Rosacrucianismo Vias Iniciáticas

SER UM MÍSTICO Pensante, atuante e responsável

Ordem Rosacruz AMORC

O que é ser místico? Qual é o lugar do místico nesse começo de milênio? O místico do século 21 pode existir e resistir à pressão materialista que é cada vez mais forte? Quem é ele? Que papel ele pode desempenhar na sociedade? Um místico ainda pode viver serenamente a espiritualidade nessa época insana? Alguns dirão que os progressos rápidos e constantes da ciência tornam inútil essa busca abstrata. Outros dirão que nossas sociedades e seus ditames aniquilam nossos valores profundos e abafam nossa sensibilidade mística.

Face à constatação de fracasso dos estados, face à perversão total de nossos princípios, face à degradação de nosso modo de vida e de nosso meio, ainda temos alguma razão para sermos místicos e termos um comportamento adequado? Sei que, assim como eu, vocês têm a resposta para essa pergunta, mesmo que no decurso de sua existência tenham se perguntado isso e a dúvida, ou a sombra de uma dúvida, tenha atravessado sua mente.

PROPOSIÇÕES

Certamente minhas proposições não lhes ensinarão nada que já não saibam, e isso tanto é verdade que no interior de cada um de nós todos os comportamentos e arquétipos humanos estão inscritos nos cromossomos memória. Podemos a cada instante de nossa existência reencontrar todas as informações que registramos em nossa vida atual e até mesmo em nossas encarnações anteriores, se nos pusermos em estado de meditação profunda. Se nos concentrarmos e nos colocarmos em osmose com todas as nossas células e à escuta de nosso Mestre Interior, teremos então a chance de alcançar aquilo a que se chama de “as verdades primordiais”. Elas estão sepultadas em nós – corpo, alma e mente – e permanecem para sempre gravadas no computador humano.

Desde sempre, em todas as culturas, homens e mulheres viveram à margem de seu “mundo” e decidiram expandir as fronteiras do comum e ultrapassar as do mistério. Estes seres postularam a si mesmos questões fundamentais – as mesmas que ainda assediam nossa mente. De onde vem a humanidade? Qual é a nossa razão de existir? Para que objetivo e em que direção estamos caminhando? Aqueles que se fizeram essas perguntas tiveram aquilo a que se pode chamar de uma “abertura mística”. Essas interrogações sempre povoaram suas mentes, mas foram raramente exprimidas pelo receio de serem julgados, mal compreendidos ou até mesmo maltratados. Por vezes, porém, puderam se revestir de todo o seu sentido para aqueles aos quais chamarei de “almas livres”. Os rosacruzes integraram – e ainda integram – esse grupo.


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Mas o que é um místico? Tomemos inicialmente uma definição oficial. Homem ou mulher místico(a): pessoa atormentada por ideias místicas que tem uma fé religiosa intensa e se interessa pelos mistérios da religião; pessoa de caráter exaltado cujas ideias são absolutas. Certamente, ao se ler essa frase, há razões suficientes para não se querer ser identificado como místico. Enquanto membros da Fraternidade Rosacruz, felizmente temos uma visão diferente de misticismo. Sabemos que o místico não é um iluminado obtuso e sectário, e nem tampouco um exaltado. Se houve aqueles que, por ignorância de nossas ideias e dos ensinamentos veiculados por nossa Ordem, cruzaram nossos portais com esse estado de espírito, os anos venceram sua motivação inicial e eles deixaram a Ordem em seguida. Infelizmente, conheci vários destes e não invejo aquilo que se tornaram.

SER PENSANTE

Pensar, sim, mas pensar bem. Interrogarmo-nos sobre o fundamento de nossas ações, de nossas palavras e de nossos sentimentos. O pensamento é a base de nossa estrutura de vida presente e futura. É preciso saber dominar nossos pensamentos para não receber os inevitáveis choques destruidores provocados por pensamentos e juízos negativos.

Se por um lado o místico é, portanto, um ser pensante, por outro ele deve também ser atuante. Ele conhece perfeitamente o objetivo de sua vida e adota um comportamento de serviço, de generosidade, de compreensão, de tolerância, de compaixão e de amor a fim de ser um exemplo no seio de nossa humanidade. Para ser esse bom exemplo e, portanto, um testemunho positivo em favor dos princípios ditos “místicos”, é preciso que durante sua vida ele busque no fundo de si aquilo que necessita ser encorajado e aprimorado. Estamos todos muito longe da perfeição, mas podemos propagar e mostrar a senda sem que com isso tentemos reformar a todo preço a conduta dos outros, mesmo que isso seja muito tentador quando se vê um irmão se perder e tomar um caminho perigoso. Ser um místico atuante pode ser simples. Basta inicialmente ser sincero consigo mesmo e com os outros, sendo verdadeiro em todas as circunstâncias. Ser verdadeiro não quer dizer que se deva ter resoluções inflexíveis, ou mesmo perversas, nem prescindir de polidez ou diplomacia. Significa ser o verdadeiro reflexo daquilo que somos, não brincar com os sentimentos dos outros e não falar bem mas agir mal.

