Maçonaria Vias Iniciáticas

MELENCOLIA I, ALBRECHT DÜRER

MELENCOLIA I, ALBRECHT DÜRER

MELENCOLIA I, ALBRECHT DÜRER

 

“Melencolia I” ou Melancolia I é a única das três gravuras elaboradas por Albrecht DürerI que recebeu o título gravado na imagem. Foi produzida em 1514 durante o período de transição da idade Média para o Renascimento, marcado por diversas catástrofes tais como a peste negra, a revolta dos cem anos e revoltas populares, daí a influência Gótica na obra, que faz o apreciador mergulhar num misto de símbolos obscuros, negativos, sombrios, místicos, religiosos, num sentimento quase que apocalíptico, numa constante ligação entre a razão, a ciência, a matemática, a religião e a divindade – é uma interpretação sobre o espírito de um indivíduo criativo.

Durante o Renascimento, de acordo com a Teoria Humoral Hipocrática ou GalénicaII, acreditava-se que os traços da personalidade eram governados pelo equilíbrio dos quatro humores do corpo humano: o sangue, a fleuma (ou muco nasal), a bílis amarela e a atrabílis (ou bílis negra), respectivamente do coração, sistema respiratório, fígado e baço. A que nos interessa é a atrabílis, fria e seca, que segundo o predomínio natural corresponde ao estado fisiológico melancólico. As pessoas com excesso de atrabílis eram propensas à melancolia, um temperamento que associavam à criatividade.

Analisando o quadro, o anjo do lado direito que personifica a Melancolia, é entendido como uma mulher que representa a condição humana na sua impossibilidade de atingir a perfeição do conhecimento, da vida, da sabedoria divina e dos segredos da natureza. Esta senta-se pensativa, apoiando o seu rosto com o braço esquerdo sobre o joelho esquerdo, utiliza como adorno na cabeça uma coroa de louro e está rodeada por objectos que fazem alusão à criatividade.


PUBLICIDADE


Ainda na análise da mulher, Dürer refere em notas que as 5 chaves que pendem no cinto significam o poder e a bolsa significa a riqueza, isto é, indicam que a riqueza e o poder são inúteis para o artista criativo cujo temperamento melancólico o impede de criar.

A maioria dos objectos presente no quadro refere-se à geometria e ao seu poder de medir o espaço e o tempo: a balança (o equilíbrio/desequilíbrio, a ordem, o controle do peso); a ampulheta (a medida, controle, ordem do tempo); o compasso na mão direita da mulher (a ordem e o controle da medida; na Idade Média era comum esse instrumento aparecer nas mãos de uma mulher representando a geometria, mas também tinha como objectivo lembrar Deus, o Grande Geómetra, que media os céus e a terra com seu compasso divino); a escala por cima da ampulheta com os números VIIII, X, XI, XII; I, II, III, IIII; o sino com a corda pendente para a direita cujo desenvolvimento remete-nos para a parte esquerda do quadro – imaginação; a esfera (a perfeição num sólido completo); o poliedro e o quadrado mágico.

No chão repousa uma lamparina que pode simbolizar a luz do conhecimento e significar que o trabalho se estendeu até à noite, tal como indica a escala graduada; uma espécie de cântaro com ervas e um cão de aspecto faminto a repousar na posição de embrião.

Sentado ao lado da mulher encontra-se um pequeno anjo de ar inocente que olha para o vazio, alheio a tudo o que se passa, não transmite medo, está concentrado na sua actividade como se nada fosse acontecer. Tal como o cão faminto, o anjo carrega uma profunda tristeza quase natural.

É de notar que o chão está repleto de material para trabalhar a madeira: 4 pregos, um martelo, uma serra, uma plaina e um alicate turquês sob a túnica da mulher. Este material já foi utilizado na construção do escadote, pode verificar-se pelas sobras de madeira que estão no chão e tal como os materiais, estão bem afastadas do escadote (local de construção). O trabalho ainda poder ser completado, os pedaços de madeira que sobraram por associação com os pregos, poderiam originar mais uma trave ou degrau do escadote.

