Templarismo Vias Iniciáticas

A Missão Templária na origem de Portugal

Eduardo Amarante
Escrito por Eduardo Amarante

Sobejam signos, símbolos e sinais que indiciam existir alguma razão misteriosa na fundação de Portugal como nação. Portugal foi incumbido, desde o seu nascimento, no século XII, de desempenhar uma missão. Antes da nacionalidade, o povo lusitano era herdeiro de um passado muito rico em termos de tradições que, presentemente, nós tentamos recuperar, entender e respeitar. A própria palavra Lusitânia já nos dá uma pista. Está relacionada com a divindade celta Lug que significa, precisamente, lobo e luz, ou seja, aquele que é portador da luz. Assim, por analogia e também do ponto de vista etimológico, Lusitânia poderia ser a Luz-Citânia, a cidade ou País da Luz, sem deixar de ser, a um nível mais oculto, a Luz dos Titãs. A divindade principal da Lusitânia era Endovélico, posteriormente cristianizado na figura do Arcanjo São Miguel e também de São Jorge.

1. O nome de Portugal

Avançando no tempo, encontramos a palavra Portugal formada, segundo a etimologia oficial, de Portus e Cale, ou seja, a junção dos nomes das cidades do Porto e de Gaia. Ainda que esta hipótese seja plausível, um filósofo não se fica por aí e levanta algumas interrogações. Primeiro, porque é que o Porto se chama Porto? Tem de ser porto de alguma coisa, um lugar de desembarque, um lugar de chegada ou de partida. Gaia tem a ver com a deusa Gaia, a deusa Terra. À volta da cidade do Porto encontramos uma série de referências reveladoras de toda uma simbologia, de que é profundo conhecedor o Prof. Moisés Espírito Santo, especialista nas etimologias toponímicas. Encontramos, por exemplo, a cidade da Maia, ou Ermesinde, relacionada com Hermes e outras localidades com nomes significativos. Também há quem defenda que Portugal seria o porto do Graal. É possível, embora o Graal esteja miticamente em vários lugares, não havendo nenhuma terra que o tenha em exclusividade. O Graal não é uma coisa física. Da mesma forma que existem diferentes centros ou umbigos do Mundo, também poderá haver diferentes lugares onde, segundo a tradição local, habita o Graal. Contudo, o nome Portugal, como já o referimos, também pode provir de Portas da Gália, aquilo que dá acesso à Gália. Esta hipótese não deixa de ser interessante, visto o emblema da Gália ser o galo. Ora o símbolo mais conhecido de Portugal é o Galo (de Barcelos), associado à divindade Mercúrio. De novo encontramos referência a Lug, isto é, aquele que indica o lugar, os lugares. Nas nossas igrejas antigas deparamos, no alto do campanário, com o galo que é o símbolo do renascimento. Todo aquele que entra no Templo vai, de certa forma, renascer em espírito e, por isso mesmo, os templos estavam sempre orientados, virados para Oriente. Assim, aquele que entrava no Templo caminhava no sentido do Oriente.

Os templários eram membros da Ordem do Templo, assim chamada porque foi fundada, precisamente, no Templo de Salomão. Mas, mais importante do que o seu lado físico era tudo aquilo que ele representava e de que era símbolo.

Os cavaleiros templários, quando surgiram no Ocidente, vieram incumbidos de uma missão de cariz espiritual – o que implica esse tal renascimento – e eram portadores de uma grande humildade de coração. O tão conhecido selo templário indica sigilo, mas também indica voto de pobreza e de humildade. Os dois cavaleiros numa só montada representam o duplo trabalho ou a dupla função da Ordem, que estava destinada a ter uma missão externa ou exotérica e uma outra missão de carácter interno ou esotérico. Como sabemos, os templários nasceram em Jerusalém e o seu grande impulsionador foi esse extraordinário místico e político – talvez o homem mais excepcional do século XII – chamado São Bernardo de Claraval.