SER RESPONSÁVEL

Além de ser pensante e atuante, o místico deve ser responsável. Quando temos o conhecimento – quando sabemos – somos obrigatoriamente responsáveis. Essa noção de responsabilidade é primordial. O místico conhece as consequências de seu comportamento. Ele conhece o significado profundo de seus pensamentos, de suas palavras e de seus atos e os resultados que eles produzirão. Quanto mais avançar na senda, mais será responsável e comprometido. Contudo, vocês não terão outra escolha senão continuar seus caminhos, pois se se detiverem não farão mais do que retardar o momento de chegada e ainda assim não estariam isentos do caminho a ser percorrido.

O místico, ou o místico-aprendiz, deve, portanto, dar provas de um trabalho e de uma atenção desenvolvidos, pois ele não tem alternativa. Aquele que não tomou conscientemente o caminho da vida e de suas leis pode, se vier a falhar, pretender alguma indulgência, sobretudo se retiver a lição, mas aquele que sabe e age com ciência se expõe a consequências cármicas mais graves. Se por um lado isso não exclui o perdão tanto para um como para o outro, por outro lado a responsabilidade e o que dela deriva são considerados de forma diferente.

Ainda a respeito da responsabilidade e do conhecimento, podemos tomar o exemplo bem conhecido do carro, que é um meio de transporte prático e mesmo agradável, mas que pode se tornar objeto de morte e sofrimento. Tudo isso depende do modo como dirigimos. Eis o sentido de responsabilidade.
Para concluirmos essa noção importantíssima de responsabilidade pessoal, eu gostaria de lhes dizer o quanto eu me sinto chocado e aflito quando, através de conversas ou da leitura de correspondências, percebo que membros da AMORC por vezes há muitos anos engajados na senda rosacruz continuam a incriminar esta ou aquela pessoa, membros de sua família, vizinhos, colegas etc., quando são acometidos por uma infelicidade, como se o simples fato de pretender que um inimigo imaginário ponha em operação práticas de bruxaria pudesse nos isentar de qualquer responsabilidade. Acusa-se mesmo crianças ou bebês de serem maléficos. Do cônjuge, diz-se que fazem feitiços. E as sogras, de quantos crimes não são acusadas?

COMPORTAMENTOS

Esses comportamentos sempre me assombram, e vocês sabem contudo o quanto eu me esforço para dar provas de humanismo em todas as circunstâncias. Esses exemplos se aplicam particularmente aos habitantes da África e das Antilhas, cujos costumes e mentalidade eu compreendo e respeito. Não achem que eu queira estigmatizá-los. O que é válido para os africanos e antilhanos também o é para muitíssimas pessoas ao redor do mundo, inclusive no Ocidente. Isso também se aplica à Índia, à América do Sul e a alguns rincões da Rússia e da China, além de outras regiões de nosso planeta.

As igrejas sempre pregaram a multiplicação de forma a garantir assim um bom reservatório de fiéis, até um passado recente um bom contingente de escravos e, em nossos dias, um maná interessante para os mercadores de armas, de remédios, para os laboratórios farmacêuticos etc.
Se você mantém relações extraconjugais, não se espante se o seu esposo ou esposa ficar com raiva ou lhe deixar, ou ainda se você contrair alguma doença por vezes mortal.

Por que se surpreender quando se é roubado ou abusado materialmente se não se é prudente ou vigilante? Um acidente de trânsito é tão surpreendente se se dirige mal ou se o estado das estradas ou veículos é defeituoso? Não, vocês hão de convir que não…

Não quero lhes oprimir, mas esta é a constatação. Não é um feiticeiro vodu, qualquer malefício ou mau pensamento que provoca os acidentes de trânsito. Por que seria esse, por exemplo, mais o caso da África do que de qualquer outra parte do mundo? Algumas condições de vida são difíceis e ainda o serão por muito tempo se recusarmos a mudança. Muitos têm interesse em que as pessoas fiquem vegetando entre as superstições e a ignorância: eu não!

