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O Pelicano – O que seremos em 2015

Anabela Melão
Escrito por Anabela Melão

Escolho como símbolo para o ano que agora começa o Pelicano. Da beleza poética das lendas e do imaginário ao apelo do mistério alquímico e do romanticismo, do sacrifício feito em nome do amor ao significado maçónico.

E eis aqui o que confere maior e mais força ao seu significante e o que verdadeiramente encerra a sua forte mensagem. «… some-te lá no cimo da fraga mas deixa que no teu rasto fique o sangue anunciando a esperança noutro dia. Sê como a onda que morre para outra começar.» (Fernando Namora, “Mar de Sargaços”)

Várias escolas iniciáticas místicas, sobretudo as do período medieval, divinizaram o Pelicano como o seu símbolo, emprestando-lhe o divino e a magia ora pelo dom da Fénix ora pelo talento do Amor Maior.

Segundo a interpretação do escritor do séc. IV, Physiologus, o Pelicano é aquele que dilacera o seu próprio peito para aspergir com sangue os seus filhotes já levados pelos braços da morte, na esperança de os ressuscitar.


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Foi desde logo com os cátaros que o Fiel Pelicano vestiu toda a sua carga simbólica. Os sacerdotes cátaros, entre os séculos XI e XII, chamavam-se a si mesmos de “popelicans” [termo usado na gíria francesa formado pela contracção da palavra “pope” (papa) com “pelican” (pelicano)], ou seja, os cátaros seriam os filhos nascidos do sacrifício de Jesus, os que diziam possuir o verdadeiro segredo da vida, paixão e morte do Filho de Deus.

No mundo alquímico, o Pelicano foi utensílio e foi, simultaneamente, símbolo. O utensílio (alambique de vidro, em forma de círculo, feito uma só peça, com o bojo encimado por um capitel tubulado, de que partiam dois tubos opostos e encurvados, formando uma asa) fazia com que o líquido destilado recaísse gradual e constantemente dentro dele. Ali mesmo, a função do aparelho desvendava o símbolo, alimentando sucessivamente a experiência alquímica. Esta jorrava como que soprando pela “vida” das matérias e dos fluidos, o tal alimento, produto das suas entranhas, a “obra” sonhada e pensada pelo alquimista. A grande “obra” provocava-se a si própria num acervo múltiplo de coloração e fumos, do preto ao branco, do verde ao azul e deste amarelo. E nesse arco-íris, as simples transições entre as cores nucleares assumiam-se como prenúncios da vida humana: o preto simbolizava um cadáver, mas também um esqueleto e também um corvo, o branco fazia-se cisne, o vermelho, a rubificação e a fénix, o tal Pelicano, que, como a sua juventude majestática, se erguia sublime, coroado e encerrado no Ovo Filosófico.

Os rosa-cruzes, originariamente alquimistas, adoptaram o Pelicano como símbolo da capacidade de regeneração química da matéria. E, nas suas alegorias, associaram essa simbologia com o sacrifício de Cristo, cujo sangue derramado sobre a cruz era tido como instrumento de regeneração dos espíritos, medida essa necessária para a salvação da humanidade.

São Jerónimo, num comentário do Salmo 102, disse: “Sou como um pelicano do deserto, que fustiga o peito e alimenta com o próprio sangue os seus filhos”. “Ó pássaro bom! Ó pelicano bom, Senhor Jesus!”

“Que o pássaro bom nos ensine amar mais a Eucaristia, Sacramento no qual Jesus se acha presente, com seu corpo, sangue, alma e divindade. Ele é um banquete sagrado, o pelicano bom a inundar-nos com o vosso sangue, sangue do qual uma só gota pode salvar o mundo inteiro” (Santo Tomás de Aquino).

Na Bíblia, a sua menção precede a da pomba. E ei-lo no Salmo 101:7 “Assemelho-me ao pelicano do deserto, sou como a coruja nas ruínas.” E no Salmo 102:6: “Sou semelhante ao pelicano no deserto; sou como um mocho nas solidões.”