PUBLICIDADE


Um pouco antes de Portugal ter nascido já os cavaleiros do Templo estavam no território, porque o primeiro castelo que tiveram no nosso país – o Castelo de Soure – foi-lhes doado por Dona Teresa, mãe de D. Afonso Henriques. Os templários, como monges-guerreiros que eram, cultivavam o espírito e preservavam a tradição, mas também eram profundos conhecedores de estratégia militar, criando assim toda uma cintura defensiva, cujo centro foi, a partir de 1160, o Castelo de Tomar. Todavia, antes da sua fundação, este já era considerado um lugar sagrado. No fundo, os templários retomaram toda uma trajectória ou geografia sagrada, completando o célebre caminho sagrado de Santiago, fazendo a ligação entre Santiago de Compostela e Tomar, que um século mais tarde a rainha Santa Isabel, esposa do Rei D. Dinis, compreendeu e materializou no Culto do Espírito Santo. Ainda hoje, qualquer pessoa sensível e sem stress – porque o stress cria um “tampão” à sua própria sensibilidade interior – que se desloque a esse triângulo mágico ou sagrado cujo epicentro é Tomar, não pode ficar indiferente à força e à atmosfera que daí irradiam. Aí encontra-se a famosa Charola, réplica octogonal do Templo de Salomão. À volta da Charola abre-se toda uma geografia sagrada com sinais reveladores da mística e dos objectivos da Ordem dos Templários.
temp3O alinhamento da Charola com um dos ângulos do castelo indica-nos a estrela Arthus da constelação do Boieiro. É intrigante esta associação astrológica, iniciática, entre o Céu e a Terra e vice-versa. De qualquer modo, para o estudioso da matéria, a analogia imediata é com o Rei Artur e a mística espada Excalibur. Todavia, várias são as chaves simbólicas para a interpretação do mito do Rei Artur e/ou Arthus.

Verifica-se que o primitivo Castelo Templário de Tomar foi construído à imagem da Constelação do Boieiro. É de notar que a estrela principal desta constelação é “Arcturo”. A partir do centro da Charola o castelo funciona como um observatório astronómico.

As fases alquímicas e o mercúrio filosófico também estão presentes no Convento de Cristo, assim como o medalhão bem visível de Hermes Trismegisto, representando o mercúrio filosófico nas suas três fases. Outro sinal intrigante é um São Cristóvão pintado numa das paredes interiores da Charola, com cabeça de cão, à semelhança do deus egípcio Anubis, divindade psicopômpica ou de passagem e de ligação entre duas dimensões, dois estados de consciência. É equivalente ao deus lusitano Endovélico, a Lug e a Hermes. Outro sinal deveras significativo num dos claustros do Convento de Cristo é uma mão esculpida com um dedo exagerada e intencionalmente comprido como que a indicar-nos o caminho. Outro símbolo que encontramos no Castelo de Tomar é o machado duplo, tal como havia em Creta e idêntico aos machadinhos místicos dos essénios no tempo de Jesus. Ora, vamos precisamente encontrar essa dupla faceta – orar e laborar – no Rei D. Dinis como poeta e lavrador, que se reflectiria na dupla missão que lhe coube: semear no campo físico e no campo metafísico. Outro símbolo é o do navegador esculpido da famosa janela manuelina: o seu olhar é um olhar interiorizado, místico, é um olhar que olha em parte alguma e que, por isso mesmo, alcança tudo e todos sem excluir ninguém. Trata-se de um marinheiro iniciado, formado nas escolas da Ordem de Cristo e incumbido de uma missão de índole espiritual. Essa missão já dera origem a Portugal, mas ainda não está cumprida totalmente. Algo se põe em movimento, em forma de espiral, que nos faz recordar as ondas do mar, ou seja, as ondas que habitam esses homens, que agitam as suas almas e que, ao exteriorizar-se, se completam e concretizam no mar.

temp4Hermes Trismegisto. Medalhão em abóbada ogival no Convento de Cristo, em Tomar. Este sábio mítico do Antigo Egipto está ligado ao conhecimento esotérico universal.