SEJAMOS INOVADORES

Os anos passam e vou ficando mais velho. Logo virá o momento em que deixarei meu cargo de Oficial na AMORC e depois, espero que o mais tarde possível, o momento de minha transição. Não quero aumentar meu carma e ser repreendido por não ter aproveitado a palavra que me era dada através de minha função para fazer o bem. Enquanto irmão e Imperator, eu lhes suplico que evoluam e tomem em suas mãos os seus destinos, não por meio das guerras que fazem a felicidade dos mercadores de armas, mas por meio de uma revolução de consciências, pela dominação do espírito e por uma recusa de serem rebaixados em nome de costumes ou de tradições por vezes degradantes. Sejamos mais modernos, sejamos vanguardistas, sejamos inovadores. Como podemos querer nos beneficiar do progresso se pensamos, falamos e vivemos exclusivamente como nossos ancestrais? Ou então, se fizermos outra escolha, aceitemos suas consequências, mas não nos deixemos cobrir de contradições. Eu lhes aconselho a assumir suas responsabilidades e deixar de projetar seus erros sobre o outro. Sejam lúcidos quanto a si mesmos, quanto às suas capacidades e quanto ao seu meio.

Alguns de vocês certamente me julgarão muito severo e talvez até nutram quanto a mim alguns pensamentos negativos ou pelo menos de incompreensão. Porém, como eu dizia antes, estou chegando a uma idade em que posso me dirigir a vocês como um irmão, mas também como um pai amoroso. Eu não seria digno de minha função se agisse de outra forma.

Eu poderia facilmente, caso eu fosse mal intencionado e desonesto, brincar com tudo isso e manipular as mentes. Tanta gente abusou de pessoas frágeis e angustiadas no decurso da história da humanidade que eu sinto vergonha por elas, mas também por suas vítimas. De fato, essas últimas foram certamente enganadas, mas muitas vezes também deram prova de estupidez e de irresponsabilidade. O célebre poeta Jean de la Fontaine escreveu, concluindo sua fábula “O Corvo e a Raposa”: “todo bajulador vive às custas daquele que o escuta”. Isso quer dizer que devemos dominar o ego, pois quando ele é adulado nós perdemos toda noção de realidade e podemos então ser facilmente enganados. Infelizmente, isso acontece muitas vezes e se por um lado devemos, naturalmente, manter em nós aquilo a que chamamos “confiança”, por outro é preciso que não sejamos crédulos. Em termos absolutos podemos compreender, ou mesmo perdoar, todas as pessoas que estão na ignorância e que abusam ou se deixam abusar. Sejam vocês membros da Antiga e Mística Ordem Rosacruz ou simples leitores dessa revista, vocês certamente sabem e aprenderam isso.

SER LIVRE

Em suma, para retomar as três ideias desse começo de mensagem, seja um ser pensante, atuante e responsável. Um verdadeiro místico adquire o conhecimento, mas não se revolve na superstição que não deve ser confundida com a história, a lenda e a tradição. O místico vive erguido e olha reto diante de si, com os olhos bem abertos para as realidades. O místico é um ser livre que, mui frequentemente, vivenciou confrontos para poder viver plenamente sua liberdade de consciência e de fé – liberdade a qual ele carrega no fundo de si mesmo. A história está infelizmente repleta de numerosos exemplos.

Ao contrário de um místico, o religioso faz parte de um grupo de crença determinada. Essa crença está encerrada num dogma muitas vezes muito limitador, penoso e com suas proibições, suas leis e seus tabus. E é nesse ponto que podemos nos perguntar sobre a norma. Quem é normal e quem não é? Onde se situa o ser humano perante a norma? Aparentemente, o ser dito “normal” é aquele que ingressa num esquema estabelecido pela sociedade na qual ele evolui. Quando essa pessoa sai do sistema e deixa o caminho traçado para tomar outra direção, assim que ela se questiona e se interessa por outras coisas além daquelas que são apresentadas a ela, ela então se torna anormal – fora da norma.

Ora, se observarmos a evolução da humanidade, é forçoso constatar que foram justamente os chamados “anormais” ou “marginais” que fizeram avançar as coisas. Os pesquisadores, os inventores, os cientistas, os filósofos e os artistas não entraram no esquema clássico de sua época. Pode-se dizer que um místico – não estou falando de um religioso – também está “fora da norma”. Sua estrada é menos retilínea, mas muitíssimo mais interessante e vivificadora.

