Mundividências Teosofia

O Preceito e a Prática

O Preceito e a Prática

Um certo tipo de inspiração se percebe, pelos membros da Sociedade Teosófica, quando participam de uma Convenção Internacional ou de um encontro similar. Mas a inspiração ajuda pouco, se evapora rapidamente. Para levá-la conosco, a inspiração, como qualquer compreensão que obtenhamos, precisa transformar-se em conduta.

Através de relações corretas, com pessoas e coisas, se fortalece a compreensão e a inspiração arde com a claridade de uma chama. A prática é como o óleo combustível que alimenta a chama. Quanto mais consistente e sinceramente nós praticarmos o que compreendermos, mais continuamente virá do nosso interior a inspiração.

Muitas pessoas, incapazes de localizar a fonte dentro de si mesmos, procuram-na em outros. Isto acontece normalmente porque falta a decisão necessária para observar a si mesmos e colocar em prática o que já compreenderam.

A Teosofia não é apenas uma ideologia. Só quando um membro da Sociedade Teosófica capta a essência dos livros que lê ou das palestras a que assiste é que ele se torna “uma força benéfica na Natureza”. Na tradição indiana há a metáfora da extração da manteiga do leite, manteiga que é nutritiva, pura e deliciosa. Do mesmo modo, é possível extrair de livros, estudos e debates aquilo que irá alimentar nossa natureza interior e fá-la crescer. Nosso êxito nisto será demonstrado por nossas ações e pelo que conseguirmos inspirar em nós mesmo e naqueles com quem entrarmos em contato.


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A colocação do conhecimento em prática envolve a importante qualidade da responsabilidade própria. A maior parte das pessoas pensa na responsabilidade com se fosse algo exterior a si, mas um teósofo sabe que ela está em si mesmo. Cada um tem uma quota de responsabilidade pelas condições externas, seja ao nível global dos assuntos humanos, ou ao nível individual das relações pessoais com quem se trabalha, ou a família, vizinhos e colegas. Cada pessoa que sente animosidade, ou cria uma barreira entre si mesmo e outro, que se encerra numa barreira de orgulho e presunção, ou que fecha seu coração para a dor e o sofrimento dos outros, é responsável pela rivalidade e pelo sofrimento no mundo. Esta pessoa está aumentando a soma total de má vontade, falta de compreensão e desarmonia que há na atmosfera do mundo.

O que acontece no mundo externo não é sempre determinado por ações externas. Pode ser provocado pela atmosfera psíquica que todos nós construimos em conjunto. A cada dia, algo se acrescenta àquela atmosfera psíquica, vindo da vida diária de cada pessoa, de seus motivos e pensamentos secretos. Como reagimos aos triunfos e fracassos dos outros? Somos os primeiros a apontar o cisco nos olhos dos outros, sem ver o que está no nosso próprio? É difícil ver a nós próprios como os outros nos vêem, em parte porque somos meio cegos a nossas falhas, mas principalmente porque temos muita vontade de colocar a responsabilidade do que está errado nos outros.

Sempre que há conflito, quase todos atribuem a causa a “outras pessoas”. Mas um teósofo sabe que se alguém não gosta dele, não é tanto por responsabilidade da outra pessoa. Há algo nele, talvez trazido do passado, que produziu a antipatia no outro. Quem conhece alguma coisa sobre a lei do Karma e Reencarnação sabe que nada lhe acontece que não tenha sido colocado em movimento por ele mesmo. Mas normalmente as pessoas não pensam em sua própria responsabilidade. É mais fácil culpar os outros.

Quando alguém demonstra respeito conosco, pensamos, normalmente, que o mérito é nosso; mas se mostra desrespeito, consideramos que o erro é do outro. Se ouvimos palavras agradáveis, o sentimento é de que as merecemos; se as palavras são desagradáveis, o outro é que está errado. Fugimos da responsabilidade porque é cômodo. Mas isto não se ajusta à realidade; o fato é que cada pessoa é responsável pelo que acontece a ela e por sua própria vida e futuro.

O senso de responsabilidade surge em uma mente aberta, quando se é capaz de olhar para si mesmo impessoalmente, sem preocupação com os supostos erros dos outros. Não é nosso dever chamar a atenção dos outros e dizer-lhes como eles deveriam atuar. Os cegos não podem conduzir cegos, mas, mesmo que somos cegos, pensamos que podemos. Cada pessoa deve corrigir-se a si mesmo, e isto requer uma grande quantidade de auto-percepção, honestidade e uma disposição para aprender tudo o que está implícito na palavra “Teosofia”.

