Ciências Antigas Tantra

Tantra – O Caminho da Aceitação

João Carlos Melo
Escrito por João Carlos Melo

Não é fácil explicar o Tantra, assim como não o é falar de Reiki; e escolhi a ambos como caminhos na minha vida. Mas não é fácil porque é simples, e através da história os seres humanos sempre complicaram o simples, complexizaram o que é natural, preconceituaram o espontâneo, condenaram o puro. Vou contar uma passagem da vida de Freud e uma parábola sobre a Criação, que podem ajudar a introduzir o tema.

Contam que Freud e sua esposa estavam passeando num parque, quando se aperceberam que sua filha menor tinha desaparecido. A mãe desesperada já estava disposta a percorrer cada canto do parque para encontrá-la. E, então, Freud lhe perguntou: Você a proibiu de ir a algum lugar específico?

Sim, disse a mãe. Eu disse que não se aproximasse da fonte. Então, ponderou Freud, se eu estiver certo é lá que ela vai estar. E ela estava!

Deus indicou a Adão e Eva o caminho do Paraíso. Mostrou-lhes a árvore sagrada e disse a Adão: “Nunca toque o fruto desta árvore!” Adão, talvez por ter sido o primeiro homem, a primeira criança a existir, era obediente. E não o tocou nem comeu! É claro que Ele previu tudo isto, afinal é d’Ele o roteiro! Então, Deus transformou-se na serpente e foi tentar Eva. E deu certo!


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Deus e demônio, serpente e salvador, são um só. Semente e árvore também, assim como o inferior e o superior. Um está contido no outro. O inferior torna-se superior, a lama torna-se lótus!

Assim o sexo é o caminho para a supraconsciência, pois ambos também são um só. O que os distingui e os separa é a consciência limitada do ser humano, e as neuroses que a alimentam.

Quando falamos sobre Tantra, em sua origem, falamos sobre sexualidade sagrada, falamos sobre um caminho para o despertar da consciência suprema; falamos do Divino disfarçado de serpente e adormecido na base de sua coluna vertebral: a energia Kundalini. Se assim o é, que mal pode acontecer? Se há tanto do Divino em você, o que pode ser mau em você? O mal e o mau devem ser sua interpretação.

Como pode o Divino acordar? Como pode a semente despertar e a árvore crescer? O que faz com que a árvore suba em direção ao céu? Que método ela segue? O Divino deixou em cada ser um código secreto, um estímulo sagrado, que lembra a cada instante a verdadeira vocação de tudo o que existe; e esta vocação, este propósito, é o Amor!

Aquilo que conhecemos e sentimos como Amor é algo confuso, cheio de apegos e aversões… Mas este não é o Amor como essência, e sim amar, um ato estereotipado e contaminado de todas as neuroses que foram introduzidas na natureza humana através do medo. Ainda assim o Amor está lá, como um diamante, ainda que com lama sobre ele. O diamante precisa passar pelo fogo, e tudo o que não for diamante desaparecerá. Ele próprio foi forjado do carbono exposto continuamente a elevadíssimas temperaturas. Assim, exposto ao fogo do Tantra, seu diamante se revelará ainda mais precioso, ainda mais brilhante.

Há templos tântricos na Índia que em suas paredes externas há milhares de esculturas de casais nas mais variadas posições sexuais. Alguns visitantes ficam chocados, acreditam que aquilo que vêm como uma ode à orgia, é indigna de um caminho espiritual. Mas ao entrar no templo vão perceber que nas esculturas seguintes os casais estão se olhando nos olhos, abraçados em profundo amor, ou apenas de mãos dadas… Caminhando ainda mais para o interior há menos casais que já não se tocam… e mais para o interior ainda já não há esculturas, apenas a escuridão e o silencio, calmo e quieto. O exterior é carnaval, é sexualidade, e o interior é meditação, é nada, é samadhi.

Você pode preferir escolher o interior, acreditar que este é melhor do que aquele. Mas lembre-se que se destruir as paredes externas, também vai destruir as internas. Sequer vai conseguir lá chegar! O santuário interior, o silêncio e a escuridão, a meditação e o samadhi não podem existir sem as paredes externas… O centro não pode existir sem a circunferência!

Sua vida exterior está repleta de sexualidade; até onde não há sexualidade sua mente vê sexualidade!, e as paredes externas do templo apenas retratam isto. E não há nenhum mal nisto, e isto é belo, e antevê a verdadeira espiritualidade, como o encontro de quem entra no templo em direção ao centro. Portanto o templo todo é espiritual, e não apenas seu interior!

O Tantra não caminha pela sensualidade cega, e também não é apenas espiritualidade; não é “esse ou aquele”. O Tantra é “ambas”, é “e”. O Tantra não rejeita nada, ele transforma tudo.

Se você rejeita você perde, você empobrece e se mantém pobre, porque deixou algo para trás sem ser transformado. Você opta por permanecer imaturo, infantil, como se um de seus pés ficasse no primeiro degrau, enquanto sua mão se estica para alcançar o último. E você viverá angustiado, em agonia, dividido pela escolha entre estas polaridades.

Se você visitar o templo apenas contemplando suas paredes externas, e esquecendo-se de seu interior, é como se alguém entrasse no templo para meditar, e rejeitasse suas paredes exteriores. Ambos estão em desequilíbrio, ambos estão pobres, pela metade, porque algo foi rejeitado, porque algo foi escolhido.

Não escolha, pois senão haverá sempre algo rejeitado, e empobrecimento. Aceite tudo, o interior e o exterior, sua humanidade e sua divindade, sua espiritualidade e sua sexualidade. E você será o ser mais rico sobre a Terra !


 

Sobre o autor

João Carlos Melo

João Carlos Melo

Prem Gyandharma (João Carlos Melo) é terapeuta tântrico, método Deva Nishok, pelo Centro Metamorfose, mestre em Reiki da linhagem Usui-Hayashi-Takata-Furumoto, coordenador de ações sociais no Brasil e em Portugal.

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