NOVA ORIENTAÇÃO

Como o assunto desse texto é principalmente o misticismo, vou agora distinguir com vocês duas categorias de místicos, mesmo que haja quase a mesma quantidade de indivíduos, haja vista que cada um empreende sua própria busca. Há aquele que tem plena consciência da busca esotérica que faz. É uma escolha refletida. Podemos chamá-lo de “místico consciente”. Há então o “místico inconsciente”, que ignora até mesmo o fato de que tem a atitude de um místico. Seu comportamento é inato e natural. Definindo-se como ateus ou como místicos, todos os homens e mulheres no decurso de suas existências sentem no fundo de si mesmos uma paixão, uma intuição e uma espécie de energia latente que só pede para ser exprimida em determinados momentos, que podem ser muito curtos ou durar vários dias ou semanas. Sentimos no fundo de nós mesmos um tipo de paixão que poderíamos definir como uma iluminação, um apelo para o mais alto, um tipo de êxtase ou de energia que só quer ser expressada. Estou certo de que cada um de vocês sentiu, no decurso de sua vida, esse tipo de inspiração e de emoção. Esse estado de espírito traz a plenitude, o bem estar físico ou moral, o desejo de mudança ou a vontade de dar uma nova orientação à sua vida e às suas ações.

Ao longo de toda a história da humanidade, homens e mulheres sentiram essa paixão interior que os levou a realizar uma grande obra. Eles se tornaram guias para os seus contemporâneos e de certa forma faróis para as gerações seguintes. Através de cada obra, cada ação ou cada ideia que esses homens nos legaram há um significado profundo, pois elas são obra de seu subconsciente – daquilo que podemos chamar de ser interior ou o eu real ou profundo. É uma expressão e uma parte do mundo que vive e se exprime através de suas aptidões artísticas e outras.

Mas ninguém precisa ser artista, poeta, musicista ou pintor para viver essa mutação espiritual. Tampouco há necessidade de ser filósofo, cientista ou inventor para sentir esse fogo interior. Todos os seres humanos podem vivenciar essa tomada de consciência – essa metamorfose positiva. Essa mutação ou alquimia à qual me refiro talvez tenha um detonador dentro de você – uma chave que lhe deu acesso à fé rosacruz ou, em todo o caso, a um desejo de outra coisa.

Quando se apreende e integra esse conceito místico pela experiência, experimenta-se momentaneamente o estranho e sutil sentimento de que o mundo físico e material é irreal – uma simples ilusão. Pode até mesmo acontecer de se experimentar uma perda de contato, felizmente momentânea, com as coisas da vida cotidiana. É como se do mais profundo de nossa alma emergissem princípios e sensações dissociados do mundo material em que evoluímos.

DÚVIDAS

Nesse élan místico, dúvidas podem se instalar, acarretando um questionamento de determinadas coisas estabelecidas. O sentido dos valores muda. Relativiza-se seu interesse e sua importância. Aprende-se a medir, a se desapegar e a ver a vida por outro ângulo mais interessante. Tal experiência pode ser um grande passo para a sabedoria e não é tão rara quanto se imagina. Não há dúvidas de que todos experimentam, ao menos uma vez na vida, esse tipo de sentimento profundo, que ouçam esse apelo interior e fiquem perturbados por esta sensação tão peculiar.

Porém, mais uma vez é preciso aceitar e ter a honestidade de reconhecer que recebemos essa graça e experimentamos essa experiência excepcional. É o que se recusam a fazer os ditos ateus – os adeptos absolutos do materialismo. Estes creem que tudo aquilo que não é calculável e mensurável pelas faculdades sensoriais é apenas ilusão, ao passo que a pessoa aberta à espiritualidade aceita toda experiência mística e toda emoção interior como uma realidade. Diante da plenitude de uma experiência mística, o ateu ocultará esta sensação emocional e recusar-se-á a abrir a porta que se encontra diante de si por medo de lá descobrir uma verdade que vai de encontro aos seus princípios, os quais lhe foram inculcados desde o seu nascimento ou nele se forjaram com os anos – verdade esta que seria um questionamento para ele e uma convulsão interior intransponível e insuportável. É como se a luz escondida atrás dessa porta o cegasse para sempre.

ILUMINAÇÃO

Aqueles que ousaram abri-la e cruzar o umbral vivenciaram aquilo a que se pode chamar “iluminação”. Essa luz acompanhará sua mente e seu coração em sua vida presente e sua alma para sempre, para além do tempo e do espaço. Essa experiência mística é ao mesmo tempo a mais maravilhosa e a mais rudimentar. A porta a ser aberta e o umbral a ser cruzado aos quais acabo de me referir não são naturalmente nada mais do que um estado de percepção que conduz a um estado maior e o qual é levado a se desenvolver por uma expansão contínua de consciência.