2. Tomar, (lug)ar genésico da missão do Templo

Em Tomar – segunda província templária do mundo, logo a seguir a Gisors, na França – os cavaleiros templários criaram o epicentro de uma missão que iria ser desenvolvida posteriormente e à qual houve quem chamasse o V Império. Mas, quem é que fundou Tomar? Foi Gualdim Pais. O facto curioso é que, antes da fundação de Tomar, S. Bernardo deslocou-se a Portugal para fundar o Mosteiro de Alcobaça, situado na região. Dentro do seu género é o mais importante que existe em todo o mundo. É uma réplica da casa-mãe, o Mosteiro de Claraval, actualmente em ruínas. Alcobaça albergava uma das mais importantes bibliotecas da Europa. Naquela época, uma biblioteca era muito mais do que um centro de consulta de livros; era, fundamentalmente, um lugar de estudo e de investigação científica, precursor das universidades. Os monges e os monges-guerreiros tiveram, assim, acesso a milhares de manuscritos, numa época em que esses eram raros e, na maioria dos casos, censurados. Estes dados são importantes para se compreender que a missão templária teve um fortíssimo suporte místico-cultural desde o seu início.

Embora não existam provas conclusivas, há boas probabilidades de que Gualdim Pais fosse filho bastardo do fundador da Ordem do Templo, Hugues de Payns. Segundo alguns historiadores, Pais seria uma contracção de Payns. Ao suprir o M fica Pais. O fundador da cidade e do castelo de Tomar foi e ainda é, por alguma razão, considerado o mais importante mestre templário lusitano, provavelmente um iniciado da Ordem e muito amigo do nosso primeiro Rei.

Por outro lado sabemos que D. Afonso Henriques, que para ser Rei passou por um conjunto de situações muito complexas, sendo ao mesmo tempo diplomata, estratega, político e grande guerreiro, foi transformado quase num mito. Da mesma forma que a fundação de Roma se baseou num mito – as doze águias que apareceram no acto da fundação foram interpretadas pelos áugures como o sinal de que o Império Romano iria durar doze séculos – também D. Afonso Henriques teve diferentes sinais, sendo o mais significativo o de OURIQUE, em que numa visão Cristo lhe apareceu com as cinco chagas. Estas, sob a forma de cinco quinas deram origem ao escudo de Portugal e estão directamente relacionadas com o quincôncio e o quinto elemento, ou elemento espiritual e, para alguns, com o V Império. Já havia um mito de fundação e, a partir desse momento, a missão podia começar a tomar forma. D. Dinis surgiu como produto de algo que estava a ser materializado. Mandou plantar o pinhal de Leiria que iria dar a matéria-prima para as futuras caravelas que sulcariam os mares e fundou a Universidade de Coimbra, uma das primeiras universidades europeias. Sua esposa, a Rainha Santa Isabel, instituiu o culto da Pomba, o culto do Espírito Santo – ainda hoje celebrado, nomeadamente na Festa dos Tabuleiros -, recuperando uma tradição muito antiga num lugar particularmente místico como Tomar e dando-lhe uma forma que condizia com o projecto que se estava a realizar.

D. Dinis, o rei Lavrador, portador do machado duplo (símbolo do trabalho físico, externo, e do trabalho espiritual, interno), ou seja, da dupla missão que tinham os templários, representada no seu selo com os dois cavaleiros na mesma montada, salvou-os do cerco que lhe moveu o cobiçoso e invejoso Rei de França, Filipe, o Belo. No momento da infame perseguição de que foram alvo na Gália e logo depois em toda a Europa, à excepção do Reino de Aragão e de Portugal, D. Dinis salvaguardou os cavaleiros templários portugueses e, a fim de evitar conflitos com a Santa Sé, transformou habilmente a Ordem do Templo em Ordem de Cristo. De acordo com Rainer Daehnhardt, a cruz de Cristo era já o emblema da secção portuguesa da Ordem do Templo e, por conseguinte, D. Dinis limitou-se astuciosamente a utilizar a cruz já existente da secção do Templo em Portugal. Por outras palavras: a Ordem do Templo não foi extinta em Portugal, pois sobreviveu e pôde assim prosseguir a sua missão, desde 1319, mas mudando o nome para Ordem de Cristo.

