Mundividências Reflexões

O riso e as religiões

“O riso liberta o homem do medo do demónio”
(in “O Nome da Rosa”- Umberto Eco) …

O Homem é o único animal que ri. Se considerarmos que todas as religiões resultam de construções humanas, mas de inspiração divina, seria de esperar que elas considerassem mais o riso, esse atributo tão humano, certamente de inspiração divina, porque os seres humanos foram feitos “à Sua imagem e semelhança”.

Não são muitas, no entanto, as referências ao humor e ao riso nas tradições religiosas. Contudo algumas existem.

A tradição budista considera que o riso se inicia na alma e que a partir dela chega ao corpo físico através dos olhos.


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O islamismo preceitua que não se deve rir muito, pois o riso em excesso adoece o coração.

No Siquismo, o Guru Nanak dizia . “Usa o humor para ensinares as verdades”.

No Antigo Testamento (Ecl 7,3) diz-se: “O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos estúpidos está na casa da alegria”

O Novo Testamento (Lc 6,25) refere: “Ai de vós que agora rides, porque gemereis e chorareis”.

Já São Tomás de Aquino, Doutor da Igreja Católica, refere que o sono está para o corpo como o humor para a alma. Ele (o humor) é o repouso da alma, dizia.

Poucos foram os filósofos que se dedicaram ao estudo do humor e do riso do ponto de vista filosófico e cultural. Menos ainda os que estudaram o humor e o riso nas suas ligações às religiões.

Henri Bergson (1859-1941) foi dos poucos a esboçar uma explicação do riso (no seu livro “O Riso” de 1900), referindo que “não há comicidades fora daquilo que é especificamente humano”: Rimo-nos uns dos outros; o riso é um fenómeno grupal mas, porque se dirige à consciência de cada um, também é um fenómeno individual.

O riso é contagioso. Há relatos documentados de epidemias de riso, como parece ter acontecido no Tanganyika. Hoje poucos se lembram do riso epidémico que começou numa aldeia de Kashasha, em Tanganyika, atual Tanzânia, corria o ano de 1962.

Ao estudo do humor e do riso chama-se gelotologia. Mas o que é, verdadeiramente, o riso?

Sabe-se que resulta de um estado de ânimo (humor) cuja intensidade representa o grau de disposição e de bem-estar de um indivíduo. Sabe-se que é uma expressão facial involuntária (quando não forçado) decorrente da flexão dos músculos da extremidade da boca: depressor, orbicular, mentoriano, bucinador, risório e masseterino.

O riso pode surgir nos campos:

1 – Psico-afectivo – através de um sentimento intimo de alegria, felicidade, satisfação ou prazer (reação involuntária);
2 – Linguístico – através de uma piada ou anedota (reação involuntária)
3 – Sócio-cultural – através da expressão de sentimentos e opiniões dentro de um grupo
4 -Fisiológico – como reação involuntária provocada por ação mecânica por processos biológicos (feridas na fase final de saramento) ou por adições (drogas)

São várias as Teorias do Humor, estudadas na Gelotologia. A título de exemplo:

– Teorias da superioridade – o riso oriundo da sensação de superioridade de um indivíduo frente ao outro ou a alguma situação (o riso enquanto depreciação do outro);

– Teorias da incoerência – a incoerência como força motriz de toda a situação cómica. Trata-se da relação entre elementos contrastantes ou ideias opostas (um pouco na senda de Kant). Veja-se a ironia enquanto insulto dito sob a forma elogio. A título de exemplo: Escrevia o embaixador Austríaco em Lisboa ao seu Ministro, dizendo que Portugal era um reino tão católico que o Rei D. João V assistia diariamente à missa, vivia num palácio que também era um convento (Mafra) e que até as suas amantes eram freiras;

– Teorias do alívio – as ações de censura provocam tensões que impedem o indivíduo de dar corpo aos seus impulsos naturais, razão pela qual o humor funciona como forma de enganar a censura e de aliviá-lo ( na senda de Freud).

Na certeza, porém, que o homem é o único animal que ri. O riso é uma reação humana a um estímulo e é característico de uma sociedade que comunica. O homem ri de si próprio e dos outros. Através do riso ele reage involuntariamente a estímulos externos: sejam situações cómicas (na sua interpretação) com as quais se depara; sejam as ironias de terceiros que convidam à reação e reflexão, quando questionam sabendo de antemão as respostas (sabemos mas fazemos que ignoramos); sejam, ainda, as sátiras, onde se ridiculariza um determinado tema (pessoa, organização ou Estado) como forma de intervenção política ou social (“O Grande Ditador “ de C. Chaplin).

Mas, por que se ri tão pouco das Religiões?

Há três tipos de posições sobre o assunto:

1 – Para quem não tem contacto com uma determinada religião, as criticas sobre o assunto não têm graça (é preciso conhecer para fazer humor – caso contrário há desenquadramento);

2 – Para quem pratica uma religião, as criticas à sua crença podem ser ofensivas;

3 – Os conhecedores das religiões que não são praticantes aceitam normalmente o humor religioso de forma mais liberal.