Podemos defini-lo como a ideia de que o ser humano que somos pode estar em contato com Deus. Esse tipo de experiência acontece muitas vezes no decurso de nossa primeira infância, mas os sentimentos que ela provoca ficam adormecidos por muito tempo no segredo de nosso coração e não despertam, ou só despertam mais tarde. Cada ser é um místico que se ignora como tal mas que é suscetível a todo instante a encontrar diante de si uma porta que conduz a um campo de consciência infinita.
Essa busca muitas vezes inconsciente e secreta é frequentemente difícil de ser empreendida sozinho, mesmo que por definição o ser seja o único responsável por suas escolhas, pensamentos, palavras e ações. Os membros da AMORC sabem disso, pois escolheram se unir a outros que também caminham para o mesmo objetivo abrigados por uma mesma egrégora.

SER MÍSTICO

Na nobre escola rosacruz não há mestre e discípulo. Há apenas homens e mulheres que partilham um mesmo ideal e que se empenham em abrir a porta e avançar. Não se diz que a união faz a força? Pelo seu próprio percurso, você pode se definir como místico, pois um ser místico é alguém que vive em harmonia com sua consciência objetiva, com sua intuição e com seus sentimentos. Ser místico não significa ser perfeito, mas simplesmente, num primeiro momento, ter consciência daquilo que seria necessário fazer para sê-lo.

Ser místico é saber, além da utilização de nossos sentidos objetivos – a visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato –, utilizar outras forças, explorar outras possibilidades e permanecer à escuta de nossos sentidos interiores.

Como pode uma pessoa unir-se aos místicos? Como ela vem a se interessar pela espiritualidade? Quais foram os seus questionamentos ou as razões que a levaram a um diálogo com Deus? Isso pode ter ocorrido após circunstâncias particulares que podem ter sido felizes e agradáveis, mas no mais das vezes acontece após provações penosas, ou mesmo dramáticas, que produziram nela uma mudança de estado de espírito e de atitude.
O medo, a pena, a dor, a doença e a angústia são, assim como o amor, estímulos que moldam o ser humano e ocultam temporariamente sua consciência objetiva. É então que o milagre pode se produzir e um fogo – o fogo sagrado – pode surgir do mais profundo de nosso ser, libertando o nosso ardor – nosso poder criativo e nossa vontade de mais e de melhor. É mais ou menos como um parto, pois após a gestação vem a vida – a realização.

É nesse sentido que se diz que “o Verbo se fez carne”. Nosso espírito se tornou criador e nossos pensamentos se concretizaram numa obra que reflete nossas aspirações mais profundas – nosso verdadeiro eu reunido com a consciência universal. O acionamento dessas leis naturais e universais é o desfecho de atos e processos simples acrescidos uns aos outros, como para a construção de um edifício que é erigido pedra por pedra. Basta conhecer as leis e suas aplicações.

VIDA PLENA

Esse saber-fazer e esse conhecimento fazem a diferença entre um ser místico consciente e alguém que não o é ou que o é de forma intermitente, ocasionalmente e sem convicção absoluta. O místico consciente vive plenamente cada pensamento e cada ato, ao passo que o outro sofre e não compreende aquilo que acontece a si. Porém, as leis cósmicas são as mesmas para todo o mundo, crentes ou não. Não obstante, as possibilidades oferecidas pelo subconsciente são extraordinárias, ilimitadas e infinitas a tal ponto que é difícil, e mesmo impossível, avaliá-las por meio de nossa consciência objetiva.

SABER PEDIR

Você, que está lendo esse artigo, caso seja rosacruz saiba que, quando se deparar com um problema, basta colocar todos os dados deste naquilo que eu chamava, no começo dessa mensagem, de “seu computador pessoal”, ou seja, em sua consciência, e pedir ao seu Mestre Interior que lhe dê a melhor solução. “Pedi, e vos será dado”. Contudo, é preciso ainda ter o cuidado de pedir com convicção e estar pronto para receber a resposta com atenção. Para recebê-la, você também sabe que deve liberar o pensamento, pois se o retiver ele não poderá se elevar e ser “acolhido”.

Se observar bem esse processo, você receberá muito rapidamente uma resposta de diversas e inesperadas formas. Para alguns, pode ser na forma de um encontro fortuito. Para outros, pode ser uma leitura, uma música, uma visão, um sonho… Esse mecanismo detonador traz à mente muitas vezes a seguinte reflexão: “por que não pensei nisso antes?”.

E sim! Tudo parece mais fácil quando se sabe que uma realização, mesmo complexa, pode ser fragmentada como um quebra-cabeça e depois reconstituída, pois se a vida pode ser considerada como uma globalidade, ela é antes de tudo uma sucessão de atos simples. É nossa mente, frequentemente tortuosa e em busca do demasiado absoluto, que complica o vivido de cada instante de nossa existência.

