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O Amor e o Medo

O Amor e o Medo
Margarida Branco
Escrito por Margarida Branco

Dois sentimentos governam fundamentalmente o mundo: O Amor e o medo. Aquele é expansivo, construtivo, gerador de paz e realização. Em contrapartida, o medo origina a destruição, o sofrimento e a guerra.

Nas zonas profundas do nosso ser reside a energia amorosa, que não aflora quando nos encontramos receosos, reticentes em relação à vida e defensivos nas nossas carapaças egocêntricas.

O amor expande o Ser, o medo constrange-o e não o deixa crescer. Aquela expansão permite a inclusão e a união de tudo e todos, enquanto a reclusão trazida pelo medo provoca a rejeição dos elementos alheios, por serem considerados ameaças à pretendida preservação da realidade própria, que se imagina precária e facilmente destrutível por agentes exteriores. Aqui a insegurança, trazida pelo medo, e característica de uma personalidade em fase incipiente de crescimento, origina estas ilusões e fantasmas, e as relações da pessoa consigo própria e com os outros é pautada pela carência de liberdade e por formas diversas de controlo das situações e das pessoas envolvidas.

O vazio existencial que revela o medo terá de ser preenchido mediante as manipulações de terceiros, onde são projectados os desejos e as carências não resolvidos, exigindo-se do outro a sua satisfação, o que provoca conflitos e desencontros.


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Com o medo, envolvemo-nos e envolvemos. Com o amor desenvolvemos e desenvolvemo-nos.

O medo origina o apego às pessoas e às situações, ficando-se preso e dependente, sem espaço para a liberdade, que também não se permite aos outros, isto é cria-se envolvimento. Os afectos são exigentes, caprichosos, egocêntricos e apaixonados. A ideia de posse é condição necessária para que as ligações se estabeleçam e ama-se sob condição de que o ser amado pertença a quem ama. Se não se corresponde a essa exigência, o ódio pode tomar o lugar do amor antes sentido, porque a frustração da expectativa originalmente criada e o medo de ficar sem o afecto do outro, origina aquele nefasto sentimento.

A personalidade insegura confunde, assim, o apego com amor, não percebendo que quem verdadeiramente ama, não estabelece condições, permitindo a livre expressão do ser amado, aceitando-o e integrando em si, com enriquecimento pessoal, o acervo de diferenças que esse outro revela. Desta forma se promove o desenvolvimento dos seres em relação, que em liberdade podem assumir-se e por isso crescer como pessoas.

A compreensão e a tolerância permite a interacção entre as partes, em clima de harmonia, e a união, apanágio da ideia de amor, estabelece-se.

Pelo contrário, há ausência de amor quando o julgamento e a crítica, decorrentes do medo, passam a ser instrumentos inevitáveis para quem quer os outros à sua maneira e não os deixa ser conforme são.

Que outra coisa haverá senão manipulação e controlo, quando nas relações inter-humanas prevalece a intolerância e a rejeição, que equivale a uma inaceitação da diferença, pretendendo-se que os outros sejam conforme queremos, para nos sentirmos seguros no nosso instável e amedrontado ego?

Cindidos, percepcionamos a separação entre nós e quem nos rodeia, o que nos torna temerosos, procurando a sobrevivência através de uma atitude defensiva, imaginando perigos e decepções, que terão de ser precavidos para que o processo de identidade se faça sem riscos. Julgamos então que a definição pessoal se fará através da rejeição do outro, que se afigura diferente e por isso ameaçador da realidade que se quer preservar.

A repressão – originada pelo medo – afigura-se como a forma desejável para que o controlo se faça, quer a nível individual, quer colectivo e as estruturas familiares, educativas, religiosas e políticas revelam essa tendência na sua actuação, prevalecendo a ideia de desigualdade nas relações pessoais, assentes numa estrutura hierárquica e autoritária e, por isso, constrangedora. O indivíduo é preterido em favor da estrutura, que se orienta por normas que visam garantir a preservação do conjunto, mesmo que à custa da liberdade individual, a qual se afigura como perigosa e desestabilizadora. O controlo das pessoas com vista a esse objectivo assenta no medo repressor que constrange as pessoas. O sentimento de culpa é cultivado, como forma de subjugação às leis impostas e às ideias feitas e verdades pré-estabelecidas, que substituem o entendimento individual e a compreensão assumida das coisas, que qualquer ser autónomo e livre exige para que possa intervir na vida de forma responsável e feliz. A submissão e a crença são preferidas ao esclarecimento inteligente e à adesão interior. O que preside aos comportamentos humanos é mais o medo de praticar o mal e de errar do que o desejo livremente consentido de fazer o bem O receio inculcado redunda facilmente em violência, expressão desesperada de quem se sente de qualquer forma ameaçado e reage em defesa.

Se o medo, como emoção que alerta para a prevenção de perigos, é útil no nosso quotidiano, dentro de limites razoáveis, como manifestação do instinto de auto-preservação, quando ele bloqueia os nossos anseios de realização pessoal e de união com os outros terá de ser erradicado através da presença do amor. Então, cairão as máscaras que nos escondem de nós próprios e dos demais, e não ficaremos dependentes da aprovação alheia, que gera a obsessão pela imagem, característica de quem não se encontrou a si próprio. Nesta fase, o ser humano vive preocupado com o que dele pensam e comporta-se de forma a agradar aos outros, mesmo que vivendo de aparências. Sujeito às convenções sociais, pensa pouco por si próprio, preferindo antes acreditar naquilo que o meio envolvente considera importante, por incapacidade de reflexão e receio de discordar, em resultado da sua pouca auto-estima, sinal do medo e da insegurança em que se encontra. Em vez de pensar é pensado, passando a acreditar ser aquilo que os outros dizem que ele é. Quando finalmente se assume, por coerência interior, o indivíduo liberta-se da sujeição amedrontada à opinião alheia – imposta pelo medo -, podendo então fazer uma intervenção consciente e personalizada no ambiente em que vive e estabelecer real contacto com os outros, em paz, já que a violência, como expressão do medo, não pautará mais as relações humanas.

Em suma, importa conhecermo-nos, para desmontarmos as razões dos nossos medos e bloqueios, o que equivale a amar-se a si, aos outros e à vida em geral. A auto-estima encontrada trará a segurança pessoal, que é a antítese do medo e que libertará o indivíduo e, por extensão, todos com quem ele se relacionar, das amarras em que se encontrava.

Margarida Carvalho e Branco

In “A VIDA ESCUTA-SE COM A ALMA”

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Margarida Branco

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