Tal como as religiões, também o riso exige uma elevada aptidão para as interpretações simbólicas. Já nas sociedades originais, em que imperava a religião da natureza e em que o sagrado e o mágico se confundiam, o riso era proibido nos rituais de iniciação porque no plano simbólico ele introduzia uma manifestação típica dos homens nos portais da morte e do renascimento.

Foi quando os deuses passaram a ser personagens distintas dos espíritos da natureza, que se começaram a construir santuários e templos. A partir de então os deuses passaram a ser servidos por sacerdotes cujo poder se foi afirmando em crescendo.

Realce-se que nas antigas mitologias os deuses foram os primeiros reis. Os assírios, sumérios, caldeus e babilónicos tinham deuses que riam. Para os gregos da antiguidade a história humana era cíclica (Idades do ouro, da prata, do bronze e do ferro) e os deuses também estavam sujeitos aos grandes ciclos, com muitos deles a resultarem do cruzamento da raça dos deuses com a raça dos homens. Sabemos bem como na mitologia greco-romana os deuses traíam, brigavam, roubavam e riam. Homero, Hesíodo e Aristófanes dão nota disso nas suas obras. O próprio Zeus ria quando irritava os outros deuses e os punha a brigar. Deméter, deusa grega das colheitas, filha de Cronos e Reia (equivalente à deusa romana Ceres) bem como Dionísio, deus grego do vinho e do prazer (equivalente ao deus romano Baco), primavam pela inversão da ordem social.

Na tradição religiosa hindu há situações semelhantes. No Ramayana, o maior poema épico alguma vez escrito, que relata as aventuras do casal de apaixonados Rama e Sita ao longo de 500 cantos (sargas) e 24 mil versos distribuídos por 7 livros, há toda uma desmontagem das falsidades e contradições das religiões. O Ramayana (escrito entre 500 AC e 100AC) por Valmiki está influenciado pela escola dos Carvakas, primeira escola materialista da Índia, contemporânea de Buda. Refere-se, quase jocosamente, que os sacrifícios e as penas estão inscritos nas escrituras para que os mais espertos possam legislar e exercer o poder sobre todos os outros.

Os próprios judeus sempre fizeram humor sobre o seu Deus e as suas instituições religiosas. Refira-se que no Antigo Testamento quando Deus anuncia a Sara, de 90 anos, que vai ter um filho de Abraão, de 100, ela ri-se. Em hebraico riso diz-se sakhaq e, daí que ao filho tenha sido dado o nome de Isac (יצחק) que literalmente significa “ele vai rir”.

Com a afirmação do Deus cristão a divindade surge como condutora da história e da vida dos homens e não se confunde com eles. No entanto, inicialmente a cultura e os hábitos pagãos permearam a civilização cristã nascente. Muitas festas pagãs transformam-se em festas de celebração de santos cristãos, veja-se o caso das festas das colheitas que hoje se identificam com as festas populares do São João e São Pedro e o caso do solstício de inverno, em que se celebrava o deus Mitra, e que se identifica com a data do nascimento de Jesus.

Entretanto o Concílio de Niceia (325) fixa a doutrina da Igreja Católica e unifica os textos das escrituras (quando havia 50 versões diferentes de evangelhos). No ano de 367 Atanásio de Alexandria estabelece o cânon oficial dos evangelhos e, por via do Imperador Constantino, o cristianismo passou a ser religião de Estado com a hierarquia da igreja a ser considerada, inclusivamente, dentro do funcionalismo público.

A herança cultural clássica é desprezada e os cultos do passado são esquecidos.

O riso é transformado oficialmente num gesto obsceno e é associado à falta de pudor, à idolatria, ao pecado, à desordem e ao caos. O humor perde qualquer relação com o sagrado, até porque Jesus Cristo, o grande modelo humano, nunca terá rido. Pelo menos as escrituras não o referem.

Daí que Clemente de Alexandria (…215) tenha dito que as pessoas dadas à derrisão não devem ser incluídas na comunidade dos fieis e que dentro dos limites o riso equilibra a alma, mas fora de controlo, é desregramento próprio de prostitutas e proxenetas. Na regra de São Basílio (…378) escrita em Cesareia, ele diz que o riso é sinal de relaxamento espiritual. São João Crisóstomo (…407), refere que é preciso chorar no mundo para podermos sorrir na vida eterna. Santo Agostinho (…430) diz que o riso e brincadeiras são o que há de mais ínfimo no homem.

No entanto alguns autores cristãos defendiam o riso e o humor, nomeadamente para combater os mitos pagãos através da sua ridicularização. São os casos de Minucius, Tertuliano e Prudêncio.

