Filosofia Mundividências

O corpo ‘Espírito’. Improviso dialéctico-literário

Escrito por Luís Coelho

Somos um corpo, somos a consciência do nosso corpo, somos a relação que o corpo estabelece com a correnteza de outros corpos, com a alteridade elevada ao grau de uma Civilização egomaníaca. O Espírito é o corpo vencido pelo pudor, é a vergonha da Identidade conformada ao jogo inalienavelmente selectivo, cruamente competitivo, é a insubmissão à mortalidade, ao atrito que o tempo amolda à (des)estrutura, à entropia que a dialéctica submete ao Ego outrora (visto como) inquebrantável. O Espírito é o “Eu” potencializado, imortalizado, elevado ao expoente Divino, pelo pequeno grande ser, pelo carisma do Sábio, pela Instituição dos Valores a querer gorar a possibilidade do seu próprio eclipse. O Espírito é o etéreo recalcamento do que pretende sobrepor a matéria prima e subtil à substância grosseira e arenosa, é a justaposição da qualidade mental à inqualidade física, a aposição do Sentimento, da Consciência e do Valor à rudeza de um corpo vicioso, por demais assustador, capaz de toldar o juízo, de fenecer a decisão racionalizada. O corpo assusta, implica-nos nas trevas familiares, palco em que o inesperado se possibilita, em que o controle é gorado pela ordem da submersão. O Espírito potencializa a efemerização desse palco telúrico, a consubstanciação da Forma subtil, imensurável, eternizada ou quase eternizada por uma corrente transmigratória, com esta a querer ser igualmente vencida e transtornada pelo retorno ao Espírito puro, Uno, inefável e incognoscível. O Espírito alivia a carga dialéctica, como se, de algum modo, a dinâmica inerente à dualidade, com o inacabável das suas turbulências, passasse por excrescência indigesta, inútil ao objecto meditativo, focalizador, diluidor das oscilações da materialidade dinâmica. Ele é a esperança de uma vida despojada de Sentido, Ele é o embalo de uma existência dissolvida no lamento, Ele é a promessa de uma Utopia, Paraíso inalcançável na Terra (e, na verdade, em qualquer outro sítio), Unificação repleta de prazeres eternizados, infelizmente não percepcionados como outra efeméride… O Espírito equilibra, aproxima, dilui as condições, as desigualdades epigenéticas, as próprias distensões culturais; põe tudo em COMUNicação, aproxima e simboliza o que parece insintetizável.

Não é por demais de espantar que assumir que o Espírito é uma construção feita à imagem do corpo, do Inconsciente Colectivo (tornado Consciência Colectiva), acabe por mover tamanhas resistências. E também não é de espantar que exista tamanha oposição face à ideia de que os Valores são construções humanas, projecções psico-teo-maníacas. Retirar ao Homem a sua própria Ilusão de um Sentido pode ter efeitos devastadores. Frustrar ao Homem a sua própria Eternidade, pode também doer muito. Até porque milénios de condicionamento religioso, incluindo a prisão cartesiana, terão enformado uma civilização fortemente arreigada pela Ideia de uma Moral categórica, axial, Universal. Contam-se pelos dedos os filósofos que aceitam a verdade do relativismo radical. E mesmo estes reconhecem o perigo, senão a Culpa, de tal aceitação. Não admira que o próprio objecto corpóreo mova tais energias repressivas, tal intento castrador, culpabilizador. O nosso “complexo de castração” tem milénios de idade, tal como o complexo dos que nos educaram e socializaram. É o mesmo tipo de complexo que urge limitar o nosso movimento de aceitação da verdade de que toda a Ética é corporeamente baseada, materialmente condicionada. Curiosamente lá chega o dia em que nos perguntamos: a Ética é o corpo, e daí? Significará isto que passarei a ser menos ético, um portento de imoralidade? Podemos saber tudo sobre a fisiologia do aparelho cognitivo-moral sem que isso tenha qualquer tipo de implicação no nosso comportamento. Recusar a Verdade, isso sim, parece-me pouco “espiritual”. Isto assumindo mais uma vez que a Espiritualidade tem menos a ver com o Uno hipermoral do que com o Uno Epistémico…