Na iconografia cristã, o Pelicano abre e encerra o símbolo eucarístico “Eu sou o Pão Vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que deverei dar pela vida do mundo é a minha carne.” (João 6, 51-71).

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Mas é o hino «Adoro te devote» que lhe presta a mais feliz homenagem: “Pie pellicáne Jésu Domine, Me immundum munda túo sánguine, Cújus una stílla sálvum fácere Tótum múndum quit ab ómni scélere.” (“Senhor Jesus, terno pelicano, lava-me a mim, imundo, com o teu sangue, do qual uma só gota já pode salvar o mundo de todos os pecados”).

Daí o Pelicano erguido como a própria representação das virtudes rectificadoras do cristianismo. Qual rosa mística! Qual Fénix renascida!

A Maçonaria vê no Pelicano a essência do Grande Arquitecto do Universo, que, com a sua própria substância, alimenta os seus filhos. Torna-se o Pelicano, abrindo as suas entranhas para alimentar os seus filhos amados, os quais, figurativamente, se retratam sempre em números sagrados: 3-5-7. E é por isso que o Pelicano foi escolhido como o símbolo representativo do Grau de Cavaleiro Rosa Cruz, o grau 18 (grau alquímico por excelência e cristão), apelando à simbologia do sacrifício do Filho do Homem, Ele mesmo a personificação da caridade altruísta, do amor abnegado e gratuito. O Pelicano é aqui o símbolo do amor paternal, ao ponto do sacrifício seguido de imediato pelo renascimento. E, ao mesmo tempo que é Pai ele é Mãe. E daí que seja, por excelência, o símbolo que rege o veneralato. O Venerável, a Mãe eleita, acolhe-o como símbolo da sua maternidade, a mais augusta, a mais elevada função de amor. O amor feito divindade humana no seu grau máximo. E, assim, como o Pelicano, o Venerável recorre à sua “bolsa”, e, regurgitando, com sensibilidade, ali deposita os alimentos para os filhos, aqueles que assumiu como “seus” pelo mandato que lhe foi confiado, para, com prontidão e solicitude, lhes satisfazer as necessidades de alimento espiritual e fraterno.

“No simbolismo maçónico, o sangue do Pelícano significa o Trabalho Secreto por meio do qual o homem é elevado da escravidão da ignorância à condição de liberto através da sabedoria.” (Manlly P. Hall)

A dimensão mística do símbolo é transportada por Alfred de Musset, no poema O Pelicano: “Qualquer preocupação que sofras em tua vida,/ Oh! deixa dilatar-se, esta santa ferida/ Que os negros serafins têm cavado no teu peito/ Nada nos faz tão grandes como um sofrer perfeito./ Mas, por estar atento, não creias, ó poeta,/ Que no Mundo a tua voz deva ficar quieta!/ Os mais pungentes são os cânticos mais belos,/ E eu conheço imortais que são tristes anelos./ Quando o pelicano, em longa viagem solta,/ Nas brumas da tardinha aos seus caniços volta,/ Famintos filhos seus caminham sobre a praia,/ Vendo-o debater-se ao longe, em cima, às plúmbeas águas/ Já crendo em apanhar e repartir a presa/ Eles correm ao pai com gritos de alegrias/ Erguendo os bicos sobre as gargantas frias./ Ele, galgando a passos lentos uma rocha elevada,/ Na sua asa pendente abrigando a ninhada,/ Pescador melancólico, ele olha os céus./ O sangue corre em golfadas no seu peito aberto;/ Em vão dos mares escavou a profundeza:/ O Oceano estava vazio e a praia deserta;/ Por todo o alimento que ele traz no seu coração./ Sombrio e silencioso, estendido sobre a pedra,/ Repartindo aos seus filhos as suas entranhas de pai,/ No seu amor sublime embala a sua dor,/ E, olhando escorre o seu peito a sangrar,/ Sobre o seu festim de morte ele prostra-se e cambaleia,/ Ébrio de volúpia, de ternura e de horror./ Mas às vezes, no meio do divino sacrifício,/ Fatigado de morrer em tão longo suplício,/ Ele acredita que os filhos o deixem vivendo;/ Então soergue-se, abre a sua asa ao vento,/ E, ferindo-se o coração com um grito selvagem,/ Solta dentro da noite um tão fúnebre adeus,/ Que os pássaros dos mares desertam a beira-mar,/ E que o viajante demorado na praia,/ Sentindo passar a morte, se recomenda a Deus.” (La Nuit de Mai (1835)).