Na Idade Média as elites orientavam o seu pensamento pelos princípios teológicos. No entanto, em paralelo, a devoção popular seguia rumos próprios muito próximos, por vezes, das tradições pagãs. Era grande a oposição das elites políticas e religiosas às práticas culturais mais populares, uma vez que as consideravam de inspiração pagã e influenciadas pelo demónio. Nas festas populares atuavam os bufões e os goliardos, em paródias em que as autoridades eclesiásticas eram representadas muitas vezes por animais, normalmente porcos e burros. Lembre-se, a este propósito, que os goliardos eram na grande maioria religiosos desavindos com as hierarquias religiosas, sendo perseguidos por elas por fazerem chacota dos maus usos e costumes das autoridades religiosas. Talvez por isso, em “O Nome da Rosa” de Umberto Eco, Jorge de Burgos diz que “o riso liberta o homem do medo do demónio”.

Na corte apenas os bobos detinham o privilégio da crítica e do humor. Através deles a corte tinha conhecimento das críticas da populaça ao poder.

A título de exemplo, e a propósito da perseguição movida aos goliardos, refira-se a obra musical Carmina Burana de Carl Orff, baseada num manuscrito medieval chamado “Codex latinus monacensis”, encontrado num mosteiro da Baviera em 1803 e escrito, precisamente, por goliardos:

In Taberna quando sumus
…uns jogam, uns bebem,
uns vivem licenciosamente…
…oito os irmãos desgarrados,
nove os monges errantes,
dez os navegantes,
onze os brigões,
doze os penitentes,
treze os viajantes.
Tanto o Papa quanto o Rei
bebem todos sem lei

Refira-se também, um Édito da Faculdade de Teologia de Paris, datado de 1444, em que é dito que “todos os que exercem a ofício da paródia são considerados profanadores dos sacramentos e dos dignitários eclesiásticos por fazerem troça dos assuntos sagrados.”

A partir da Renascença assiste-se a uma secularização crescente que vem até aos nossos dias (reforma, revolução francesa, etc.).Para além de Deus, as preocupações humanas passam também a estar centradas em questões de natureza científica, política e comercial. As igrejas protestantes resultantes da Reforma impõem-se porque a Igreja Católica deixou de ter força para impor aos homens as suas interpretações do mundo. Ora “as forças da secularização não têm qualquer interesse em perseguir a religião” (in A Cidade do Homem . Harvey Cox/1929).

Trata-se do processo de secularização a que Max Weber (1864/1920) chamava desencantamento do mundo.

Neste processo de desencantamento as investigações sobre a evolução das crenças religiosas registam um deslocamento em que: 1 – Deus desantropormofiza-se; 2 – deixa de ser prescritor da exatidão das condutas humanas; 3 – tem mais que fazer do que castigar os homens e recompensar os seus comportamentos e 4 – não é mais um tribunal das virtudes e dos vícios.

São os que se opõem a este processo de secularização que alimentam, nos dias de hoje, todos os fundamentalismos religiosos, porque não têm a capacidade de absorção das rápidas mudanças sociais e dos seus impacto numa visão da divindade, necessariamente diferente, que a sociedade da informação, globalizada, lhes impõe.

Como diria George Minois (1946) na sua “História do Riso e do Escárnio”, desde os gregos arcaicos e até ao século XX foram três as etapas do fenómeno do riso. Ele foi originalmente um atributo divino, depois um atributo diabólico e, finalmente, um atributo humano.

Se nos mitos da criação o caos era associado ao riso, já nos textos homéricos era um atributo divino. Se no cristianismo tem conotação negativa, quase diabólica, é porque na Epístola (apócrifa) de Lentulo (Publius Lentullus – governador da Judeia antes de Pôncio Pilatos) ao Senado, na qual é descrito o aspeto físico de Jesus, se refere explicitamente, que nunca ninguém o terá visto a rir, mas tão somente a lamentar-se.

Mas, mesmo no mundo secularizado em que vivemos o homem continua, apesar de tudo, a ter pudor de colocar Deus a ridículo. Como diz o historiador das religiões Mircea Iliade (1907/1986) em “O Sagrado e o Profano”, “seja qual for o grau de dessacralização do mundo, o homem que optou por uma vida profana não consegue abolir completamente o comportamento religioso”…”até a existência mais dessacralizada conserva traços de uma valorização religiosa do mundo”.

Em conclusão podemos dizer que nada ou muito pouco se ri dos dogmas religiosos. Normalmente ri-se das pessoas. Não se ri do guião nem das personagens, mas dos atores.

Cabe então perguntar:

O que defendem as religiões quando condenam o humor e fazem do riso um tabu? Defendem a divindade? Ou defendem instituições criadas pelos homens?

Certamente que defendem as instituições/igrejas criadas pelos homens. Ao fim e ao cabo proibindo o humor e o riso evitam ser confrontadas com as contradições e incongruências (teórico práticas) das suas hierarquias.

Luís Natal Marques


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Luís Natal Marques

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