O escadote, símbolo da necessidade do homem de se elevar para ficar mais perto de Deus, lembrando ainda a Escada de JacobIII (Génesis, Cap. 28, Ver.11-19) que caracteriza o meio empregue pelos anjos para subir e descer do céu. A escada foi imaginada por Jacob num sonho e teria 7 degraus tal como na figura e cujos pés se apoiavam na Terra e o topo era tão alto que chegava aos céus; este escadote divide então a obra em duas partes:

– Do lado esquerdo (lado da Lua no quadro de Aprendiz) temos o mar no horizonte, uma ilha com diversas casas, barcos, um poliedro por entender, uma esfera e o ponto de luz divina (ponto de fuga do quadro que surge do lado do imaginário), a Lua que reflecte a luz do Sol, emoldurado por um arco-íris e um pequeno animal que se assemelha a um morcego com as asas abertas carregando o título da obra, ou seja, objectos para pensar e imaginários de um desejo.

– Do lado direito (lado do Sol no quadro de Aprendiz) temos tudo melancolicamente parado. A mulher, um anjo caído que perdeu a capacidade de voar, tem em seu poder todas as ferramentas para iniciar o trabalho. Sem saber o que fazer ela aguarda melancolicamente algo que desça ao seu imaginário. Se a mulher (a humanidade) entender saber o que fazer através da revelação do seu imaginário poderá construir mais um degrau na ascensão a Deus. Pode ainda ser a humanidade com vontade de renascer em Deus e assim as asas são apenas um vínculo ao divino, não se destinando a voar fisicamente mas sim espiritualmente. As asas são claramente uma libertação da Terra, do chão, do material, da locomoção física humana. Questiono-me se estas asas são um vestígio de uma divindade perdida ou prenúncios de um desejo humano em inspirar a mais alto…

Analisando numa perspectiva triangular, se traçarmos um segmento de recta através do ponto de fuga do quadro, outro pela face superior do poliedro e fecharmos, obtemos um triângulo equilátero – o Delta: com vértices no ponto de Luz (Deus, Grande Arquitecto do Universo), no Anjo (Homem) e no Poliedro (Matéria).

1º Triângulo

1º Triângulo

Um segundo triângulo pode ser formado se traçarmos um segmento de recta pela inclinação do compasso, outro através do ponto de fuga do quadro até ao martelo e fecharmos, com vértices no ponto de Luz (Deus, Grande Arquitecto do Universo), o Martelo (Vontade de materializar) e o Compasso (Imaginação, Espírito).

2º Triângulo

2º Triângulo

Um terceiro triângulo pode ser formado se traçarmos um segmento de recta pela inclinação do escadote, outro com o mesmo ângulo no lado oposto e fecharmos. É de salientar que dentro deste triângulo estão todas as ferramentas necessárias ao trabalho excepto o martelo que, tal como na Maçonaria significa a força criadora, a vontade de criar, que é o elemento que falta à mulher.  Faz-me lembrar a frase de Fernando Pessoa – ”Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”.

3º Triângulo

3º Triângulo

É de salientar que a linha média do quadro passa pelo prato esquerdo da balança que pode simbolizar um desequilíbrio entre a imaginação e a execução, a emoção e a razão.

Dürer procurou ainda incluir no quadro o simbolismo da simetria do corpo humano, a área total do círculo é idêntica à área total do quadrado – quadratura do círculo.

Numa perspectiva rectangular a obra de Dürer, tal como em várias obras de arte do Renascimento, utiliza a construção geométrica de um rectângulo de ouro. A obra tem 24.2 por 19.1 cm, menor do que uma folha de papel A4 (29.7 por 21 cm), produzido uma proporção igual a 1,267, o que é misteriosamente próxima da relação de comprimento de um lado do pentágono, é portanto um rectângulo de Wolfgang von Wersin’sIV com razão igual a , onde φ = 1.618 é a medida de ouro. A relação é bastante impressionante com uma diferença de apenas 0,4%.

