Maçonaria Vias Iniciáticas

Obediência versus Liberdade

Os movimentos tradicionais da atualidade assentam, quase todos, numa estrutura hierarquizada, onde se destaca o aspeto formal de obediência. Os movimentos maçónicos, para além de outras denominações – Grandes Lojas, Grandes Orientes, etc. –, são sempre intitulados de Obediências.

Assim, o conceito de obediência perpassa e é um elemento fundamental em praticamente todas as organizações ditas tradicionais, o que nos deixa na presença de um aparente paradoxo. E porquê? Porque são estas mesmas organizações que acenam bem alto a bandeira da Liberdade individual. Na Maçonaria – mais uma vez recorremos ao exemplo deste movimento – um maçom é um homem LIVRE e de bons costumes.

Como se poderá, então, obedecer e ser livre ao mesmo tempo?

Há quem diga que, verdadeiramente, não existe uma total liberdade do adepto: será impossível ser-se totalmente livre quando se tem de obedecer a certos requisitos, preceitos ou, em alguns casos, verdadeiros dogmas. O adepto está preso a reconhecimentos, graus, ritos e formalidades que o afastam de outros adeptos e que o afastam da sua tão querida e aclamada liberdade.


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Existem, no entanto, formas de resolver este enigma.

Em primeiro lugar, podemos dizer que o adepto não foi obrigado ou coagido a juntar-se a este ou aquele movimento. Se o fez, foi por sua livre vontade – se obedece a um Grão-Mestre, a um Grão-Prior, a um Imperator ou a um Venerável, fá-lo de sua livre vontade. Mas esta será, talvez, uma explicação baseada essencialmente na dialética, no “discurso engenhoso”…

Uma outra chave para resolver este enigma, imensamente mais profunda, baseia-se num elemento fundamental e absolutamente incontornável: a Fraternidade.

Mas, voltando ao princípio, será importante ressalvar que, em todo o caso, o adepto irá obedecer, em abstrato, a uma Tradição que o acolheu e não a alguém em particular. Contudo, esta Tradição, como vimos, tem uma hierarquia e cargos distintos, tendo assim persona, isto é, é personificada nos cargos já anteriormente referidos: Grão-Mestre, Grão-Prior, Imperator, etc.. Dessa forma, o adepto, obedecendo a uma Tradição, terá de, por inerência, obedecer a uma pessoa, que personifica, tal como ficou exposto supra, essa mesma Tradição – desculpe-se a perífrase.

Todo este processo, parecendo complexo, é extremamente simples, pois é reconhecida a autoridade a quem personifica a Tradição, pelo seu carácter, obra feita, eleição regular. O adepto encontra no seu “superior” as características que aprecia e procura para si: o rigor, a disciplina, a retidão, a justiça, a sabedoria, o discernimento, a harmonia, a paz, o amor e, acima de tudo, a fraternidade. Esta última “qualidade” ou “característica” é, como dissemos acima, a chave que resolve o enigma, o paradoxo. Sem a fraternidade, a autoridade transforma-se em autoritarismo; o rigor e a disciplina, em exigência severa; a sabedoria e o discernimento, em arrogância e orgulho intelectual; a harmonia e a paz, em lassidão e apatia. Enfim, tudo se desmorona, tudo se esboroa.

Mas não se fique com a ideia de que é só o adepto que deve “fazer uso” da fraternidade, para poder contemplar todas as referidas características “positivas” no seu superior hierárquico. Será tanto ou mais importante que aquele que ocupa o cargo de destaque se muna de uma fraternidade a toda a prova. Dizemos que será mais importante, e é-o certamente, pois é do “alto” que tem de vir o exemplo.

A principal “arma” daquele que ocupa um cargo de responsabilidade deveria ser a fraternidade, pois tudo o resto vem, como vimos, por acréscimo.

A fraternidade funciona como um filtro – com este filtro, uma característica específica de uma pessoa é considerada uma qualidade apreciável; sem este, tal característica é vista como um defeito de carácter.

Em jeito de conclusão, poderemos dizer que é através da vivência da fraternidade que se pode obedecer e ser livre ao mesmo tempo. É através da fraternidade que ficamos de igual para igual com o nosso “superior hierárquico” e vislumbramos nele todas as qualidades que apreciamos e nas quais nos revemos, e assim lhe reconhecemos autoridade. É através da fraternidade que aquele que ocupa uma função de responsabilidade, no seio de um movimento tradicional, poderá fazer valer as suas ideias e obter o respeito (e até a simpatia) de todos os que estão sob a sua batuta.

Nestas circunstâncias, ou seja, existindo fraternidade, obedecendo e sendo livre ao mesmo tempo, há lugar para o verdadeiro Caminho Iniciático. Sem fraternidade, qualquer movimento e organização tradicional torna-se inoperante e disfuncional.

Por Emanuel Swedenborg (pseud.)

Sobre o autor

Emanuel Swedenborg (pseud)

1 Comentário

  • A fraternidade é como a essência, nela está a notoriedade da criança. Mas se continuarmos a definir qualquer sociedade deslumbrada pela riqueza material, nem a pequena em seu estado natural, consegue evitar o mal disfarçado. A influência em adulto tornou-se pecaminosa e seus valores deteriorados através da sua pequenez interior. Muitos são grandes e com isso o papel fraterno que detêm não se articula em si o que por vezes podia ser relevante e que muitas vezes é dissimulado por grandes responsabilidades no cumprimento das suas liberdades (Lato Sensu).

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