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LUZ E TREVA. Os símbolos e a metafísica.

LUZ E TREVA. Os símbolos e a metafísica.
Carlos Dugos
Escrito por Carlos Dugos

A Luz constitui um dos símbolos mais perfeitos e imediatamente perceptíveis. A sua natureza física propicia a visibilidade do mundo manifestado e, por analogia simbólica, representa a percepção do que, não estando manifestado, pertence ao mundo das causas. Se no primeiro caso estamos perante a óptica, ciência que estuda tanto a luz como a visão, no segundo estamos no domínio da iluminação espiritual.

Também a Luz, como acontece com todos os símbolos, tem sentido ambíguo. Na Roma antiga o planeta Vénus era designado por Lúcifer – aquele transporta ou traz a luz. E isto porque, para além da Lua – quando a havia – Vénus era o último corpo celeste a brilhar no céu que antecedia o nascer do Sol. Lúcifer anunciava a alvorada, em sentido astronómico e anunciava a iluminação espiritual, em sentido simbólico.

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Não obstante esta função iluminante, Lúcifer foi reconhecido, pela tradição romano-cristã, como o anjo caído do mais alto dos céus. Deste modo passou a ser portador de outro tipo de luz, já não espiritual mas racional, já não abençoada pelo amor divino mas manchada pelo orgulho humano. De notar que, um dos mais significativos emblemas de Vénus era a maçã. Tomando-se um desses frutos e cortando-o numa perpendicular ao pé e diametralmente, poderá ver-se, em cada uma das faces interiores, o sinal sagrado, mas ainda ambíguo, seja da mais pura Luz espiritual, seja da mais profunda treva da Queda. Trata-se do pentagrama, que é outra imagem de Vénus, ora apontando o esplendor celeste e paradisíaco ora apontado a obscuridade subterrânea e infernal, dependendo da posição em que se apresente.

Tal como no domínio da física a escuridão absoluta impede a visão, em sentido metafísico a ausência da luz do entendimento impede a consciência do mundo espiritual. Seja em termos físicos ou metafísicos, a luz corresponde à visão e as trevas correspondem à cegueira. Na própria linguagem comum, ver significa frequentemente compreender e, para se ver ou compreender tem que haver luz. A analogia é simples e directa.


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A tradição joanina declara, no Evangelho: “No princípio era o Verbo” e, mais adiante, que “… a vida era a luz dos homens” O reconhecimento do princípio, o Verbo, só é possível através da Luz. Fisicamente só é visível o que existe; e metafisicamente só é “visível” aquilo que É. Em ambos os casos, a luz – Luz – é o que permite ver. Mas, para que algo possa ser visto, tem que haver algo anteriormente criado, que seja por natureza visível. A tradição joanina chama Verbo à potência criadora e Luz à consciência que permite “ver” a Criação em toda a sua amplitude, seja material ou espiritual.[1]

Convém que se compreenda este Verbo como estando para além da palavra ou da fala, em sentido humano. Ele constitui a essência dos mistérios que presidem à realidade absoluta. E esta realidade exprime-se através dos seus símbolos visíveis, que são a própria natureza criada. Por isso, “…a vida era a luz dos homens”.[2]

Muitas vezes negada, tanto pela heterodoxia desmesurada como pela ortodoxia excessiva, a ideia de sacralidade da natureza ganhou, com o conceito franciscano, uma dinâmica muito particular, feita de evidências simples e extremamente afectivas A Ordem nasceu para combater o pessimismo cátaro, com o optimismo de S. Francisco. E, em certas concepções que nela proliferaram, o mundo natural era tido como o “rosto visível” de Deus. Perante isto, poderia acontecer, como aconteceu, que por parte dos meios mais ortodoxos se gerassem algumas suspeitas de panteísmo.

Embora a natureza possa ser apreendida por praticamente todos os sentidos, é a visão que proporciona o modo mais abrangente de percepção. O som sugere e a imagem explica; a palavra alude e a figura demonstra. E, se a palavra está sujeita à diversidade linguística, a imagem constitui uma linguagem universal, independente dos idiomas. À luz da imagem, o mundo descodifica-se e revela-se ao observador atento.

Só se vêem os objectos que estão iluminados. Porém, a sua visão não depende unicamente da luz, mas também da treva. Tal como acontece com a escuridão profunda, a claridade total e uniforme, impede a percepção de contornos e das formas. Para que haja visão é necessário o duplo concurso da luz e da treva. É o diálogo entre uma e outra que cria as graduações de luz e sombra, pelas quais se distinguem formas, planos, dimensões e cromatismo, porque a gama de cores corresponde às possibilidades cromáticas contidas entre a treva e a luz.