Mais tarde emerge a figura do Infante D. Henrique, um grande sonhador, mas, também, um grande empreendedor. Soube sonhar e soube concretizar, entendendo que seriam necessárias ambas as coisas para levar a missão a bom porto. Rodeou-se de uma elite altamente capacitada para empreender o projecto com a marca templária. A obra iniciada de forma visível pelo Infante D. Henrique não seria possível sem todos os seus antecessores. Esse processo implicava, por um lado, pôr em prática todo o conhecimento que até então se desconhecia e que estava na posse da Ordem do Templo e, por outro lado, preparar todos os intervenientes para esse conhecimento. Da Escola de Sagres e de Tomar – as reuniões mais importantes da Ordem de Cristo, de que D. Henrique era Grão-Mestre, realizaram-se precisamente em Tomar – saíram para a grande epopeia marítima homens altamente preparados do ponto de vista moral e espiritual. A missão de que estavam incumbidos não era conquistar o mundo, mas levar a sabedoria antiga, os valores de ordem espiritual, a união e a concórdia através do globo. Acreditaram que era possível unir a humanidade através de algo superior que estivesse acima das diferenças entre as pessoas e as raças e do respeito pelos costumes e modos de ser de cada um. Para que tal fosse possível, o mínimo excesso revelador de cobiça ou de intolerância por parte dos marinheiros lusos era severamente reprimido. D. João II, D. Manuel I, Afonso de Albuquerque, Vasco da Gama… eram implacáveis nos castigos que aplicavam aos seus marinheiros quando estes empregavam a força gratuita ou se desviavam do destino de que haviam sido incumbidos.

A missão templária foi um ensaio, uma amostra para as gerações futuras, daquilo que podia e devia ser feito quando chegasse a hora. Na realidade, foi uma espécie de laboratório que existiu na Idade Média, já que era impossível concluir a missão naquele momento histórico, se bem que D. João II e D. Manuel I bem o tentassem. No entanto, deram a indicação do rumo e da forma como devia ser feita.

Eduardo Amarante

Fotografia por Paulo Pereira – http://olhares.sapo.pt/ppereira.j/

Sobre o autor

Eduardo Amarante

Eduardo Amarante

Eduardo Amarante nasceu no Porto em 1953. É autor de dezenas de livros e de artigos cuja temática versa sobre a História em geral, a Simbologia e os Cultos e Tradições de Portugal. O seu objectivo é levar ao conhecimento público as motivações profundas e essenciais que caracterizam o modus vivendi do povo português. Dentro deste âmbito, desde o ano de 1979, ano em que fundou a Nova Acrópole em Portugal, na cidade do Porto, e em Lisboa em 1982, proferiu centenas de conferências, palestras e lançamentos editoriais, vários colóquios e seminários, para além de ter leccionado cursos na área da Filosofia do Ocidente e do Oriente, Psicologia, Simbologia, Oratória, Relações Humanas e ter realizado visitas e rallys culturais, jantares tertúlia, etc. Durante 18 anos dirigiu a Nova Acrópole e, anos mais tarde, fundou e dirigiu as Edições Nova Acrópole. Em 1997 demitiu-se de todos os cargos fundando então as Publicações Quipu até ao ano de 2004. Actualmente é director editorial da Apeiron Edições..

1 Comentário

  • Sr. Eduardo Amarante\r\nLi o seu artigo. Lhe parabenizo pela explanação sobre o tema. Didático, numa sequência espetacular, de fácil assimilação. O encontrei através do site CASTELOS DE PORTUGAL. Vou tentar encontrar os seus livros no Brasil pois o assunto e a época sobre o qual escreves muito me interessam. Estive em TOMAR na Festa dos Tabuleiros com minha esposa durante 18 dias, ela pesquisa sobre o culto ao Divino Espírito Santo. Creio que é assunto também de suas pesquisas.\r\nAtenciosamente\r\n.’. Flavio Freire

Deixe um comentário