O corpo, as suas sensações, a sua dinâmica, os seus fantasmas, os seus símbolos, a sua linguagem, a sua intencionalidade, tudo isto é Corpo físico, e tudo isto é, ainda assim, Espírito, não entendido como tal por muitas construções espirituais que, mesmo assumindo-se muitas vezes como monistas, continuam, na prática, a reificar a solução de continuidade Corpo vs. Espírito. Por vezes, o radicalismo “espiritualista” ganha contornos de dogmatismo, em que os supostos “iluminados”, de tanto quererem ver “Luz”, acabam por divisar apenas a imagem da sua própria Ilusão. Ignoram estes “iluminados” que, ao seguirem acriticamente as pistas que um certo Cânone terá (re)criado, acabam por ser o que menos tem a ver com seres tocados pela “Luz”, porque a qualidade “luciferina” não é algo que possa surgir de forma mediada, e é também por isso que a maioria das religiões e das mestrias espirituais mais aprisiona os seres num processo PATERnalístico, do que os torna auto-conscientes, espiritual e filosoficamente auto-suficientes. Pessoalmente não sei por quem destilo maior aversão: se é pelos seres que estão presos à Idade dos Deuses, se é pelos que se deixaram apresar pelos Deuses da modernidade tecnocrática. E lembremos que, só para mais uma vez antevermos como tudo isto é “humano, demasiado humano”, há características em comum entre os prisioneiros das duas Idades da ilusão (Pater e Mater): a falta de autonomia reflexiva, a auto-ilusão de Conhecimento e Liberdade, o défice de “desilusão” face à Verdade de que “tudo é Relativo” e de que “todo o conhecimento é auto-conhecimento” (e, convenha-se, todo o “auto-conhecimento” é a prisão que o próprio ‘Eu’ conforma ao mesmo ‘Eu’), a meritocracia evolutiva, a ambição pelo desenvolvimento (e por que não ambicionar somente Ser, sem querer ser mais do que o Ser, seja lá o que “Ser” for, e ignorando que para se Ser é preciso o Tornar-se?), a obsessão pelas Leis, pelo “Absoluto”, pela regularidade, entre outras.

Pater ou Mater, o Homem quer o movimento, quer a evolução, quer atingir um ponto diferenciado do inicial, como se a “estática” implicasse a própria morte (e há ainda o medo profundo da andrógina Indiferenciação, como se o seu alcance não implicasse, também ela, a suprema segurança primaveril, a certeza do Princípio). O corpo demanda a acção, a satisfação das necessidades, e o Espírito é um corpo gigantesco a ousar titanicamente a superação da relatividade para alcançar o ponto permeado pela eterna insatisfação, com esta a poder ser frustrada somente no momento em que o Nada é incorporado pela morte redentora, pelo regresso ao Princípio conciliador. E o Princípio requererá nova temporalidade, nova involução relativizadora. E o Eterno Retorno promete (con)firmar-se, e a Verdade mais pura é a de que Nada tem sentido, tudo é vão, toda a acção equivale à não acção, o bem e o mal igualam-se nos termos de um eixo de equilibração afixado pelo Princípio. Mas o corpo tem a demanda. E somos compelidos à acção, determinados pela Fortuna à crença numa evolução e à ilusão da Consciência e da Liberdade. É o próprio corpo que determina a sua própria ilusão. É o próprio corpo que determina o Espírito que quererá fazer denegar a existência do próprio corpo. É o próprio corpo que determina a Civilização que quererá fazer desaparecer os pilares da sua própria superação, incluindo a saúde do húmus ecossistémico. É o próprio corpo que determina o movimento permanente, a crença – sim, a Crença!! – de que podemos ser livres, quando, na verdade, usamos o mesmo corpo para nos livrarmos do corpo, na ilusão de que “seremos” livres, quando, para “sermos livres”, já não podemos “ser”, porque a coisa que existe, se existe por causa de outra, de um impulso, dum movimento, já não é ela mesma, senão a sua quimera, e a ilusão do seu conhecimento, a ilusão da “sua” (?) liberdade. É livre somente o que já Não É, a poeira cósmica na eterna navegação quântica, “quântica” na nossa escala, quiçá matéria grosseira e densa numa escala diferenciada, porque, nada é o que É, tudo é “em relação” a algo, tudo é “em escala”, “em perspectiva”, e é por tudo isto que as nossas tão certeiras afirmações não podem deixar de provocar o sorriso de quem tenha um nível de consciência microscopicamente superior, é por isso que somos tão pequenos, de tal modo inúteis, verdadeiramente toscos na nossa risível intenção de nos libertamos, de nos endeusificarmos, quando o Deus que projectamos (querer) ser nada é na mudança de escala ou perspectiva. E é por isso que eu, ser menor, estupidamente convencido de que tenho um ou dois graus a mais de Consciência, saio daqui, deste aforismo com que pretendo gravar a minha estúpida e inútil imortalidade, e vou voltar à vida “prática”, cheio de “certezas”, de tarefas, projectos, e eventualmente não pensarei sequer em pôr um termo a toda esta idiotia… porque o Corpo não deixa, porque o instinto fala mais alto, porque a ilusão do sonho continua a ter prioridade,
e eu a pensar que, ainda assim, mesmo dentro do sonho, tudo isto é Verdade em si mesmo, e é por isso que não apago o que escrevi,
porque continuo a querer gorar a noção de que sou escravo do desejo, escravo da intenção, escravo da ilusão,
a Consciencialização é “anti-natura”, ofende o instinto, ofende a indigência de conservação,
e eu a continuar a escrever, sempre embutido, absorvido pela Ilusão…