Infelizmente, estamos muitíssimas vezes fora da realidade do instante presente. Ou permanecemos voltados para o passado, mergulhados em nossas lembranças e remorsos, ou então projetados para um futuro imaginário e totalmente inacessível. É por essa razão que é sempre recomendável aproveitar o instante presente a que acabo de me referir, mesmo se não nos esquecermos do passado e já vislumbremos o futuro.

VIVER O ESSENCIAL

Não passemos ao largo do essencial de nossa vida. Isso é viver. Isso é ser verdadeiro. Isso também é ser místico.

Mas por que e como nos distanciamos desse princípio essencial? Deixamo-nos pura e simplesmente invadir exterior e interiormente por aquilo a que se chama globalmente de “a sociedade de consumo”. Somos servis a ela e para satisfazê-la nós amordaçamos a nossa consciência, intimando ao silêncio o lado mais positivo de nossa natureza – de nosso eu profundo.

Certamente, está fora de cogitação renegar a importância do aspecto material da existência. É uma necessidade e uma realidade com a qual nos confrontamos a cada segundo. Todavia, paralelamente a essa preocupação constante e inevitável, devemos ainda nos deixar acalentar – não pelo canto das sereias, mas pela música das virtudes e das emoções que proporcionam o amor ao próximo, o senso da partilha, a bondade, a coragem, a lealdade e a fidelidade.

Saibamos ainda deixarmo-nos invadir pelo silêncio, pela paz profunda e pela alegria interior. Saibamos comungar com Deus, com os outros e conosco. Utilizemos mais a nossa intuição ao invés de crermos cegamente nas palavras enjoativas de um discurso publicitário superestimado e mentiroso – e isso em todos os âmbitos, quer se trate do comércio, da política ou da espiritualidade.

O místico aplica o conhecimento que adquiriu e sabe que a intuição é uma expressão interna de si mesmo. Ele não se deixa adormecer e fica atento para não se perder num mundo ilusório que o arrasta para uma corrida desenfreada e vã, que não o levará a parte alguma. Para ir aonde? Para procurar e encontrar o quê? A utopia, tal como a concebe um místico, não é uma ilusão. É um objetivo a ser conseguido – uma busca pelo absoluto – uma esperança e um voto formulado.

VIVER O AGORA

O texto “Utopia Rosacruz” é um perfeito exemplo disso. Podemos, porém, fazer melhor do que esperar. Podemos, sem esperar por dias melhores, – e por essa outra coisa que talvez não venha nessa encarnação presente – pôr em movimento as forças que existem em nós vivendo, como eu dizia, o tempo presente. Sejamos pensantes, atuantes e responsáveis, e não marionetes de forças decadentes e joguetes de uma sociedade demasiado materialista.

Ser místico é também cultivar, mesmo que desajeitada e imperfeitamente, a inteligência e o dinamismo. De acordo com uma expressão que eu aprecio e uso muitas vezes, saibam “ir adiante”.

Não esqueçam que, a cada vez que damos um passo adiante, é a humanidade inteira que o dá conosco. Caminhemos na verdadeira vida – aquela que não se limita à nossa e nem ao tempo que nos é próprio nessa encarnação. Caminhemos nesse espaço infinito em que tudo se torna possível. Na “verdadeira vida” temos acesso ilimitado ao grande poder universal – uma proposta perpétua e mais eficaz do que as que nos vendem as operadoras telefônicas. Tomando consciência do que é essa “verdadeira vida”, detemos a chave que dá acesso a todas as soluções – e por que não à felicidade?

Porém, mais uma vez essa noção é relativa a cada indivíduo e, portanto, bastante pessoal. Se globalmente pode-se afirmar que a felicidade é um estado de perfeita satisfação interior, a alegria é um sentimento de plenitude – uma emoção forte e agradável que, tal como uma centelha, jorra do mais profundo de nosso ser.

SER FELIZ

A felicidade e a alegria não estão no exterior de si. São reflexo de uma faceta da divindade que trazemos em nós e há diversas maneiras de senti-las, vivê-las e manifestá-las. Algumas pessoas podem ser muito felizes por estarem em bom estado de saúde após uma longa e penosa enfermidade. Outras experimentarão uma alegria imensa ao receber uma quantia de dinheiro inesperada que lhes permitirá sair de uma situação difícil. Os exemplos são muitos e variados. É preciso que compreendamos, aceitemos e assimilemos a felicidade e a alegria que nos são oferecidas e que são apenas a essência de vida que corre em nós e que percebemos ao viver o instante.

Imagine-se no deserto e quase morto de sede. O maior tesouro do mundo não seria para você um copo de água fresca? Você não daria então todos os bens materiais de que dispusesse para evitar uma morte certa? Nesses instantes nada mais ocuparia o seu pensamento a não ser esse copo d’água, mas… pensamos nisso em nosso cotidiano quando matamos nossa sede? E, no entanto, esse ato nos proporciona um bem-estar que leva a uma forma de felicidade.

