Templarismo Vias Iniciáticas

Maleak-ha Eloim “O Anjo no qual é Deus”

Olivier de Brito
Escrito por Olivier de Brito

Irei abordar neste texto a temática da via cavaleiresca na sua essência mais profunda, abordada de um ponto de vista da tradição primordial mas inevitavelmente inserida no seu contexto histórico, social e cultural medieval.

A cavalaria cristã, que é objecto da reflexão de hoje, terá a Cruz e o Cristo como ponto fulcral para atingirem a Jerusalém Celeste a Oriente, ou seja, o Centro esotérico, o confluir de toda a sua doutrina.

Convido assim à meditação sobre o significado da Arte da cavalaria Real, sua implicação hoje em dia mas igualmente perpetuadora de eternos valores humanos e fraternais. Que papel tem a verdadeira e essencial “Miles Christi” ou milícia de Cristo quando esta se encontra ao serviço do Cristo-Rei, e como distanciar-nos das confusões e perturbações que podem suscitar para alguns, a tentação para perigosos desvios encarnando extremismos patrióticos, escondidos debaixo de novas construções de ditaduras e poderes totalitários, tanto a nível político bem como religioso.

Primeiro temos de nos reportar ao que a tradição Primordial traduz como “Queda original”: Ruptura da união entre o homem e Deus e respectiva queda total na escuridão espiritual e na sua completa queda na ignorância e desvio da sua Alma na matéria, ou seja, a involução do seu corpo na matéria corruptível.


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A guerra sagrada, por sua vez, é uma função angélica, porque a história do mundo começa com uma batalha entre milícias celestes e legiões infernais, (Remeto para leitura desta temática as obras de Martinez de Pasqually “Tratado de reintegração dos seres” e obra de John Milton “Paradise Lost”) que prossegue com o Arcanjo como guardião da Porta do Paraíso. Sublinha René Guénon no “Rei do Mundo” o carácter angélico da função Real e cavaleiresca: “Temos de reparar que “Melek”, “Rei” e “Malak”, “Anjo”, ou “Enviado”, são na realidade dois aspectos para no fundo significar o mesmo, “O Rei-Anjo” se quisermos. Mais, “Malaki” “Meu Enviado”, que quer o enviado de Deus ou “Anjo no qual é Deus”, Maleak-há Eloim, é o anagrama de “Mikael”. Miguel, ou São Miguel Arcanjo, o mais elevado dos anjos, é, como se sabe, o patrono dos cavaleiros. Já se vislumbra a imagem do cavaleiro celeste como guerreiro e guardião.

No entanto, também no que diz respeito à Iniciação “guerreira” ocidental denominada “Cavalaria” é necessário focalizá-la no contexto da Idade média ocidental. Apesar de existir um traço fundamental entre todas as outras tradições. A Cavalaria perdura através dos tempos não obstante na sua função social, mas principalmente na sua marca espiritual e cósmica, na medida em que na sua dimensão humana é apesar de tudo um reflexo de um “atributo divino”.

Existe portanto um Arquétipo da Cavalaria que se reporta a aspectos de rigor, Justiça e Força que fazem parte dos atributos de Deus na sua manifestação. Daí vislumbrarmos os princípios da acção guerreira que são estabelecimento da ordem e do estabelecimento do equilíbrio cósmico. Vemos portanto uma Via espiritual muito específica do “Guerreiro” ou Cavaleiro. Mas interessa aqui definir, no meu entender, a noção de ordem. Irei extrair da obra de Louis-Claude de Saint-Martin “Le nouvel Hommme” ou “O Homem Novo” o seguinte: “… Porque o nome ordenação, (e aqui referia-se à unção Sacerdotal do Homem-Espírito) vem da palavra “ordinare”, ordenar, que quer dizer repor cada coisa na sua linha de orientação; e tal é a propriedade do Verbo eterno que produz perpetuamente tudo segundo o peso, o número e a medida.”

Assim, é neste conceito que a instituição “Cavalaria” irá fundamentar a sua acção no contexto da cristandade medieval. Alinhar o ofício de guerreiro a um fim espiritual e divino. Fazer de homens de armas, interiormente preparados, instrumentos conscientes da justiça divina, encarregues de restabelecer a ordem harmoniosa da criação, de assegurar a Paz, de combater as forças de divisão e caos, e proteger finalmente os elementos mais vulneráveis da natureza e da humanidade contra as evidências destrutivas.

