Ciências Antigas Tarot

NIGREDO. Experiências fora da densidade corpórea

Mário Portela
Escrito por Mário Portela

A luz é um fogo eléctrico posto pela natureza ao serviço da vontade: ela alumia os que sabem empregá-la e queima os que abusam. O império do mundo é o império da luz.” – Eliphas Levi

Naquela noite, saí da minha densidade física como era já habitual nas minhas práticas de oficina iniciática.

Convidei a presença do Abade na minha fortaleza cristalina e encontrei-o de súbito, sentado na habitual poltrona onde já perdemos eternidades de conversa… ou teríamos ganho?

O aspecto cortês do abade sempre me incomodou, em especial porque era dado comum que a sua presença lhe era imposta.


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Peço-vos hoje o maior dos serviços. Quero hoje a maior das lições. – Vi que o abade nem pestanejou, nem reagiu e isso irritou-me dada a seriedade do meu pedido.

A energia é bilateral Nigredo. Tudo o que recebemos exige um pagamento… eu sei o que procuras. Porém, antes, quero que me tragas a resposta à seguinte pergunta: O que há de mais monstruoso sobre a Terra? – retorquiu sem pestanejar.

Não era assim que as coisas funcionavam e até aqui o abade nunca me tinha exigido nada… ou teria? Antes de o abade aparecer na minha oficina sentia-me sempre revigorado e preparado para retomar a forma física com bestialidade. Agora… nem tanto!

O problema proposto pelo mestre sem tempo transformou-se a princípio num desafio interessante, mas lentamente carcomeu-me até aos ossos.

Existem tantas coisas monstruosas no mundo!

É expressão comum nos lábios de muitos que a espécie humana hoje, com todas as suas enfermidades e aberrações, chafurda às cegas num terrível pântano cheio de monstros, maledicência e maldade. Como o mensageiro da morte, munido de tentáculos de destruição, este pântano colhe a espécie humana com crescente firmeza para seu seio, ainda que com grande subtileza e pela calada. O nome do pântano é civilização, socialização… o que nos injectam pútrido para que lentamente ganhemos uma gangrena mental da qual não conseguimos sair.

Andei por todo o lado, viajei locais, li livros, observei pessoas e até lia notícias. A cada vez que encontrava algo verdadeiramente monstruoso… de repente, surgia algo pior!

Rastejar na lama social, procurar o mal, identificar a corja. Uma sociedade putrefacta, disforme, baseada no medo, na exploração, na lei do mais forte. O negrume dos que receiam a mudança, a advocacia mefistofélica em terras de malkuth.

Notei nessa altura que estava numa espécie de barco que, lentamente, se afunda em direcção às águas gélidas das más escolhas e da depressão.

A sociedade é a besta bíblica apocalíptica e nem me ajuda a conseguir descobrir o que é mais monstruoso, porque sempre que levantava uma pedra da lama imunda, larvas maiores se apresentavam…

Perdido num sorriso de uma criança, na esperança de um fugaz alívio de tanta podridão… de súbito um raio de luz iluminou-me o olhar, a mente. Foi como uma descarga eléctrica ou o raio que atinge a Torre tarosófica. Como podia eu compreender o que há de mais monstruoso se a cada tentativa o Diabo tarosófico me tentava ainda mais, escravizando cada pensamento e cada conclusão aos seus próprios caprichos de fel.

Tudo no universo, no prana que me cerca e até na ilusão em que vivemos tem de obedecer à Lei das Analogias dos Contrários. Se procurar o que há de mais monstruoso me tolda a vida, o avanço e me faz apodrecer por contágio, tenho apenas de procurar o que há de mais grandioso nesta existência. Tenho apenas de beber o que há de melhor do que me cerca e aí perceberei que o antípoda da coisa mais grandiosa que existe sobre a dolorosa face deste mundo em aflição será, então, a verdadeira caverna das caveiras, o Golgóta das amarguras… e terei a resposta para o abade!

Ainda sem tirar o olhar do sorriso daquela criança, que pareceu durar por uma eternidade, também eu esbocei um sorriso. Quase que me doeu fisicamente fazê-lo… o corpo havia esquecido que músculos mexer e estavam a atrofiar na imundície que empestava o meu pensamento.

Sorri… sorri bem! Sorri forte! E enquanto experimentava um calor no peito, que já quase havia renegado, exclamei num bramido:

É o AMOR, o amor é a mais preciosa e grandiosa das dádivas!

Se os que me rodeavam acharam estranho, nada foi, comparado com a experiência que se me ocorreu naquele instante.

Como a Estrela se apresenta ante a torre caída. Do nada, vindo talvez do fundo do meu âmago eu consegui ouvir:

– Muito bem, eis que de nigredo te tornas albedo!

(continua…)

 

Pseudónimo de Autor: Aleph

 

Esta crónica «Experiências fora da densidade corpórea» foi publicada na Edição 2 da Revista VIMANA e continuada em edições seguintes. Leia mais em TAROSOFIA.COM

(link: http://tarosofia.com/revista-vimana/ )

Sobre o autor

Mário Portela

Mário Portela

Ligado desde muito cedo ao estudo esotérico e exotérico interligou essa faceta com a Psicologia e outras áreas mais convencionais como a PNL e a Homeopatia Floral. É Guia Kármico, prânico, tarosófico e cristaloterapeuta

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