O Pelicano, enquanto Dador prestimoso, é-vos pedido, é-vos oferecido. E é-vos apresentado no final dos trabalhos, no Tronco da Viúva, guardado no sigilo e no silêncio do Hospitaleiro e do Venerável. Ambos providenciam. Ambos amparam.

Na sacralidade do rito, faço duas ressalvas quanto ao Tronco da Viúva.

Uma, para a descrição que rodeia o seu uso, adentro do texto bíblico (Mateus 6:2-4) 2 “Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. “3 Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; 4 para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.”

Outra, para a sacralidade que acompanha a sua passagem pela Loja e que provém do conjunto de energias [centradas, por fim, na Egrégora da Cadeia da União] que animam os Irmãos, como incenso queimado (como a lei de Amra – causa e efeito).

Como construtores sociais, tomemos consciência do nosso papel na Ordem e na Sociedade. De dentro para fora. De fora para dentro.

Lembremo-nos da lição do Pelicano.

Da caridade com que distribui prazenteira, ainda que dolorosamente, o alimento em prol dos filhos que ama. Em bondade abnegada. Para nós, homens que se aprimoram na conversão dos símbolos operativos em valores e princípios, em regras e em atitudes, o Pelicano insurge-se como uma força a trabalhar em Nós. Copiemos-lhe os gestos, indo em socorro dos que mais precisam. Por excelência, prioritariamente, dos nossos. Sem alardes. Sem alarido. No mais profundo amor.

Movidos pela energia do símbolo, o Pelicano convida a que se abramos as nossas entranhas e a que deixemos cair o alimento nelas contido, em amorosa fraternidade, gota a gota, pedaço a pedaço (3-5-7), o alimento do afecto e da atenção em falta.

Ser Maçon é Ser esse Pelicano. Oferecer essa ajuda, desmesurada e voluntariamente. Emprestar as nossas forças anímicas, materiais e espirituais – não as que nos sobejam, mas todas as que temos – a quem delas precisa. Provir essas necessidades afectuosamente. Sermos e Estarmos para os Outros, pelos Outros, com os Outros e nos Outros. Enlaçarmo-nos nesse (enorme) abraço fraternal.

Sejamos, pois, como o Pelicano.

A todos, um bom 2015.

Anabela Melão, Venerável Mestre da Respeitável Loja Eclipse


 

Sobre o autor

Anabela Melão

Anabela Melão

Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. Assessora do Secretário de Estado da Administração Interna, Luís Madureira (XI Governo Constitucional), de 1989 a 1990. Inspectora de finanças principal da Inspecção-Geral de Finanças, de 1990 a 2004. Adjunta do Secretário-Geral da Assembleia da República, 1993-1994. Adjunta e Chefe de Gabinete do Secretário-Geral da Assembleia da República, 1994-1997. Vogal do Conselho de Fiscalização do Ministério do Trabalho e da Segurança Social, 2000-2002. Sub-Inspectora Geral da Inspecção-Geral das Obras Públicas, Transportes e Comunicações - Auditora do Tribunal de Contas, 2002-2009. Directora Executiva da REGIS LABORE, International Consulting, Lda. Percurso Maçónico: Iniciada em 1996, na Grande Loja Feminina de Portugal Venerável Mestre da Respeitável Loja Eclipse (Primeira Loja Livre e Soberana em Portugal)

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