Traçando um segmento de recta que passa pela face superior do poliedro dividimos a obra em dois rectângulos, dos quais o mais baixo é quase um quadrado e assim sucessivamente, lembrando por isso a construção e um rectângulo de ouro.

Rectângulo de Ouro

Rectângulo de Ouro

Quanto ao poliedro, a maioria dos pesquisadores indica que Dürer tentou representar um romboedro truncado, ou seja, um sólido geométrico produzido por seis faces rômbicas com dois cantos opostos cortados. Aqui o simbolismo do número 5 está presente nas faces pentagonais (5 lados), nos 5 pregos de apoio do cabo do martelo e nas 5 chaves. Este número pode ser utilizado como algoritmo matemático para calcular o número de ouro φ = 1.618, ou seja,  .

Mais uma vez, de acordo com a perspectiva da obra, os ângulos são entre os 72 e os 100 graus, ligando assim o poliedro à relação φ dourada.

Atrás da figura dominante da mulher, está a parede de um edifício, evidentemente paralelo ao plano da imagem. A parte superior da parede e as linhas da mochetaV proporcionam um conjunto de linhas que são perpendiculares ao plano de imagem e que convergem para um ponto sobre o horizonte e está localizado exactamente abaixo da letra C do corpo do morcego.

Ponto de convergência

Ponto de convergência

No canto superior direito está o tão famoso quadrado mágico de Dürer. Trata-se de um quadrado mágico de 4 x 4 (da Astrologia é a forma de Júpiter) com os números de 1 a 16 orientados de forma semelhante ao esquadro e compasso, ferramentas tão importantes para a Maçonaria ou mesmo a estrela de Salomão, onde dois triângulos se cruzam: um ascendente e outro descendente. As 6 pontas criadas pela sobreposição dos dois triângulos, mais o ponto central somam o 7 místico, simbolizando a união do Céu e da Terra, do Bem e do Mal, do Divino e do Humano.

Disposição dos números pelo quadrados

Disposição dos números pelo quadrados

O quadrado mágico acompanhado pela esfera, pelo compasso e pelo poliedro, reflectem a insistência de Pitágoras sobre a importância do número e da forma no cosmo.

Em termos matemáticos um quadrado perfeito pede apenas que da soma das verticais, das horizontais e das diagonais resulte o mesmo número, mas o quadrado de Dürer é mais que mágico e perfeito, é genial! Existem diversas combinações de somas para formar o número chave – 34.

Combinações das somas para formar o número 34

Combinações das somas para formar o número 34

Dürer conseguiu organizar os números dentro do quadrado de forma simplesmente genial, se não vejamos, a data 1514, ano em que Dürer desenhou a gravura e que aparece nos dois números centrais da base do quadrado mágico, é também o ano em que Albrecht Dürer fez 43 anos, que invertido dá o número 34. Mais, nos vértices inferiores do quadrado, os números 1 e 4, convertidos respectivamente na letra A e D (letra número 1 e 4 do alfabeto comum), representam o nome do artista. O simbolismo numérico não fica por aqui, a soma de todos os números do quadrado mágico é o número 136, que é também a soma do valor das letras das palavras Albrecht Dürer e “Melencolia” Eins (número 1 em Alemão).

A+L+B+R+E+C+H+T + D+Ü+R+E+R                          (1+12+2+18+5+3+8+20) + (4+22+18+5+18)=136

M+E+L+E+N+C+O+L+I+A + E+I+N+S                      (13+5+12+5+14+3+15+12+9+1) + (5+9+14+19)=136

Bruno Alexandre S.D.R. Judas

Sobre o autor

Bruno Alexandre S.D.R. Judas

Bruno Alexandre S.D.R. Judas

1 Comentário

  • Gostei muito de sua análise. Gostaria de saber se tem alguma biografia para indicar que diga respeito a esse quadro em particular. Obrigado.

Deixe um comentário