O TODO E NÓS

O mesmo ocorre com o ar desde a nossa primeira respiração. Temos consciência de que esse ar é uma emanação sutil da consciência cósmica? O ar é um elo que nos une todos – homens, mulheres, animais, vegetais e minerais. O ar e sua energia vital se nutrem da terra, dos oceanos, dos rios, dos córregos e dos lagos. Tudo aquilo que a sua substância cria nos é restituído e é essa a razão pela qual devemos respeitar o nosso meio ambiente. Isso também é ser místico!

Tomando consciência da importância da água e do ar, prestamos homenagem à nossa mãe Terra, a toda a natureza, à vida e a Deus. A osmose é total entre os elementos naturais e o ser humano. Não se dissociar do grande Todo é ser sábio e ter uma atitude mística responsável. Ser místico é viver em harmonia com seus três corpos: o físico, o mental e o espiritual. É, portanto, permanecer em comunhão harmoniosa com o mundo animal e com os reinos vegetal e mineral, tendo consciência de que somos apenas um indivisível.

SABER ESCOLHER

Qual comportamento deve demonstrar um ser místico em sua vida de todos os dias? É muito simples e muito complexo ao mesmo tempo. Ser místico é conhecer e assumir suas responsabilidades, seja em sua vida familiar, profissional ou espiritual. Um místico pensante, atuante e responsável não se nutre de elementos negativos e vis. Ele escolhe suas relações, seus programas televisivos, suas relações online, suas leituras etc. Porém, ele também não emite julgamentos apressados e não condena sem ter tentado compreender o porquê e o como das coisas e dos acontecimentos. A atitude do místico é aberta e ele sabe respeitar o direito à diferença e a liberdade de expressão de cada um. Ele sabe prestar auxílio, confortar e dizer palavras fraternas a quem delas necessita. Ele aceitará filosoficamente, mas sem decepção, as provações que balizam sua vida, pois o místico não está isento de lições. Ele apenas tem um pouco mais de facilidade para assimilá-las.

O místico sabe que é o artesão de sua própria felicidade e de seu futuro, mas também de muitos de seus problemas. Em sua parte “atuante”, o místico é prestativo. Ele cultiva essa qualidade ao longo de toda a sua vida, conforme a sua idade e suas forças, pois ninguém é obrigado a fazer o impossível. O místico não vive fora do mundo, e sim dentro dele, por ele e para ele. Poucas coisas na vida de todos os dias distinguem o místico dos outros, a não ser uma atitude humilde, ponderada e simpática. O místico ora, medita e agradece o Deus de seu coração pelas benesses tanto quanto pelas lições recebidas. O místico não tem medo, o que não o impede de ser prudente e advertido. Ele sabe que um dia de penas pode terminar com um radioso crepúsculo. Ele sabe que a única coisa permanente é a mudança e que esta pode conduzir ao melhor e, quando isso não acontece, conduz ao menos a outra coisa – a uma nova aventura.

SEM TEMOR

A maior mudança, porém – inevitável e muitas vezes temida –, é frequentemente a da transição. O místico se prepara com toda a serenidade para essa última iniciação, a qual permanece sendo um mistério e uma dor para aquele que ignora para onde o conduz essa mudança, que se assemelha a um fim mas que não é. É da ignorância, e apenas da ignorância, que o ser humano deve ser libertado para afastar as trevas, os limites do desconhecido e o medo. Ser místico é, portanto, não temer sua própria morte e se preparar para esse futuro estado de consciência.

Como acabo de falar do medo e do temor que nos habitam mui frequentemente, eu gostaria de me reportar a um termo do qual ninguém escapa nos últimos anos: a crise!

CRISE E MUDANÇA

Desde que o mundo é mundo, essa noção sempre existiu e para sempre existirá, uma vez que tudo é mudança, que nada dura e que tudo é efêmero. Esta célebre “crise” não existe como tal. Nós mesmos a instalamos em nossas mentes, tendo sido imensamente auxiliados para isso pelos nossos políticos e pela mídia. Falar da crise é criá-la e se instalar dentro dela. De que serve dizer que a catástrofe é inevitável e irreversível e que nos leva ao desastre ao passo que se trata da transmutação natural e contínua de nossa humanidade? As coisas eram realmente mais fáceis para os nossos ancestrais? Serão mais difíceis para os nossos descendentes? Nada é certo! Nada está escrito! O destino da humanidade e da terra que a acolhe continuará sua evolução cíclica. É difícil predizer hoje se as coisas serão melhores ou piores, mas o que podemos afirmar é que serão diferentes. Um ser místico tem consciência disso e não se apieda de sua sorte. Ele observa, analisa e se adapta. Ele aceita questionar-se a si mesmo, empreende, cria e avança. Ele utiliza seus conhecimentos e sua energia para evoluir na sociedade sem se resignar.