PUBLICIDADE


e eu a querer libertar-me do próprio acto de escrita, a querer extinguir a dúvida, mas o corpo quer mais, a ilusão quer mais, ela devora por dentro e por fora, o Espírito é como o homem do dinheiro, o homem das guerras, quer sempre mais, a obsessão quer sempre mais,
é inútil toda a tentativa de resistir; o pensamento, a obsessão, a dialéctica, querem sempre mais, o corpo demanda, o corpo embriaga,
e eu a querer sair de dentro de mim mesmo, a quer largar o corpo e a obsessão, largá-los face à quimera da Liberdade, mas, onde Essa está eu não estou, ninguém está, senão o Nada, e aí já nada fará sentido, porque não estou lá eu para dar ao Sentido a Consciência que ele merece.
E, finalmente, quando o pensamento conquistar a ilusão da sua própria quietação, sairei daqui contente, relesmente feliz, quimericamente feliz, satisfeito na minha ilusão de completude, e eu a pensar, por breves momentos, que essa sensação de apaziguamento é qualquer coisa a que se possa chamar “felicidade”, e já a “felicidade” quer trazer a “Liberdade” na sua asinina e mordaz trela, e já a projecção da efeméride preludia o novo Princípio, renovada dialéctica, nova peregrinação, nova ascensão, nova Ilusão (des)iludida, nova busca de iludida felicidade, sensação de preenchimento, e este é toda uma revolução endócrina, hormonas que digladiam o trono celeste, neurotransmissores a permearem-se e a fazerem-se pensamento, e este a ser divino, o átomo de um divino maior, e a máquina não pára, a máquina quer sossegar, quer a certeza, o Eterno, quer que o Eterno crie a máquina que o criou, e pensar o contrário é ter a Culpa a enformar a dúvida e a dúvida a puxar certezas e as certezas a quererem o Eterno e o Eterno a querer o homem feito à sua imagem.

E parar? É a solução? Matarmo-nos, despirmo-nos do Destino… Rejeitar o caminho e a dialéctica. Porque todo o caminho é “luta”, todo o caminho é ofensivo, porque quando o corpo fala, o bem próprio, o outro é fendido, o mal alheio. Mas escaparmo-nos da aventura? Por que deixar que sejam só os outros a poderem embriagar-se com a ilusão? Sejamos a Ilusão, sejamos o corpo, sejamos poetas, livres, não livres, tanto faz, sejamos sensação, embriagação, sem Culpa, e esqueçamos que mesmo isto é a ilusão que o corpo conquista.

Luís Coelho

Sobre o autor

Luís Coelho

Deixe um comentário