Evocando a lei fundamental do simbolismo que é a lei das analogias, estas considerações, de ordem física podem ser transpostas para a ordem metafísica. Neste caso, caberá a cada um, de acordo com a sua capacidade intelectual e intuitiva, calcular ao que corresponde, num plano de realidade metafísica, cada um dos elementos ou “entidades” em referência, nomeadamente: luz, treva, graduação, forma e cor.[3] Para tanto será decisivo que se evitem as ideias sem comprovado fundamento, muito frequentes nas personalidades mais precipitadas e imaginativas. Ao contrário de certas concepções de ordem materialista, a metafísica também é, sob certos aspectos, uma ciência exacta.

Faz-se aqui esta sugestão, ou convite, porque convém distinguir, quanto à apreensão da Luz espiritual, dois aspectos cronologicamente sucessivos. O primeiro é o que se poderá designar por comunicação da Luz e que confere a capacidade de “ver” espiritualmente. O segundo constitui o processo subsequente que consiste em compreender ou tomar consciência daquilo que se “viu” espiritualmente. Em termos iniciáticos, a comunicação da Luz consiste na Iniciação propriamente dita. O processo de tornar consciente a visão desenvolve-se no percurso iniciático individual.

O acto de conferir a Iniciação – que segundo René Guénon constitui a transmissão de uma influência espiritual específica – liga o recipiendário a uma corrente espiritual efectiva. Será como que ligar um electrodoméstico à corrente. No entanto, para que o aparelho funcione, é necessário que contenha em si, potencialmente, os meios para o fazer, aspecto que é independente de estar ou não ligado à corrente eléctrica. A Iniciação concede a Luz virtual, a Luz de ver, que só se tornará actuante, como Luz efectiva, Luz de entender, pelo empenho e pela capacidade pessoal do iniciado. As propostas iniciáticas que dizem dar simultaneamente Luz e conhecimento, não só são de desconfiar mas mesmo de repudiar.

Em termos religiosos, o acesso à Luz espiritual depende essencialmente da ligação do indivíduo à comunidade dos crentes, à relação que esta estabelece com a divindade e na obediência aos preceitos e regras consagrados no corpo doutrinal. Enquanto a espiritualidade iniciática se dirige ao conhecimento, a espiritualidade religiosa dirige-se à fé. Evidentemente, estas considerações são muito sumárias e, sobre o conceito religioso de iluminação muito mais haveria a dizer. Porém, para evitar algumas confusões, não deixe de se assinalar que, no modo religioso, há formas extremas de devoção, nomeadamente a via vulgarmente conhecida por mística. Por pura ignorância, a palavra “mística” é actualmente aplicada a toda e qualquer disciplina espiritual o que é um erro grosseiro. A mística é uma modalidade específica, que se baseia na sublimação da capacidade emocional, mediante a ascese e a oração profunda. O processo pode dar lugar a estados muito intensos de contemplação e de comunhão com estados superiores do ser.[4] Refira-se que, no século XVI, se desenvolveu em Espanha uma seita mística designada por alumbrados – iluminados – pouco estimada pela ultra ortodoxia e pelo Santo Ofício, tendo a própria Santa Teresa D’Ávila sido objecto de suspeita e inquérito, embora nada a ligasse a essa corrente. Estes iluminados nada tinham de comum com a seita bávara dos illuminati, surgida no século XVIII.

A Tradição simbólica regular permite múltiplas aplicações do conceito de luz e treva a diversos aspectos da realidade manifestada, sobretudo no que respeita ao espaço, ao tempo e, obviamente, aos fenómenos da visão. Por exemplo, diga-se: que o tempo da treva é a noite e o dia o tempo da luz; que, espacialmente, a luz nasce a Oriente e morre a Ocidente; que o Norte corresponde à treva e o Sul à luz; que, cromaticamente, o azul é uma modalidade próxima da treva e o vermelho uma modalidade próxima da luz. É evidente que a treva, vista através da luz, proporciona a cor azul. O firmamento é completamente negro; no entanto, porque o vemos através da atmosfera iluminada, o Céu mostra-se azul. Também a luz, vista através da treva se torna vermelha, como por exemplo, à hora do poente, em que a luz solar é vista através da treva nocturna que se vai adensando, tornando vermelho o Céu, a Ocidente. Nestes conceitos há uma lógica que se intui naturalmente, não necessitando de análise ou crítica, porque a sua natureza e a sua compreensão se formulam sinteticamente. Na verdade, trata-se de símbolos, susceptíveis de representarem princípios espirituais homólogos, desde que se aplique correctamente a lei das analogias.