Assim resumindo podemos concluir que a finalidade do ofício de cavaleiro é tripla. É social, porque assegura a manutenção da ordem na sociedade submetendo o poder público e as “forças armadas” a regras éticas e deontológicas estritas. É cósmica, porque reinsere este ofício das armas no contexto das forças cósmicas, onde se afrontam perpetuamente as trevas, a destruição, a divisão, a morte e o sofrimento face à Luz e edificação criadora, à vida e à unidade harmoniosa de todos os elementos da Criação. É finalmente espiritual, porque é defensora da Igreja, visível e invisível (Ler Loupoukhine “Quelques traits de l´Église intérieure), depositária da revelação divina e permitir ao cavaleiro através do seu sacro-ofício, de se santificar e atingir a perfeição e o conhecimento do Absoluto pela via heróica.

A Cavalaria sendo de matriz celeste deverá ter em conta o seu papel mediador entre a contemplação e a acção, entre o espiritual e o temporal. Objectiva a salvação das almas. Para além disso, o cavaleiro surge como guardião da palavra ou o Cavaleiro/Sacerdote aparece como o guia das almas, munido da Palavra de Deus.

De facto, a pretensão de integrar a Cavalaria define uma das suas funções mais importantes, ser Guardião dos peregrinos à Jerusalém Celeste, ou seja o Guia das Almas peregrinas. Assim, o cavaleiro sendo ele manifestação divina ou atributo divino terá de reger sempre as suas acções e submetê-las ao poder das leis divinas como se constatou no parágrafo anterior. É por isso que a Cavalaria deverá ser sempre sacerdotal. Deve existir portanto, um trabalho constante interior, assente numa iniciação forte e substancial, assente igualmente num objectivo de transformação e edificação do Templo interior, feito da pedra polida que construirá a fortaleza necessária face ao combate contra as trevas, nomeadamente, a ignorância, a crueldade, o egoísmo, a injustiça etc… E que esteja igualmente assente na defesa das almas peregrinas, na sua caminhada.

Assim, o cavaleiro, imagem do Cristo, será um mediador supremo. O seu serviço ao Rei dos reis, o Cristo, será consumado através do seu suplício e sacrifício (Sacro-ofício) na crucificação, em cumprimento da sua redenção perante o Universo, por excelência, entre o homem e Deus. Este mistério da vocação sacrificial, ou seja, sacerdotal, é o fundamento sagrado da Cavalaria. Tal como o Cristo, o cavaleiro na sua missão não decide sobre a continuação da sua vida, nem a devolução nem a hora em que se tem de devolver algo. A vontade de Deus assenta… para o cavaleiro em não se exigir quando morrer… Aspecto fundamental a meditar perante a possível entrada para uma Ordem de Cavalaria. Inseridos num contexto onde a sociedade moderna construída sobre bases de preguiça mental, onde tudo é adquirido instantaneamente e que nos leva a encararmos a cavalaria cristã como algo de distante e muito idealizada e figurada em modos “Hollywoodescos”, que se requer desconstrução de todos estes conceitos e inversão no discernimento a essa religação aos verdadeiros e essenciais ideais cavaleirescos.

Por fim, a Via da Cavalaria, assenta numa ligação estreita com o Cristo, que misticamente está imbuído no mistério do sangue real e do coração real, o do Santo Graal. Mas antes de atingir este grau de perfeição na identificação do homem a Deus, o percurso, supõe um longo e penoso ensinamento. Visa desenvolver faculdades correspondentes e fornecer as armas do combate espiritual ao cavaleiro. No entanto, o iniciado cavaleiro apesar da sua pertença “visível” em algum tipo de Ordem, detentora de ensinamentos reservados aos seus membros, haverá sempre algo que definirá a sua realização iniciática: A sua concordância e determinação sobre o caminho que envereda e principalmente a consciência da sua liberdade como Homem.

Olivier de Brito


Sobre o autor

Olivier de Brito

Olivier de Brito

Frequência universitária na licenciatura de estudos europeus na Faculdade de Letras da Universidade clássica de lisboa; Assistente administrativo no Centro Hospital Barreiro-Montijo;

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