Mundividências Reflexões

Paradoxo do Paradigma Científico

Escrito por David Santos

A Cerberus Magazine é uma revista que vai exigir dos seus leitores uma grande abertura de espírito. Entretanto, para que esta abertura seja possível, será necessário refletir sobre os métodos ocidentais mais comuns para a compreensão de determinado objeto.
O filósofo inglês John Locke assinalou no seu Ensaio acerca do entendimento humano que, ao nascer, somos similares a uma “folha em branco”, uma tábula rasa, desprovidos de qualquer conhecimento prévio. É a partir desse vazio que chegamos ao mundo, ansiosos por conhecê-lo, das mais diversas formas possíveis, seja com o exercício dos nossos sentidos físicos, seja através de construções mentais.

Ocorre que, a partir do triunfo do paradigma positivista nos séculos XVIII e XIX, a sociedade ocidental acabou por hierarquizar os diferentes saberes, tornando determinados modos de conhecimento mais aptos do que outros para o alcance da tão sonhada “verdade”. Nessa ótica, o mito, a filosofia, a religião, a arte e o senso comum deveriam dobrar-se perante os altares da ciência, único saber plenamente válido, porque poderia ser repetível em qualquer tempo e lugar.

Com a entronização da ciência como única forma da saber válido, todos os saberes prcuraram enlouquecidamente legitimar-se dentro do novo paradigma que, apesar de não ser o Messias, apresentava-se como único caminho para um futuro glorioso de riqueza, paz e progresso. A ciência era tudo e por isso todos queriam ser reconhecidos enquanto cientistas por suas comunidades académicas.

O programa do positivismo apresentou-se como modelo prático da razão. Todo o saber, para ser considerado racional, precisava de respeitar os seus princípios e regras epistemológicos. Se determinado saber não pudesse ser atestado através do rigor matemático, não apresentasse a neutralidade axiológica exigida, não sobrevivesse à experimentação e comprovação de suas hipóteses, o seu único destino possível era a completa rejeição, como se fosse lixo e estivesse contaminado (e disposto a contaminar).


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Mas, ao longo do século XX, este paradigma decaiu. E por mais engraçado que isso seja, as condições teóricas que o inviabilizaram foram aquelas que mais se adequavam a ele. Foram as descobertas das “ciências exatas”, aquelas que eram consideradas mais puras pelo positivismo científico, que provocaram o seu declínio. Com Einstein e a sua teoria da relatividade, destruiu-se o caráter universal e atemporal da ciência. A mecânica quântica, através de Heisenberg e do seu princípio da incerteza, demonstrou a interferência estrutural do sujeito no objeto pesquisado, afastando a neutralidade axiológica – princípio tão caro ao saber científico.

Além disso, o rigor matemático é abalado pela teoria da incompletude de Gödel e as investigações de Prigogine reduzem a dicotomia entre ciências naturais e ciências humanas.

A bem da verdade, a ciência não alcançou este patamar esplêndido com o positivismo por ser melhor que os demais saberes. Na verdade, prontificou-se a ser instrumentalizada pelo capitalismo emergente e, desta forma, perdeu durante décadas a razão de existir. Fora criada para servir e melhorar a vida humana, entretanto o seu método extremamente restritivo e os seus objetivos pouco nobres (designadamente a colonização e as guerras) fizeram com que a mesma se consolidasse como um mecanismo frio para conhecer o mundo.

Agora você, caro leitor, pode se perguntar o que a Cerberus propõe com isto. Será que estão a propor que abandonemos a ciência? Nada disso. A Cerberus não endossa a postura totalitarista que o positivismo apregoou de que só existe uma forma de conhecimento válido e que apenas ele permite chegar à verdade absoluta. Na verdade, a Cerberus quer engajá-lo na reflexão acerca da real existência de alguma verdade absoluta.

A Cerberus foi criada para reaproximar o sujeito cognoscente e o objeto cognoscível, de forma mais harmoniosa e menos hermética. Entende que todo o conhecimento deve servir para o aperfeiçoamento do homem/mulher enquanto sujeitos da sua própria história e da sociedade em geral. Para isso, a Cerberus vai possibilitar o seu contacto com as vias iniciáticas, ciências antigas, cosmovisões, religiões, ou seja, saberes mais tradicionais, que carecem de nossa atenção e com os quais temos muito a aprender. A Cerberus acredita que a sede de conhecimento precisa de ser saciada de forma plural, porque somente as múltiplas experiências da vida serão capazes de nos conduzir a Aletheia, que na sua aceção moderna significa o “desvelamento da verdade”. Enfim, firmamos o compromisso de vos apresentar o inédito sobre novas perspetivas.

Por David Santos

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