Na cultura ocidental, a partir do século XVII, com o advento filosófico do racionalismo e, principalmente no século XVIII, com a formulação ideológica e prática do iluminismo, o conceito espiritual de iluminação sofreu um desvio ou, mais precisamente, desenvolveu-se-lhe uma ramificação paralela. A partir daí ficou estabelecido que, em termos metafóricos, há uma luz de ver o mundo e de o compreender racionalmente e, em termos simbólicos, há uma Luz que ilumina a origem do mundo e o dá a compreender espiritualmente. Esta divergência inseriu-se no conjunto de tendências que, a partir da Renascença, deslocaram progressivamente o eixo do mundo do Céu para a Terra e de Deus para o Homem. Neste processo, a chamada época das luzes constituiu uma simbiose entre os pressupostos clássicos da revelação espiritual e os novos conceitos que, prescindindo da iluminação transcendente, a substituíam pela compreensão racional e objectiva da realidade. Deus deixou de ser entendido através de uma revelação pela Luz, para se tornar compreensível unicamente pela luz do raciocínio humano.[5]

Doutrina de carácter pragmático, o iluminismo foi adoptado pela burguesia emergente que via nele a consagração filosófica dos seus próprios desejos, como classe em luta contra a aristocracia. O ideário liberal, que instauraria novos conceitos de indivíduo e de propriedade; uma crença militante no progresso, que estabeleceu os primórdios da indústria massiva; a crença na supremacia absoluta do Homem, como destinatário e herdeiro de todo o universo, constituíram as linhas fundamentais do programa iluminista. A dinâmica filosófica e histórica desta corrente criou condições para o aparecimento do materialismo e do ateísmo, século XIX, doutrinas em que não mais se falou de Luz. Noutro sentido menos radical serviu à formulação doutrinal de uma certa maçonaria especulativa, particularmente a francesa e em geral a latina, muito ligadas a conceitos de origem iluminista.

Luz e trevas têm sido tema muito caro à tendência espiritual maniqueísta, que radicaliza cada um destes princípios, atribuindo a um todo o bem e, ao outro todo o mal. Numa perspectiva metafísica, quer a luz quer as trevas têm o seu lugar próprio no conjunto da realidade. E se admitirmos que uma e outra se opõem, isso não significa que estejam literalmente em luta, no sentido vulgar do termo, mas apenas em constante processo dialéctico.[6] Constituindo as duas faces da mesma moeda, sem uma não existiria a outra; ambas têm a sua função, até ao momento em que se esgote o actual ciclo de manifestação e todos os aspectos que o compõem sejam reintegrados na essência original.

Carlos Dugos


[1] – Do ponto de vista agostiniano, o Verbo é o meio pelo qual Deus se dá a conhecer.

[2]  – João 1 – 4.

[3] Não está no âmbito nem na dimensão do presente escrito o desenvolvimento deste aspecto.

[4] A mística é uma modalidade essencialmente cristã, particularmente católica, embora certas práticas islâmicas de ascese espiritual possam assemelhar-se-lhe.

[5] Este tema é demasiado vasto para ser mais desenvolvido na presente circunstância.

[6] A vitória de S. Jorge sobre o Dragão não se salda com a morte da besta mas com a sua modificação, o que configura uma síntese.

Sobre o autor

Carlos Dugos

Carlos Dugos

Carlos Dugos nasceu em Lisboa, em 1942; os seus primeiros trabalhos de pintura datam de 1957. Frequentou a escola de Arte - Núcleo de Arte em Lourenço Marques, então capital de Moçambique. Regressou a Portugal em 1967, instalando-se em Lisboa onde montou atelier. Em 1974-75 viajou pela Europa, sedidindo em Zurique e Madrid. Em 1977 regressou definitivamente a Lisboa, continuando os estudos de simbólica, entendida como a linguagem espiritua por excelência. Matricula-se no curso de Teologia organizado pelo "Leoninum Orthodoxum Institutum" patrocinado pela Sorbonne. Em 1984, a convite da Galeria Arcano XXI, participou numa colectiva expondo oito telas. Nesse mesmo ano dirigiu uma nova Galeria de Arte "São Bento", organizando o projeto cultural a ela associado. Em 1988 foi convidado a manter temporariamente um atelier no Palácio da Pena. A partir de 1985 participa em várias exposições em Lisboa, realiza uma série de estudos cromáticos em bairros sociais do Estado. Está representado no Museu da Câmara Municipal do Maputo; na Caixa Geral de Depósitos; no IGAPHE - Instituto do património habitacional do Estado; Grupo Totta; várias instituições públicas; em empresas privadas e em numerosas colecções particulares, portuguesas e estrangeiras.

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