Cada um dos grandes temas teosóficos têm implicações práticas. Se somos incapazes de ver seu significado e viver de acordo com ele, não somos verdadeiros membros da Sociedade Teosófica. A senhora Blavatsky destacava que a ética é a própria alma da Teosofia. Vivemos em um mundo onde os padrões éticos são baixos. O egoísmo prevalece em todas partes, tanto no campo mais amplo das nações como no nível pessoal do trabalho e da vida diária. Por causa do egoísmo, a ordem vem sendo rompida e, como resultado direto, grande parte do mundo está sob regimes totalitários. O trabalho teosófico também cai destruído quando o egoísmo está presente. O egoísta busca satisfação às custas de outro. A incapacidade de cooperar ou ver o bem no outro é conseqüência, também, do egoísmo. Trata-se de uma força que desanima e corrompe.

Pessoas que participam, ativa ou passivamente, em práticas de corrupção, dizem que é impossível viver sem elas. Esta é uma crença falsa, que destrui o indivíduo e a sociedade. Quando alguém, uma vez, disse a J. Krishnamurti, que viver eticamente tornaria impossível sobreviver, ele respondeu: “Não sobreviva”. Por “sobrevivência” se entende a aquisição, por um período temporário, de coisas falsas, inúteis, sacrificando o que é mais precioso, isto é, o desenvolvimento moral e espiritual. Os membros da Sociedade Teosófica devem rejeitar, como algo destituído de valor, modos de vida que dependem de concessão de princípios, de conveniências e hipocrisia.

Manter um alto padrão de conduta ética não significa ter orgulho, nem imaginar que se é melhor que os outros. A pretensão espiritual é simplesmente outra forma de egoísmo. Onde está o “eu”, seja qual for a forma que assumir, ele tende a enfraquecer nossos esforços. Um trabalho que valha a pena só pode ser feito onde haja simplicidade e humildade, junto com uma mente aberta.

Uma das melhores forma de meditação para pessoas comuns é a prática da boa vontade. Este pode ser o começo da meditação mais profunda. Se alguém faz coisas erradas, como podemos ter boa vontade para com ele? Talvez ele não esteja fazendo nada errado; talvez seja nossa própria estreiteza mental que nos faz criticá-lo. De qualquer modo, não o ajudamos, nem nos ajudamos, fazendo-lhe acusações, tendo má vontade ou retaliando. Só a boa vontade tem o poder de causar uma mudança. Deve haver boa vontade para com todos, amigos, gente que pensa como nós e gente que tem um ponto de vista diferente. A boa vontade é o reconhecimento de que há muitos caminhos para a verdade.

A Sociedade Teosófica é um grande corpo internacional. Ela reúne diferentes religiões, raças e nacionalidades, ricos e pobres, pessoas mais ou menos elevadas, cultos e incultos. Tem que haver uma grande variedade de pontos de vista e modos de atuar na S.T. Há uma beleza nesta variedade e em reagir corretamente às diferenças. O irmão George S. Arundale usou a bonita expressão: “Juntos, mesmo que diferentes”. É que temos a nobreza e a magnanimidade para estar “Juntos, mesmo que diferentes”? Se temos, faremos da Sociedade Teosófica uma organização capaz de ser uma esplêndida força regeneradora, um centro de cooperação, compreensão e boa vontade. Cultivemos aquele espírito de boa vontade universal, com mente e coração abertos, praticando o que aprendemos. Então nossa compreensão se aprofundará e chegaremos a nossos companheiros de humanidade com toda a força e beleza de um coração que ama.

Radha Burnier
(Presidenta internacional da Sociedade Teosófica)

(Este artigo foi publicado originalmente na revista The Theosophist, de abril de 1984. Publicado originalmente em português na revista TheSophia de Janeiro / Fevereiro / Março de 2000)

Traduzido por Carlos Cardoso Aveline

Sobre o autor

Sociedade Teosófica no Brasil

Sociedade Teosófica no Brasil

A Sociedade Teosófica no Brasil foi fundada no Rio de Janeiro, em 17 de novembro de 1919, por Raimundo Pinto Seidl e possui Lojas e Grupos de Estudo em diversas cidades do Brasil, estando a sede da Seção Nacional na cidade de Brasília.

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