento associado, intensamente vivenciadas numa situação de Estado Alterado de Consciência. Estão, predominantemente, associadas a situações de morte clínica (paragem cárdio-respiratória, mais ou menos prolongada, com traçados de ECG isoeléctricos), podendo também acontecer em pacientes anestesiados ou em estado de falência (não total) de determinados parâmetros orgânicos.

Manifestações nucleares das EQMs:

As pessoas que vivenciaram o fenómeno, relatam, geralmente, uma série de factos comuns a uma larga percentagem de quem passou por tal. Temos, como mais frequentes:

1 – Um estado de perplexidade por não entenderem, de imediato, a nova “realidade” em que se encontram

2- um sentimento de paz interior;

3- a sensação de flutuar acima do seu corpo físico;

4- autoscopia

5- a percepção da presença de pessoas ou seres incorpóreos, à sua volta;

6- visão de 360º;

7- ampliação dos vários sentidos;

8- comunicação telepática;

9- a sensação de viajar através de um túnel intensamente iluminado no fundo

10– Revivescência “relâmpago”  dos, principais, factos da vida.

Devemos alertar os leitores para o facto de nem todas as vivências terem esta constelação de manifestações. Assim, nem sempre há a “visão” do (famoso) túnel ou os encontros com os “seres de luz” (curioso que até alguns pacientes agnósticos ou ateus, que acompanhei, assim se referiram a eles). outro aspecto importante a referir é que nem todas as EQMs são positivas (“visões fantasmagóricas” e ameaçadora), embora estas sejam uma minoria, não se sabendo o porquê de tais desvios do habitual. Certo é que, mesmo nestes casos, a generalidade das pessoas, que observámos, referem mudanças positivas no seu quotidiano, para com os outros e para consigo mesmo. Mas, vejamos o que se passa, geralmente, após a vivência.

Alterações bio-psico-sociais, pós EQM:

Na realidade, a maioria dos pacientes alteram, significativamente, a opinião que possuíam em relação a si e ao mundo que as rodeia.

As mudanças comportamentais são (como foi referido), regra geral, significativamente positivas. O principal factor para as alterações de atitudes poderá ser a perda do medo da morte (tanatofobia) ou mesmo a convicção, adquirida, de que essa transição vital não existe.

Passam, pois, a valorizar mais as suas vidas e a dos outros; reavaliam os seus valores, éticos e as prioridade “habituais”; tornam-se mais serenos, confiantes e solidários.

Mas não ficam por aqui as modificações do “Eu” pós-EQM. Assim, não é raro serem relatadas aquisições do que poderemos chamar faculdades hiper-psicofisiológicas (termo que nos veio à  ideia para não usarmos…parapsicolólogicos, palavra que tanta “urticária” causa aos nossos positivistas mas que faz parte do vocabulário, quotidiano, de investigadores em áreas tão diversas como as neurociências, psicologia, antropologia, física quântica ou teologia, que descomplexada e empenhadamente se debruçam sobre os mistérios da Consciência por esse mundo fora, incluindo Portugal…embora aqui em número, ainda, reduzido.

Essas faculdades distribuem-se por 3 categorias:

1- Psi-Kapa –  telecinése (movimento).

2- Psi-Gama – clarividência, telepatia, precognição.

3- Psi-Teta – multi-dimensionalidade do “Eu” (onde poderemos inserir as EQMs, até que novos dados, fundamentados de modo sólido e inequívoco, nos façam rever esta posição).

E, como se explicam as EQMs?

Em nossa opinião, e não só, frise-se bem que não há (de momento) nenhuma explicação satisfatória que nos leve a “embandeirar em arco” e a dizer que redescobrimos a pólvora. Nada disso. Apenas afirmamos que existem e que os que as vivenciam (analfabetos, doutorados, crentes, ateus….) as descrevem como reais e, tantas vezes saudavelmente, modificadoras da sua estrutura bio-psico-social de base (como já referimos). Também afirmamos que não são fenómenos patológicos apesar de se poderem manifestar em pessoas psicologicamente alteradas, claro. Mas a grande maioria foge a essa norma. Os relatos são, na maioria dos casos, bem estruturados e com sequência lógica. Nada que se assemelhe com alucinações ou dissociações, como defendem muitos investigadores apressados em explicar a “pura e dura” mecânico-dinâmica do fenómeno (porventura com medo de um dia correrem o risco de terem que admitir que a mente é bem mais do que um produto do, exclusivo, encéfalo, sem pôr em causa o papel relevante, desta nobre estrutura, na dinâmica da Psykê).

