Escolas de Mistérios Essênios

Os Essénios

Anabela da Costa
Escrito por Anabela da Costa

Não pagarei homem algum com o mal. Persegui-lo-ei com a bondade, pois que o julgamento de todos os vivos cabe a Deus, e é ele quem irá entregar ao homem o seu prémio.
“Hino ao preceito da comunidade” – Pergaminhos do Mar Morto

Em 1947, na Palestina um jovem pastor beduíno de nome Muhammed adh-Dhib saiu em busca de uma das cabras que se tinha afastado do rebanho, enquanto estava empenhado na sua difícil busca nos penhascos da montanha, Muhammed viu um buraco numa caverna. Com receio que a mesma estivesse habitada por maus espíritos, o jovem fugiu, mas curiosidade foi mais forte e resolveu voltar no dia seguinte acompanhado de um amigo. Com a ajuda de cordas exploraram então a caverna, onde encontraram um conjunto de jarros de barro de cerca de 60 cm cobertos com tampas redondas. A maioria dos jarros estava vazia, mas num deles encontraram um pacote composto de um pedaço de couro envolvido em farrapos. Após abrirem o pacote descobriram escritos cuja natureza não entendiam.

Dias mais tarde venderam os pergaminhos sem a mínima noção da sua importância a um negociante que posteriormente os vendeu na cidade de Belém. A peregrinação do que se viria a chamar os Pergaminhos do Mar Morto tinha começado…

Os Pergaminhos do Mar Morto contêm:pergaminho
– Pergaminho de Isaias
– Pergaminho de Habakkuk
– Manual de Disciplina – Compilação de regras da comunidade


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Estes foram seguidos por muitos outros pergaminhos descobertos á posteriori em expedições patrocinadas por diversas entidades. Todos estes pergaminhos foram escritos por uma comunidade chamada pelo nome de Essénios que habitavam no local da Descoberta de 130 a.C. a 70 d.C.


Quem eram estes essénios?

“A Síria Palestina, que ocupa uma parte importante da populosa nação dos judeus, não é, também ela, estéril em virtude. Alguns deles, que somam mais de quatro mil, são denominados essénios” Fílon de Alexandria

O termo essénio é de derivação incerta, mas foi relacionada com a palavra hebraica Asah (ele agiu), Hazah (ele teve visões) e com o aramaico Hasaya (pio, devoto) e Asa (ele curou). Também eram chamados de Therapeutae esta denominação deveu-se também aos abrigos mantidos pela comunidade, denominados “Beth-saida” onde eram recebidos doentes e desabrigados em épocas de fome ou epidemias.

Segundo Harvey Spencer Lewis os Essénios eram um ramo da iluminada Fraternidade da Grande loja Branca, que nasceu no Egipto nos anos que precederam Akhenaton, segundo este autor o nome Essénios teria sido adoptado em Alexandria. O termo deriva da palavra egípcia Kashai, que significa secreto. A forma latina esseni, foi a que deu origem ao moderno termo essénio.
Harvey Spencer Lewis indica também que os Essénios tiveram duas comunidades principais:
– As margens do lago Moeris,
– Engaddi na Palestina perto do Mar Morto.

“Existem, com efeito, entre os judeus, três escolas filosóficas: os adeptos da primeira são os fariseus; os da segunda, os saduceus; os da terceira, que apreciam justamente praticar uma vida venerável, são denominados essénios: são judeus pela raça, mas, além disso, estão unidos entre si por uma afeição mútua maior que a dos outros.” Flávio Josefo

Acima podemos ver que Flávio Josefo relata a divisão dos judeus do Segundo Templo em três grupos principais: Saduceus, Fariseus e Essénios. Os essénios eram originários do Egipto, tiveram relações com os Assideus apoiando-os na guerra de libertação contra império selêucida (150 a.C.). Estes Assideus tinham na altura um caracter simultaneamente religioso e politico. Dos Assideus nasceram mais tarde os Fariseus divididos em diversos grupos de que os Zelotas, Sicários e Essénios são exemplos.