Essas resoluções nos reconduzem à noção de responsabilidade sobre as quais falei anteriormente. Essa responsabilidade nos incumbe, pois estamos sozinhos face às nossas escolhas e é um erro contar com a assistência da sociedade e dos outros para sairmos de nossas dificuldades. É indispensável assumir-se, mesmo que as noções de fraternidade, de solidariedade e de partilha sejam uma realidade e um dever não-negligenciável.]

INTUIÇÃO

O místico se utiliza bastante também de sua intuição e se esforça para ser clarividente e enxergar além das aparências. Ele lê no coração e na alma do outro. O místico faz de tudo para se elevar acima do cinza do mundo. Ele vai além das nuvens e vê dessa forma o sol. Ao mesmo tempo só e reunido com o grande Todo, ele jamais esquece que, para realizar grandes coisas, é preciso saber fazer perfeitamente as pequenas. O místico sabe que o dever bem cumprido é um ato de amor e de serviço. O ato de amor se materializa pelo e no serviço. Ora, para que o serviço se revista de todo o seu valor, ele deve ser desinteressado. Deve ser uma doação de si aos outros, consentida na alegria e não vivida como um terrível sacrifício. O amor e a doação não devem ser comparados ao sofrimento e à renúncia: ao contrário. Se esse fosse o caso, então não se trataria mais de amor, mas de masoquismo. O verdadeiro serviço só proporciona bons sentimentos e nada espera em troca.

QUATRO VIRTUDES

O místico faz de tudo para cultivar e manter quatro virtudes fundamentais e merecer assim o nome “místico”: o conhecimento, o serviço, a compaixão e o amor. Essas virtudes derivam uma da outra e chegam a se confundir numa unidade perfeita para formar uma única entidade e nos aproximar assim do estado de Rosacruz. A estrada, porém, é longa e a ascensão, árdua, balizada de provações e com muitas pedras no caminho. Vontade, perseverança e confiança são três virtudes a mais a serem manifestadas se quisermos realizar nossa elevação espiritual. Podemos realizá-la todos juntos sob a égide do símbolo sagrado da Rosacruz, e graças a todas as experiências doces ou amargas que já vivemos e ainda viveremos. Essa escolha cabe a nós, pois dispomos de nosso livre arbítrio. Para resumir e concluir, eis um esboço de respostas a três questões relativas às minhas proposições.

RESUMINDO

É possível ser místico e viver no século 21?
Sim. Não apenas podemos como também devemos. É a única alternativa possível que se oferece à humanidade.

O que procura o místico?
Fundir sua alma no absoluto e viver em comunhão permanente com Deus – não fugindo do mundo e de suas contingências, mas dominando sua vida nas coisas cotidianas, mesmo as mais anódinas. Ele permite que a grande luz de sua consciência ilumine sua existência e suas ações. A mente do místico não é confusa. Ao contrário, é límpida e clara. Ele tem confiança em si e dá provas de coragem diante dos problemas.

Como se reconhece um místico?
Se você encontrar um ser, seja ele homem ou mulher, ativo, aplicado em seu trabalho, compassivo, generoso, estimado por seus amigos, tolerante em termos de religião e outros assuntos, capaz de lhe fazer entrever a magnificência e o poder cósmicos em todas as coisas com plena simplicidade através de sua atitude e em poucas palavras, então o seu olhar terá cruzado com o de um místico.

Ser místico é tudo isso e ainda mais! Sejamos pensantes, atuantes e responsáveis! Sejamos também esclarecidos e fraternais e vivamos em harmonia e com inteligência com os outros, com a natureza, com o cosmos e com Deus. Tendo os pés no chão e a cabeça nas estrelas, sejamos místicos!

Christian Bernard
Imperator da Ordem Rosacruz AMORC

Publicado na revista “O Rosacruz”, Outono de 2014
Publicação autorizada pela Grande Loja para a Jurisdição de Lingua Portuguesa
http://www.amorc.org.br


Sobre o autor

Ordem Rosacruz AMORC

Ordem Rosacruz AMORC

A Ordem Rosacruz - AMORC é uma organização internacional de carácter místico-filosófico, que tem por missão despertar o potencial interior do ser humano, auxiliando-o no seu desenvolvimento, em espírito de fraternidade, respeitando a liberdade individual, dentro da Tradição e da Cultura Rosacruz.

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