Muito nos “perderíamos” em considerações que dariam um livro ou quase mas, com já referimos anteriormente, não há “espaço gráfico” que nos permita estender a prosa. Só mais alguns considerandos. Primeiro, e isto é fundamental, existem milhões de relatos, por esse mundo fora, que se sobrepõem em termos de semelhança descritiva (não acredito que, apesar da proliferação, dos meios de comunicação onde insiro as redes sociais, as pessoas se ponham num qualquer facebook ou similar a combinarem umas com as outras dizerem que viram o bisavô quando estiveram “mortas” só para espalhar a confusão, irritarem os cientifico-positivistas ou encherem de gaudio os  ultra-espiritualistas). Segundo, e digo-o mais uma vez e de forma veemente, essas pessoas(crianças, adultos, idosos)  não mentem, até porque muitas delas nem sonhavam com a confrontação de tal cenário, de que nunca tinham ouvido falar. Terceiro, admito (tal como tantos outros estudiosos do fenómeno) que as descrições são contaminadas pelo contexto sócio-cultural e até religioso (ou não) em que as pessoas estão inseridas; mas tal não tira, qualquer, legitimidade à essência das EQMs.

Reportando-me a uma situação particular que são as EQMs em cegos de nascença não entendo como alguns cientistas, ou meros leitores da literatura sobre o fenómeno que nunca passaram pelo contacto com quem teve a vivência ou pesquisaram “ao vivo” fosse o que fosse, podem (por exemplo) afirmar que a explicação assenta numa actividade residual da visão para explicar o “túnel”. Disse…cegos de nascença que têm EQMs sobreponíveis aos que possuem uma visão normal. Como diria o saudoso Fernando Pessa: “E esta hein?”

Portanto, e finalizando esta prosa polémica acerca de um assunto ainda mais polémico, diremos que há muito para palmilhar com a tal persistência, abertura e humildade. Se assim se fizer, todos ganharemos independentemente do que, no final, se venha a apurar. ninguém vence, ninguém perde; todos seremos beneficiados com a melhoria do Conhecimento do “Eu interior” e dos seus mistérios, banhado que está nessa grande bolha que é a inefável Consciência. Ora, já me esquecia…..as EQMs não provam (nem deixam de provar) que haja vida para além da morte. Afirmar ou aventar isso com base nas ditas seria um erro de palmatória. Serão, na nossa modesta opinião, sublimes fenómenos dinâmicos da expansão da nossa Consciência, que acontecem em determinado “contexto vital”.

Tudo o que se disser, agora e nos tempos que se seguirão, em jeito de afirmação perentória será mais especulativo do que a própria especulação e, em certa medi da, uma forma de fuga para a frente afim de não se perder o tal estatuto de sabedoria. E, terminando, volto a perguntar: qual estatuto? Para quê um estatuto? Convençamo-nos que estamos aqui para conhecer, mesmo que isso implique desconhecer, e ajudar o próximo numa entrega total. Por isso seria bom, como fazem os nossos colegas estrangeiros, criar consultas de atendimento a quem passa por EQMs. Não para tratar nenhuma disfunção (na maioria dos casos), mas para orientar quando existe perplexidade sobre o que se passou e/ou se irá passar a seguir.

Manuel Domingos (M.Sc., PhD)

Unidade de Neuropsicologia/CHPL; Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa; Universidade Lusíada de Lisboa

Sobre o autor

Manuel Domingos

Manuel Domingos é Doutorado em Psicologia (Neuropsicologia), pela Universidade de Aveiro. Professor de Neuropsicologia, Neuropsicopatologia e Psicopatologia do Adulto e da Terceira Idade na Universidade Lusíada de Lisboa. Formador nas Áreas da Neuropsicologia de Intervenção, Neuropsicologia Pediátrica, Neuropsicologia Criminal, Avaliação e Reabilitação Neuropsicológica e Estudos da Consciência. Coordenador da Unidade de Neuropsicologia, do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. Membro de várias Sociedades e Associações Científicas e Humanitárias, Nacionais e Estrangeiras.

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