Os Essénios, porém abandonam toda e qualquer actividade politica e resolveram abandonar as cidades rumando para o deserto.

De notar que se encontram nos essénios influências de pitagóricos, sírios, Budistas e Persas. Logo os essénios não têm uma raiz puramente Judaica.

“Ninguém nasce entre eles, entretanto seu número não diminui. O local é destinado à castidade. Ali reúnem-se pessoas de várias nações; entretanto, ninguém que não tenha uma reputação de castidade e inocência é ali admitido. Aquele que cometer a menor falta, embora faça o maior esforço para ser admitido, é mantido afastado por ordem divina. Assim, ao longo de tantas eras (é difícil de se crer), uma raça onde não há nascimentos vive para sempre. Logo abaixo dos essénios existia a cidade de Engaddi, mas ela foi arrasada.” Solino III d.C.

Os essénios procuravam encontrar na solidão do deserto o lugar ideal para desenvolverem a espiritualidade e estabelecer a vida comunitária, onde a partilha dos bens era a regra, Os que entravam na seita faziam a doação de todos os seus bens à ordem. Acabaram com o conceito da propriedade individual e acreditavam na verdadeira igualdade e fraternidade entre os homens. Não existia qualquer tipo de moeda.

Os Essénios consideravam-se protegidos por Deus , escolhidos por ele para fazerem parte da Luz. Acreditavam na reencarnação ou seja que a Alma é pré-existente ao corpo, fazendo apenas uma passagem com um determinado corpo até que o mesmo se esgote. Para eles a morte fisica era um momento de grande alegria, a alma que se encontra fechada no corpo, como numa prisão liberta-se. Por estas razões são anti-escravatura. Não tinham amos nem escravos. A sua hierarquia era estabelecida de acordo com a pureza espiritual dos “irmãos”.

A sua visão do mundo era dualista, um mundo partilhado entre bem e mal, mas não são divindades, são Luz e Escuridão.

A Luz representava a verdade e a justiça, enquanto a Escuridão indicava a perversidade e o mal. O equilíbrio entre as duas no Cosmos era alcançado pelo movimento celestial e as pessoas recebiam iguais proporções de cada espírito, conforme determinado pelas circunstâncias planetárias no momento do seu nascimento. A batalha cósmica entre Luz e Escuridão perpetuava-se na humanidade e entre os indivíduos. Deus estava acima destas forças era o governante supremo. Para os essénios até os eleitos podem escolher o mau caminho, mas só deles depende manterem-se no bom, Deus defende todos os filhos da Luz.

Prezavam o silêncio, evitavam discussões. Mantinham-se calados enquanto os outros falavam, como eram bem treinados no uso da voz, tinham uma voz suave mesmo nas conversas comuns o que lhes fez ganhar a reputação de homens da voz Suave. Conheciam também o valor dos sons Vocálicos.

Segundo escritos de Filon e de Flávio Josefo os essénios desdenhavam para si o casamento, mas adoptavam frequentemente os filhos dos outros para lhes transmitirem os seus ensinamentos.

“Os essénios repudiam os prazeres como um mal e consideram como virtude a continência e a resistência às paixões. Eles desprezam, para si mesmos, o casamento; mas adoptam os filhos dos outros numa idade ainda bastante tenra para receberem seus ensinamentos: eles os consideram como se fossem de sua família e os moldam de acordo com os seus costumes.” Flávio Josefo

“Por outro lado, prevendo com perspicácia o obstáculo que ameaçaria, seja por si só, seja de modo mais grave, dissolver os laços da vida comunitária, eles baniram o casamento, ao mesmo tempo em que prescreveram a prática de uma perfeita continência.” Fílon

qumramO baptismo e a eucaristia podem considerar-se herdeiros dos rituais essénios, existe até a suspeita que João Baptista seria Essénio e que Jesus teria sido educado no seu mosteiro em Qumram.

Nestes mosteiros o Instrutor era a entidade máxima que tinha como missão abrir a fonte de conhecimentos a todos os iniciados, para que posteriormente também eles possam ser iniciadores.
Nesta comunidade havia então uma segunda Câmara ou hierarquia (Circulo Interno) que era composta por doze membros e um instrutor. Um membro assumia o papel de Guardião, ficando encarregado de presidir as refeições e também decidir questões que se ligavam a pureza, doutrina e justiça.

Os candidatos tinham um periodo probatório de três anos para poderem entrar no circulo interno, não podendo participar nas refeições da congregação no primeiro ano, estavam também obrigados sob juramento a não revelar qualquer segredo da ordem.

Como estudantes misticos os essénios procuravam a elevação do seu ser espiritual não só através do estudo e da iluminação ganha pelas suas provas morais, mas também através do seu valor humanitário. Recebiam depois uma missão definida que deveria ser cumprida até ao fim da sua vida.

Nos seus ensinos, tal como nas escolas iniciáticas os estudantes eram submetidos a rituais iniciáticos, que iam elevando os seus Graus. Liam textos de outras doutrinas e estudavam a natureza. Sendo especialistas em plantas e na suas virtudes nas artes da cura preparavam muitos medicamentos e poções.

Foram fundadores dos abrigos denominados beth-saida já mencionados anteriormente , que tinham como tarefa cuidar de doentes e desabrigados em épocas de epidemias e fome. Os beth-saida anteciparam em séculos os hospitais.

Acordavam antes do nascer do Sol, faziam as suas preces e estavam em silêncio até lhes serem atribuídas as tarefas para o dia.

Vestiam-se sempre de branco e tinham a vestes sempre muito limpas.

Segundo Harvey Spencer Lewis todos os essénios costumavam lavar as mãos e os pés ao entrarem em suas casas ou na casa de outras pessoas, também o faziam antes de qualquer cerimónia ou prece.

Lavavam também o corpo antes de todas as refeições para se redimirem dos pecados e das impurezas do corpo.

O terror de entrar em contacto com o que é impuro é também uma das razões porque os essénios se abstiveram do casamento tal como mencionado mais acima, porque as mulheres estão sujeitas à menstruação.

A alimentação dos essénios era preparada de acordo com algumas regras de purificação contidas nos documentos antigos. Embora se alimentassem de muitas verduras e alimentos crus nem todos os Essénios eram Vegetarianos, a carne nunca foi proibida, tal como em tudo também na alimentação os essénios eram moderados, não ocorriam excessos.

Bebiam um extrato levemente fermentado de Uva conhecido como “Vinho Novo”.

Utilizavam um calendário diferente com inspiração num calendário Egipcio baseado no Sol. Era constituido por trezentos e sessenta e quatro dias divididos em cinquenta e duas semanas o que permitia que cada estação fosse dividida por treze semanas e mais um dia.

Ansiavam pela vinda do salvador « Mestre de Justiça» que nasceria dentro da comunidade essénia e que seria a reencarnação maior dos seus mestres antepassados. Aliás o Messias esperado pelos essénios assemelhava-se bem mais a Jesus que o Messias esperado pelo Judaismo.

São João Baptista foi tido como um profeta essénio que baptizou Jesus Cristo quando este visitou o seu monastério, Jesus Cristo seria profundamente influenciado pelos ensinamentos essénios.
A destruição de Qumram resgistou-de em 68 d.c quando Vespasiano , ao esmagar a grande revolta judaica, ocupou Jericó a uns escassos 15 km a norte, provavelmente foi nesta altura que os pergaminhos do Mar Morto foram escondidos e de onde viriam a sair tal como no inicio deste artigo foi revelado…

Por Anabela da Costa

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